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J. Herculano
Pires

Sumário:
O que é o homem?.
PAGEREF _Toc172973385 \h 4
Primeira Parte – Parapsicologia Hoje.
1 O que é Parapsicologia.
PAGEREF _Toc172973387 \h 9
2. A história de Psi
PAGEREF _Toc172973388 \h 13
3. Cv – A visão sem olhos.
PAGEREF _Toc172973389 \h 17
4. Tp – A linguagem da mente.
PAGEREF _Toc172973390 \h 22
5. Peg – O domínio do tempo.
PAGEREF _Toc172973391 \h 28
6. Pk – A mecânica da vida.
PAGEREF _Toc172973392 \h 35
7. Tt – Janela do infinito.
PAGEREF _Toc172973393 \h 41
8. Mec – Mergulho no passado.
PAGEREF _Toc172973394 \h 44
9. Gi – Gravação do inaudível
PAGEREF _Toc172973395 \h 50
10. Pesquisas e controle.
PAGEREF _Toc172973396 \h 55
11. Hiperestesia e hipermnesia.
PAGEREF _Toc172973397 \h 60
Segunda Parte – Parapsicologia Amanhã.
1. Palingenesia: síntese dialética.
PAGEREF _Toc172973399 \h 68
2. O processo palingenésico.
PAGEREF _Toc172973400 \h 71
3. Da profecia à precognição.
PAGEREF _Toc172973401 \h 73
4. Imanência e transcendência.
PAGEREF _Toc172973402 \h 76
5. Razão da dialética palingenésica.
PAGEREF _Toc172973403 \h 79
6. Carington e a Parassociologia.
PAGEREF _Toc172973404 \h 81
7. Implicações sociológicas.
PAGEREF _Toc172973405 \h 84
8. Psi e as transformações sociais.
PAGEREF _Toc172973406 \h 86
9. Psi e a revolução cristã.
PAGEREF _Toc172973407 \h 89
10. Psi e a civilização do
espírito.
PAGEREF _Toc172973408 \h 92
11. Psi e o desenvolvimento moral
PAGEREF _Toc172973409 \h 94
12. Psi e o problema da crença.
PAGEREF _Toc172973410 \h 96
13. Psi e o realismo.
PAGEREF _Toc172973411 \h 99
14. Psi na medicina.
PAGEREF _Toc172973412 \h 102
15. Parapsicologia e Espiritismo.
PAGEREF _Toc172973413 \h 104
16. Os padres mágicos.
PAGEREF _Toc172973414 \h 107
Índice Bibliográfico.
PAGEREF _Toc172973415 \h 111
O que é o homem?
A pergunta “O que é o homem?” abre esta
edição porque corresponde precisamente à encruzilhada a que a
Parapsicologia chegou neste momento. A investigação dos fenômenos
parapsíquicos revelou à Ciência um homem de novas dimensões.
As duas linhas clássicas de interpretação
antropológica – ou as diversas Antropologias a que se refere Rhine –
encontraram a sua superação dialética na síntese do homem-psi.
Tínhamos de um lado a tese do homem
espiritual e de outro a antítese do homem animal. As concepções
religiosas em geral ofereciam-nos a perspectiva de uma Antropologia
espiritualista. As concepções científicas reduziam essa perspectiva às
limitações de uma Antropologia materialista. Mas o avanço das próprias
pesquisas científicas levou o dilema espiritualismo-materialismo
à solução que hoje se impõe em todos os campos do conhecimento,
particularmente na própria Física. E claro que a Psicologia, sujeita aos
postulados físicos como todas as demais disciplinas científicas, não
poderia escapar às conseqüências desse processo. O homem-psicológico
não pôde mais ajeitar-se na rede animal do sensório. Teve fatalmente
de se abrir no extra-sensório, como o Universo físico se abriu
no energético.
O homem-psi é a réplica do novo
microcosmo ao novo macrocosmo. Em vão reagem – e reagirão ainda por
algum tempo – certas áreas psicológicas a essa transformação radical do
seu campo de estudos. O homem-psicológico moderno está
irremediavelmente superado pelo homem-psi contemporâneo, da mesma
forma que o Universo físico foi superado pela nova concepção do Universo
energético. Pode-se alegar, como o faz Bertrand Russell, que a energia é
também um conceito físico. Mas pode-se responder, com Arthur Compton,
que o conceito de energia mudou e mudará ainda mais.
Ao superar o conceito do
homem-psicológico, o novo conceito de homem-psi não destrói
aquele: apenas o amplia. É o mesmo que se dá no tocante ao conceito de
Universo, bem como aos seus corolários de matéria e energia.
O conhecimento avança por degraus, é a subida por uma escada. Só os
precipitados pretendem negar inteiramente o passado, esquecidos de que
as conquistas recentes se apóiam nas anteriores.
A nova concepção do homem não é
materialista nem espiritualista, mas as duas coisas ao mesmo tempo.
Segundo a bela expressão de Rhine, o repúdio ao dualismo cartesiano,
decorrente do exagero que se pode chamar de dualismo-absoluto,
desaparece ante a demonstração científica da existência universal de um
dualismo-relativo. Esse novo dualismo aparece no homem como a
relação psicossomática. Os fenômenos parapsíquicos demonstram a
dualidade da composição humana.
Assim, o homem-psi é um composto de
psique e soma. Seria isto uma volta à concepção religiosa de alma e
corpo? Sim, mas enriquecida, como sempre aconteceu na dialética do
conhecimento. A alma não é mais uma entidade metafísica ou uma concepção
teológica: é o moderno psiquismo da concepção científica, mas liberto da
sujeição ao corpo. A alma não é mais um epifenômeno, um simples
resultado das atividades do fenômeno orgânico. Passou a ser a mente,
elemento extrafísico do homem, capaz de sobreviver à morte física,
mas susceptível de investigação científica em laboratório.
Abrem-se assim novas possibilidades à
própria Medicina psicossomática, bem como a todas as Ciências do Homem.
Bastaria isto para evidenciar a importância das pesquisas
parapsicológicas, como chegou a encarecer o Professor Leonid Vassiliev,
da Universidade de Leningrado, pouco antes de seu falecimento, não
obstante sua posição materialista. Acessível à pesquisa científica de
laboratório, a alma deixa de ser “do outro mundo” para se integrar
neste. A sua relação com o corpo físico mostra que ela não é metafísica,
no sentido clássico do termo, mas extrafísica, ou seja, apenas não
sujeita às leis físicas, como a considerava o materialismo.
Os pontos principais do “momento
parapsicológico”, segundo nos parece, são os seguintes:
a) Pesquisa dos fenômenos relacionados
com a morte, pelo grupo do Professor Pratt, da Duke University,
dando origem à classificação de um novo tipo de fenômeno paranormal,
denominado teta (oitava letra do alfabeto grego);
b) Pesquisa dos fenômenos relacionados
com a teoria da reencarnação, como o provam o livro já famoso do
Professor Ian Stevenson, da Universidade de Virgínia, Estados Unidos, e
os trabalhos do Professor Banerjee, da Universidade de Jaipur, na Índia,
embora ainda cercados de cautelas e reservas excessivas;
c) Pesquisa no mesmo sentido através da
hipnose por psiquiatras russos, como o caso do Professor Vladimir Raikov
e suas experiências de “reencarnações sugestivas”, embora consideradas
puramente do ponto de vista da sugestão hipnótica;
d) Prosseguimento das pesquisas sobre o
problema de padrões de memória na ESP (percepção
extra-sensorial), nos Estados Unidos e na Europa, esclarecedoras de
grande número de casos atribuídos à fraude anímica ou mediúnica;
e) Pesquisas dos cientistas
norte-americanos da equipe do Professor Puharich sobre médiuns curadores
(ressaltando as realizadas com Arigó) e da Fundação Edgar Cacy, no mesmo
sentido. Uma equipe desta fundação esteve em São Paulo fazendo
observações em 1969;
f) Pesquisas sobre gravações de
comunicações espirituais em fitas magnéticas, iniciadas por Friederich
Jürgenson, de Moinho, Suécia, e desenvolvidas pelo cientista Konstantin
Raudive e outros na Alemanha, entre os quais Hans Geisler. Tivemos
contato pessoal com o pesquisador italiano Dr. Giuseppe Crosa, de
Gênova, neuro-psiquiatra e parapsicólogo, e ouvimos algumas de suas
importantes gravações;
g) Como significativa contribuição dos
físicos e biólogos soviéticos, podemos registrar a descoberta do corpo
bioplasmático do homem, que se retira do corpo no momento da morte
(verificação experimental através de câmaras fotográficas especiais) e
cujas pesquisas podem ser conhecidas através do livro Descobertas
Psíquicas por trás da Cortina de Ferro, de Lyn Schroeder e Scheila
Ostrander, Estados Unidos, atualmente em fase de tradução no Brasil.
Essas novidades mostram uma tendência
geral do “momento parapsicológico” para a aceitação da tese da
sobrevivência do homem após a morte física e sua possibilidade de
ação sobre a matéria, segundo a tese do casal Rhine e de outros
investigadores eminentes da América, da Europa e da Ásia. A reação a
essa tendência é intensa, tanto no campo parapsicológico como no
científico em geral, mas o rigor das investigações e o comportamento
cauteloso dos pesquisadores, todos altamente capacitados, têm evitado os
tumultos e as polêmicas estéreis que praticamente barraram o avanço da
Metapsíquica.
É assim que a Parapsicologia de hoje se
abre em possibilidades para o amanhã. Essas possibilidades não decorrem,
porém, unicamente da situação atual. O que as torna mais viáveis é todo
o acervo de pesquisas anteriores em que se apóiam: as pesquisas
espíritas, as da chamada Ciência Psíquica Inglesa, as da antiga
Parapsicologia alemã, as da Metapsíquica francesa, a dos investigadores
alemães, italianos e russos – todo um vasto acervo honrado por nomes
exponenciais das Ciências em todo o mundo.
O que ainda embaraça o desenvolvimento das
investigações é o preconceito. De um lado o preconceito materialista, a
que se aferram de maneira anticientífica numerosos expoentes das
Ciências na atualidade. De outro lado o preconceito religioso, que se
recusa a aceitar a possibilidade de investigações científicas do
problema espiritual. Os dois lados se encontram na mesma ojeriza: para o
primeiro, falar em natureza espiritual do homem é cair na superstição;
para o segundo é violar a santidade do espírito. Mas o desenvolvimento
das Ciências sempre se fez apesar dessas dificuldades.
O conceito de homem-psi já está
definitivamente firmado. É uma conquista da Parapsicologia. Nenhuma
pessoa medianamente informada da evolução das Ciências nos últimos
quarenta anos pode hoje aceitar que o homem seja um animal limitado aos
sentidos físicos. Mesmo os especialistas que se apegam aos conceitos de
suas especialidades reconhecem que há alguma coisa de novo “no ar”.
Sofrem daquela “alergia ao futuro” descoberta pelo Professor Rémy
Chauvin, da Escola de Altos Estudos de Paris, mas a sua própria reação é
um indício seguro de que o futuro se aproxima.
A situação atual das Ciências é demasiado
favorável ao radicalismo. Sua evolução se faz com tamanha rapidez que
assusta a uns e exalta a outros. Precisamos usar, mais do que nunca, o
bom-senso cartesiano. Temos de ouvir o conselho de Francis Bacon: pôr
chumbo nas asas do espírito. Mas não podemos carregar demais essas
frágeis asas, para não ficarmos asfixiados no chão. Os assustados se
afundam na poeira como avestruzes. Os exaltados voam com asas de cera,
como Ícaro. Temos de evitar uns e outros e seguir passo a passo o avanço
das Ciências.
Este livro se atém à realidade das
pesquisas e seus resultados até o momento, mas não deixa de mostrar as
suas conseqüências no futuro imediato. Fechar os olhos diante do Sol que
nasce é próprio das toupeiras. Não podemos imitá-las. Somos criaturas
humanas, dotadas de razão e pensamento criador. Somos capazes não só de
conquistar os espaços siderais, mas também de descobrir a nossa própria
natureza. Recusarmo-nos a isso, em atenção a preconceitos, seria
renunciarmos à própria inteligência.
Parapsicologia é o processo científico de
investigação dos fenômenos inabituais, de ordem psíquica e
psicofisiológica. É uma disciplina científica, mas não propriamente uma
ciência, pois o seu lugar científico é nos quadros da Psicologia. Os
próprios fundadores da moderna Parapsicologia sustentam a sua natureza
dependente, embora reconhecendo a necessidade de sua autonomia
transitória. É necessário compreendermos isso para não atribuirmos à
nova disciplina uma posição excepcional no plano do conhecimento, e
sobretudo para não lhe darmos um sentido ou um caráter misterioso.
Colocando as coisas em seu devido lugar,
podemos dizer que a Parapsicologia é uma nova forma de desenvolvimento
das pesquisas psicológicas. A ambição dos parapsicólogos, dos primeiros
momentos até agora, tem sido uma só: conquistar para a Psicologia uma
área de fenômenos psíquicos ainda desconhecidos. Não quiseram e não
querem transformá-la numa ciência independente. O objeto da
Parapsicologia são os fenômenos psíquicos não-habituais, mas apesar
disso naturais, comuns a toda a espécie humana. E mais do que isso:
comuns às demais espécies vivas, pois há também a Parapsicologia Animal.
Embora situada no campo científico da
Psicologia, a Parapsicologia liga-se naturalmente a outras áreas das
Ciências. Porque os fenômenos parapsicológicos são de ordem vital,
psíquica e física. Sua complexidade é a mesma de todas as formas de
manifestações vitais. Por isso, eles podem ser estudados e interpretados
de várias maneiras, a partir de diferentes posições. Por exemplo: os
parapsicólogos norte-americanos e europeus, da escola de Rhine, encaram
os fenômenos como de natureza psicológica; e os parapsicólogos russos,
da escola soviética, encaram os fenômenos como de natureza fisiológica.
Os primeiros afirmam, atualmente, a natureza extrafísica, ou tipicamente
psíquica, desses fenômenos, que nada teriam de material; os segundos
sustentam a sua natureza fisiológica, e portanto material.
Essa e outras discrepâncias não invalidam
nem prejudicam o desenvolvimento da Parapsicologia, que se processa com
a mesma rapidez nos dois campos ideológicos em que se divide o nosso
mundo. Porque, cientificamente, pouco importam as interpretações. O que
interessa é o desenvolvimento da investigação, a descoberta progressiva,
através de pesquisas científicas bem dirigidas, rigorosamente
controladas e criteriosamente avaliadas nos seus resultados, da natureza
dos fenômenos parapsicológicos. Somente isso poderá levar a
Parapsicologia à conquista efetiva da área ou zona de fenômenos
psíquicos e psicofísicos até há pouco inteiramente desconhecida, mas já
agora bem demarcada nos mapas.
O livro do Professor Joseph Banks Rhine,
da Duke University, Estados Unidos, O Novo Mundo da Mente,
apresenta-nos essa área na forma de um mapa bem delineado. Esse mundo,
como diz o autor, só é novo para as Ciências. Porque, na realidade, é
conhecido do homem há muitos milênios. Talvez desde que o homem existe.
As Ciências atuais, que tratam de questões objetivas, deixaram de lado
vastas zonas do conhecimento antigo cuja investigação objetiva era
difícil, senão impossível. A zona dos fenômenos parapsicológicos foi uma
delas. Mas agora, que as Ciências apresentam um grande desenvolvimento
em todas as direções do conhecimento, já se torna naturalmente possível
enfrentar o perigo e correr os riscos de investigações nessas zonas.
Não é justo, pois, acusarmos os
parapsicólogos de medrosos por avançarem vagarosamente, nem os acusarmos
de temerários quando arriscam interpretações como a extrafísica de Rhine
ou a materialista de Vassiliev. Os que avançam por zonas desconhecidas
devem ter a coragem das afirmações, quando se julgam suficientemente
seguros nas suas conquistas. Mas os que ainda não obtiveram os mesmos
êxitos têm o direito de duvidar e continuar avançando de maneira
cautelosa. Isso acontece em todas as Ciências e em todas as disciplinas
científicas e não somente na Parapsicologia. Os que alegam essas
divergências como motivo para não tomarem conhecimento das novas
descobertas são apenas comodistas. Encontram uma boa desculpa para não
se darem ao incômodo de levantar-se de suas confortáveis poltronas, mas
continuam cochilando enquanto o progresso caminha com os que andam.
Apesar disso é necessário estabelecer uma
diferença entre a audácia dos exploradores legítimos e a impostura dos
aventureiros. Estes aproveitam-se das confusões naturais e passageiras
do desenvolvimento da nova disciplina científica para mais confundi-la
no espírito público, em benefício de seus interesses pessoais ou
sectários. É lícito ao investigador honesto, credenciado por seus
conhecimentos e sua dedicação à ciência, tirar ilações audaciosas de
suas conquistas, mesmo porque o fará dentro dos limites exigidos pelo
bom-senso e a honestidade. Mas não é lícito ao aventureiro fazer
afirmações infundadas e desonestas, torcendo e distorcendo as coisas
para defender a sua opinião pessoal ou de grupo.
A Parapsicologia tem sido vítima desses
aventureiros, que o povo não sabe distinguir dos investigadores e dos
estudiosos honestos. Costumam dar espetáculos públicos em nome da nova
disciplina científica, iludindo as pessoas desprevenidas, como se a
Parapsicologia fosse uma nova forma de magia e ilusionismo. Arrastam as
pessoas dotadas de sensibilidade especial às salas de espetáculo e as
exibem às câmaras de televisão, sem o menor respeito pelo critério
científico. Dão cursos de Parapsicologia sobre “comunicações com os
mortos” e coisas semelhantes, como se problemas dessa natureza já
estivessem resolvidos pela pesquisa parapsicológica, que mal os aflorou
ainda, sem chegar a qualquer resultado definitivo. E tudo isso parece
ter por finalidade o desprestígio da Parapsicologia, com objetivos
obscurantistas.
O mesmo já sofreu a Psicologia, em passado
recente. O mesmo sofreram outras Ciências e disciplinas científicas.
Ninguém pode impedir que a ignorância, a má-fé interesseira, ou mesmo a
ingenuidade promovam arruaças desta espécie em zonas pouco policiadas,
como as da divulgação científica. Mas é evidente que as pessoas
interessadas no conhecimento verdadeiro da Parapsicologia e do que se
faz, nos grandes centros universitários do mundo, a seu respeito, não
podem deixar-se embair por esses charlatães. Até mesmo nas instituições
científicas, dedicadas exclusiva e rigorosamente ao tratamento
científico da nova disciplina, eles têm conseguido infiltrar-se,
defendendo teses absurdas, sustentando hipóteses duvidosas como verdades
comprovadas ou fazendo exibições anticientíficas de sujets
paranormais.
Os interessados em Parapsicologia devem
compreender, antes de tudo, que uma disciplina científica não comporta
exibições de tipo teatral. O verdadeiro parapsicólogo, ou simplesmente o
verdadeiro estudante de Parapsicologia, jamais se apresentará num
programa de televisão ou num salão para dar espetáculos de ilusionismo e
malabarismo ou para tentar as conhecidas “demonstrações” de telepatia
pelo método de esquina de rua. A Parapsicologia se fundamenta na
pesquisa científica de laboratório, arduamente realizada, com todos os
rigores necessários do controle científico, obtendo resultados que são
submetidos a tratamento matemático para que possam ser legitimamente
avaliados. Fora disso, o que temos é simples empirismo, charlatanismo ou
ingenuidade.
Os cursos populares de divulgação
parapsicológica são benéficos quando dados por instituições científicas
idôneas, com a finalidade de esclarecer o público e adverti-lo contra as
mistificações. Seus certificados e diplomas têm apenas o valor de um
atestado de boa-informação. Esses cursos não formam parapsicólogos.
Apenas informam os seus freqüentadores quanto aos problemas e aos
objetivos da nova disciplina. É assim, apenas assim, que devem ser
encarados. Quando, pois, um pretenso parapsicólogo se propõe a “ensinar”
que a Parapsicologia nega a existência de espíritos, de comunicações
espirituais, de princípios religiosos e filosóficos, como o da
reencarnação e o da existência de Deus, os seus diplomas e certificados
não têm sequer o valor de atestado de informação sobre o assunto.
Convém deixar bem claro que alguns
parapsicólogos de renome mundial, sérios e altamente capacitados,
chegaram a sustentar, com base nas ilações que tiraram de suas
investigações, a supervivência da mente após a morte física. O Professor
Whately Carington, da Universidade de Cambridge, responsável pelas
famosas experiências de telepatia com desenhos que forneceram as
primeiras provas científicas da precognição, chegou a formular
uma teoria parapsicológica da existência post-mortem. O Professor
Harry Price, catedrático de lógica da Universidade de Oxford, sustenta a
mesma tese, afirmando que a mente humana sobrevive à morte e tem o mesmo
poder da mente do homem vivo, de influir sobre outras mentes e sobre o
mundo material. O Professor Soal, da Universidade de Londres, realizou
com êxito experiências de voz direta, nas quais a voz do
comunicante vibra no espaço independentemente do sensitivo ou médium. O
Professor Rhine, em O Novo Mundo da Mente, reconhece que nas
experiências examinadas por sua esposa, a Professora Louise Rhine, na
Duke University, há casos que sugerem a participação de uma entidade
extracorpórea.
Enquanto isso, Robert Amadou, na França,
sustenta a posição católica segundo a qual os fenômenos paranormais são
de ordem inferior, relacionados com o psiquismo animal, de maneira que
não podem provar nada a respeito da alma e sua sobrevivência. “A rigor –
escreve Amadou –, podemos aceitar que alguns elementos inferiores do
psiquismo conservem, depois da morte funcional do corpo, uma existência
própria, e continuem, assim, não propriamente uma individualidade
ilusória, que durante a vida era tomada pela verdadeira personalidade,
mas aquilo que a tradição chinesa denomina de influências errantes.
Tratar-se-ia de imagens e lembranças que não estariam ligadas a nenhuma
consciência, de fatos psíquicos isolados, segundo a expressão do
Professor Broad, de fragmentos capazes de inspirar o médium” (La
Parapsychologie, 4ª parte, cap. III, A questão da sobrevivência).
Essa posição de Amadou e Broad coincidem
com a teoria teosófica de Helena Petrovna Blavatsky da existência dos
“cascões astrais” ou corpos espirituais abandonados por almas ou
espíritos. Teoria, aliás, considerada absurda por alguns teósofos, como
se vê no livro de P. A. Sinnet: Incidentes da Vida da Senhora
Blavatsky. Sinnet considera essa teoria como simples resultado de
uma precipitação de Blavatsky. E acrescenta: “Todos quantos,
posteriormente, estudaram ocultismo, sabem hoje que o plano astral
desempenha na vida de além-túmulo um papel muitíssimo mais importante do
que a errônea teoria dos cascões nos fez inicialmente supor”
(Cap. VIII: Residência nos Estados Unidos). Mas é evidente que tudo isso
nos serve para mostrar que a Parapsicologia em si, como disciplina
científica, não nega nem prova a realidade da sobrevivência espiritual e
suas conseqüências. A controvérsia a respeito existe no campo
parapsicológico como em qualquer outro.
Torna-se necessário, pois, a distinção
entre Parapsicologia e interpretações parapsicológicas. A
Parapsicologia, como disciplina cientifica, trata objetivamente dos
fenômenos paranormais, encontrando-se ainda na orla da praia desse vasto
continente em que se estendem as planícies ou as regiões montanhosas das
doutrinas religiosas e ocultistas. As interpretações religiosas e
filosóficas dos resultados obtidos pela pesquisa parapsicológica podem
ser, de acordo com a posição do analisador, favoráveis ou contrárias à
sobrevivência espiritual do homem. Mas é evidente que mesmo nessas
interpretações existem as que se orientam pelo bom-senso e a honestidade
e as que se desmandam em distorções dos fatos visando a objetivos
sectários. Cabe às pessoas de bom discernimento fazerem a distinção
necessária.
A Parapsicologia aparece no campo das
investigações psicológicas como a conseqüência natural do
desenvolvimento da chamada psicologia profunda, a partir de Freud, e da
psicologia da forma ou Gestalt, a partir de Wertheimer. A
Psicanálise iniciou a investigação do inconsciente, que a Parapsicologia
aprofunda, e a Gestalt desenvolveu os estudos da percepção, que a
Parapsicologia amplia.
Do encontro e da fusão dialética desses
dois ramos da Psicologia surgem a teoria e a pesquisa da percepção
extra-sensorial, considerada esta como captação direta da realidade
pelo inconsciente, num processo gestáltico de percepção, ou seja,
numa forma de percepção global que os sentidos físicos não abrangem. Os
limites do psiquismo se ampliam muito além do sensório comum. A
Psicologia se liberta da sua sujeição ao físico e mesmo ao fisiológico,
sem entretanto esquecer a realidade do condicionamento psicofisiológico.
É o que examinaremos mais adiante.
Há uma pequena letra grega, chamada psi,
que os nossos estudantes de matemática conhecem muito bem e exerce papel
importante na Parapsicologia. Essa letra foi escolhida pelos Profs.
Wiesner e Thoules para designar, do ponto de vista puramente científico,
os fenômenos paranormais. Por que essa escolha? Porque era necessário
dar a esses fenômenos uma designação inteiramente livre de implicações
interpretativas. Chamando-os de psi, damos-lhes apenas um nome
técnico, sem nenhuma intenção ou carga emotiva.
Pelo contrário, quando dizemos que esses
fenômenos são espíritas ou espiritóides, metapsíquicos, mesméricos ou
hipnóticos e assim por diante, estamos ao mesmo tempo dando-lhes uma
interpretação ou pelo menos enquadrando-os numa interpretação já aceita
por muitos e rejeitada por outros. Não se trata de dar um novo rótulo a
velhos fenômenos, mas de adotar uma terminologia científica livre de
compromissos hipotéticos, a fim de que as investigações nesse campo não
encontrem novos embaraços.
A escolha foi das mais felizes. E tanto
assim que passou logo a ser adotada oficialmente. O I Colóquio
Internacional de Parapsicologia aprovou essa designação, juntamente com
as especificações feitas posteriormente por Wiesner e Thoules, com a
junção a psi de outras letras gregas para a designação dos dois
campos fundamentais dos fenômenos em causa. Os fenômenos psi
ficaram assim divididos em dois campos hoje bem conhecidos: o dos
fenômenos psigama e o dos fenômenos psikapa.
Antes de entrarmos em maiores detalhes,
façamos um esquema ilustrativo dessa posição dos fenômenos,
utilizando-nos dos próprios símbolos gregos que os designam. Os
fenômenos teta foram recentemente acrescentados:

A própria designação de psi
divide-se também em dois campos: chamamos funções psi ao
desconhecido mecanismo mental que produz os efeitos paranormais, e
fenômenos psi a estes efeitos. Temos, portanto, uma relação de causa
e efeito bem determinada, que nos oferece uma visão dupla do campo
parapsicológico. De um lado estão as funções psi, que pertencem à
mente e são de ordem subjetivo-causal; de outro lado os fenômenos psi,
que pertencem ao mundo exterior ou mundo fenomênico, dos efeitos.
Essa divisão corresponde à velha concepção
dualista, tão veementemente refutada pelas Ciências. Mas é preciso
compreender que se trata de um recurso metodológico, à semelhança dos
que são usados em todas as Ciências para facilitar o estudo dos
problemas. Na verdade existe em psi uma reciprocidade complexa,
que o Professor Rhine explica como polaridade. Psi é uno, mas tem
dois pólos. Se quisermos, psigama é o seu pólo positivo e
psikapa o seu pólo negativo. Essa interpretação arbitrária só deve
ser admitida como meio de compreendermos a complexidade de psi,
que é ao mesmo tempo una e dupla.
Outra explicação do Professor Rhine
parece-nos muito útil para melhor compreensão do assunto: não existe em
psi urna dualidade absoluta, mas relativa. É o mesmo tipo de
dualidade que encontramos nas relações psicofísicas. Na verdade, essa
dicotomia, que tanta celeuma provocou na Filosofia e na Ciência, pode
ser reduzida, segundo pensamos, a termos de teoria e prática.
Conseguimos atingir uma concepção monista do universo e do homem, mas
ela é sempre uma pura concepção. Teoricamente somos monistas, mas na
prática não escapamos ao dualismo.
Assim acontece com psi. Concebemos
psi como uma unidade indivisível: funções e fenômenos,
da mesma maneira que psigama e psikapa, fundem-se num todo
conceptual. Mas praticamente não podemos tratar de psi como um
todo. Temos de dividi-lo em campos diversos, a começar da distinção
inevitável entre funções e fenômenos. Para melhor
compreendermos isso basta lembrar que o todo não é simples, mas
orgânico. A complexidade orgânica do todo explica a necessidade
de dividi-lo para compreendê-lo.
A descoberta científica das funções psi
foi realizada pelo Professor Rhine e sua equipe de pesquisas na
Universidade de Duke, Carolina do Norte, Estados Unidos. Praticamente
podemos dizer que Rhine descobria a pólvora, pois essas funções e toda a
fenomenologia delas decorrente já eram conhecidas das antigas
civilizações e até mesmo dos povos primitivos. Em nenhum momento da
história humana, e mesmo da pré-história, podemos assinalar o
desconhecimento dessas funções e desses fenômenos. A literatura clássica
e a religiosa de todos os povos estão repletas de relatos de fenômenos
psi. E a própria Ciência já havia feito algumas incursões
audaciosas por esse terreno, com êxito muitas vezes espantoso.
Mas a verdade é que Rhine teve de provar
com enorme dificuldade a sua descoberta. O Professor William McDougall,
conhecido psicólogo inglês, pronunciando uma conferência na Universidade
de Clark, em 1926, declarou peremptoriamente que a Ciência não deve
temer as investigações paranormais, mas enfrentá-las através das
Universidades. Em 1930, por sua iniciativa, criava-se o primeiro
Laboratório de Parapsicologia do mundo na Duke University, e o
Professor Joseph Banks Rhine era incumbido de dirigi-lo.
Dado esse primeiro passo, Rhine
entregou-se ao trabalho. Começou por reconhecer a antigüidade do
conhecimento humano desses fenômenos e o grandioso trabalho de
investigação realizado pela Metapsíquica, bem como pelas Sociedades de
Pesquisas Psíquicas da Inglaterra e dos Estados Unidos. Prestou sua
homenagem a Charles Richet, o criador da Metapsíquica, ao físico William
Crookes e aos demais sábios que se haviam dedicado às pesquisas nesse
terreno, mas declarou que colocava todas essas investigações e
experiências entre parênteses, deixava-as em suspenso, para reiniciar a
pesquisa com métodos modernos e o mais absoluto rigor científico.
Não foi nada fácil realizar essa tarefa.
As funções psi eram tão conhecidas quanto duvidosas. As
investigações anteriores haviam sido rechaçadas pelo mundo da Ciência.
Rhine entregou-se exclusivamente à aplicação do método estatístico,
iniciando a investigação com fenômenos simples, em experiências
rudimentares. Era necessário provar, sem qualquer possibilidade de
dúvida, que os fenômenos existiam. Provar para a Ciência, para os homens
de Ciência, para os Tomés do método experimental. E foi isso o que
realmente ele conseguiu fazer. Mas depois de quantos sacrifícios,
quantos esforços, quanta paciência! Havia o fantasma da fraude,
consciente ou inconsciente; o problema do acaso, a suspeita da crendice.
Mas Rhine aplicou pacientemente o método escolhido, usando o cálculo de
probabilidades para exclusão do acaso e os recursos técnicos modernos
para exclusão da fraude e dos efeitos da crendice.
As funções psi que foram objeto do
interesse imediato da pesquisa, na Duke University, eram a
clarividência e a telepatia. Mas a clarividência esteve em primeiro
lugar. Num período de dez anos, através dos trabalhos na Duke e
em várias outras Universidades norte-americanas e européias, já então
interessadas na pesquisa de psi, foi ela o objeto das mais
rigorosas e exaustivas experimentações. Em 1940, como declara Rhine: “A
clarividência estava firmemente comprovada”. Mas a telepatia continuava
em dúvida. A tendência geral era de considerar este fenômeno como
simples aspecto da clarividência. Foram necessárias experiências
especiais de telepatia pura a fim de comprovar-se cientificamente a sua
existência.
O conjunto dessas experiências, que
constitui a mais audaciosa e volumosa realização de pesquisas
científicas de todos os tempos – para o simples fim de verificar a
existência ou não de alguma faculdade humana – acabou demonstrando de
maneira irrefutável que possuímos a capacidade de percepção
extra-sensorial. Assim a Ciência ratificava o conhecimento vulgar do
passado, do mais remoto passado humano. O homem pode perceber por
outra via que não a dos sentidos físicos. E o mais importante é que pode
“adquirir conhecimentos verdadeiros sobre a matéria por vias não
materiais”.
Essa conquista científica era da mais alta
importância, destinada a ampliar de maneira imprevisível o campo até
então bastante restrito da Teoria do Conhecimento. E essa ampliação se
fazia particularmente no plano do autoconhecimento. A própria concepção
do homem e dos seus poderes teria de ser modificada, não no sentido de
uma destruição do que já havíamos conquistado, mas no sentido de um
acréscimo de enorme significação.
Rhine não teve dúvidas em afirmar, logo
que os dados da pesquisa lhe forneceram os elementos necessários, que a
percepção extra-sensorial não era de natureza física. Essa
afirmação equivalia ao mesmo tempo a uma evolução e uma involução –
segundo os preconceitos científicos – na interpretação do homem.
Evolução porque avançava além das fronteiras físicas das Ciências; e
involução porque, nesse avanço, fazia-nos retroceder às concepções
místicas do passado, àquelas mesmas concepções dogmaticamente impostas
que por tanto tempo haviam impedido o desenvolvimento científico.
Quais as razões de Rhine? Primeiro, a
própria natureza da percepção extra-sensorial – que não depende
dos sentidos físicos – demonstrava a sua independência das leis físicas.
Depois, as grandes experiências de telepatia à distância provaram que
essa forma de percepção não estava condicionada pelo espaço. E depois,
ainda, as provas de precognição (Peg) e retrocognição
(Reg), surgidas espontaneamente no desenvolvimento das
experiências, provaram uma coisa ainda mais espantosa, ou seja: que essa
percepção não estava sujeita ao condicionamento do tempo. O homem pode
perceber o que acontece não apenas no presente, o que existe não somente
no “aqui” e no “agora” existenciais, mas também as coisas e os fatos do
futuro e do passado. A adivinhação e a profecia estavam provadas
cientificamente.
É fácil compreendermos a reação dos meios
científicos a essas declarações. A Parapsicologia estava ameaçada do
mesmo descrédito que havia asfixiado a Metapsíquica e a Pesquisa
Psíquica do século anterior; e isso apesar da sua prudência, dos métodos
rigorosamente científicos de que se utilizara, apesar de se haver
restringido a pesquisas de fenômenos rudimentares, na periferia do
grande mundo desconhecido dos fenômenos paranormais. E foram
precisamente os psicólogos os que mais se opuseram, os que mais
obstinadamente rejeitaram os resultados apresentados por Rhine e seus
colaboradores e continuadores.
Ficou célebre a enquete realizada
em 1938 entre os membros da American Psychological Association.
Dos 515 psicólogos consultados, apenas 360 responderam, e desses,
somente 16,6% mostravam-se dispostos a reconhecer que estava demonstrada
a existência da percepção extra-sensorial, ou pelo menos a sua
possibilidade. A consulta havia sido feita pelo Professor Lucien Warner.
Pelos dados acima vemos que apenas uma sexta parte dos psicólogos de
renome, que responderam à enquete, admitiam a existência ou
possível existência dos fenômenos psi. Não obstante, 89%
consideravam a investigação como legitimamente científica e 78% a
consideravam como enquadrada no procedimento da Psicologia.
Na verdade, mais de dois terços desses
psicólogos – que opinaram a respeito – não haviam lido jamais qualquer
informe oficial sobre as pesquisas. E Rhine acentua que um em cada três
declarou basear-se apenas em “raciocínios a priori”, o que vale
dizer, como Rhine comenta, que "mais de 30% desses psicólogos “sabiam de
antemão”, sem nenhuma espécie de prova, que a percepção
extra-sensorial não existe”. Não poderia haver maior prova da
existência do preconceito científico, ou seja, da atitude anticientífica
dentro da própria Ciência.
Surgiram posteriormente a Questão
Matemática e a Questão Experimental. A primeira se constituía
de uma série de críticas ao procedimento matemático de controle e
apuração das experiências. A segunda, de críticas ao procedimento
metodológico. Rhine submeteu o procedimento matemático ao exame da
reunião anual do American Institute of Mathematical Statistics,
de 1937, e as condições experimentais à reunião anual, de 1938, da
American Psychological Association. Esses dois congressos aprovaram
a legitimidade dos procedimentos experimentais e matemáticos das
pesquisas parapsicológicas, pondo fim àquelas duas questões.
Chegamos assim ao termo desta pequena
história de psi, pois daí por diante só os teimosos continuam a
duvidar do que não examinaram. Não obstante, é bom lembrar que só
tratamos de psi como percepção extra-sensorial, ou seja,
como psigama. Resta a história, não menos comovente, de
psikapa, de que trataremos logo mais.
A moral da história, como se vê, é a de
que o processo do conhecimento se desenvolve em espiral. Da mesma
maneira porque a Ciência teve de enfrentar o preconceito religioso, a
autoridade dogmática, para impor a sua verdade, a Religião tem hoje de
enfrentar o preconceito científico para fazer que os seus direitos sejam
reconhecidos. E isso acontece ainda mesmo quando os problemas referentes
à natureza espiritual do homem não são colocados de maneira axiomática,
mas como resultados evidentes da própria investigação científica,
realizada com o maior rigor metodológico.
É a alergia ao futuro a que se refere o
Professor Rémy Chauvin. Um exemplo dessa doença que ataca os cientistas
é o livro do Professor Otto Lowenstein, Os Sentidos, publicado na
Inglaterra em 1966. Um quarto de século após a vitória da Parapsicologia
nas próprias Universidades inglesas, o Professor Lowenstein, no final do
volume, põe em dúvida toda a pesquisa extra-sensorial, reclamando para
ela o rigor que figura nos relatórios que não quis consultar. O
Professor Lowenstein continua fechado, como um pássaro cego, na gaiola
dos cinco sentidos físicos. Como muitos outros cegos que não querem ver.
Podemos ver sem os olhos? Eis uma questão
que, se proposta a uma reunião de sábios, há alguns anos, poderia
mandar-nos para um hospício. Hoje, porém, podemos não só formulá-la, mas
também respondê-la afirmativamente, dentro de qualquer instituição
científica das mais respeitáveis. Porque a função psi,
pertencente ao campo de psigama, geralmente designada por Cv
– que é a clarividência – está cientificamente provada desde 1940. Há
mais de um terço de século, portanto, o mundo científico sabe da
existência dessa possibilidade da visão sem olhos.
Mas isso não impediu que, ainda há alguns
anos, ilustre professor de medicina publicasse entre nós verdadeiro
calhamaço em que negava a existência dessa função e de qualquer outra da
mesma natureza. Nem impedirá que, neste mesmo momento, outros livros
semelhantes, por autoridades científicas do mesmo gabarito, sejam
publicados no Brasil e no Exterior. Porque o preconceito científico é
tão cego e surdo como o preconceito religioso, de cujas entranhas
nasceu, como já vimos no exemplo do capítulo anterior.
Por sinal que o preconceito religioso
continua a criar grandes obstáculos ao desenvolvimento das pesquisas e
particularmente à verdadeira interpretação dos seus resultados. O caso
da clarividência é típico. Esta função não foi apenas a primeira a ser
comprovada cientificamente, mas também a única que ofereceu condições de
verificação experimental, sem muita possibilidade de confusão com outras
funções. A única, enfim, que pôde ser comprovada como pura, sem mistura
com as demais. Mas, apesar disso, foi justamente a telepatia, a mais
sujeita a confusões, que serviu para a criação de uma escola
parapsicológica que pretende reduzir a clarividência e todas as demais
funções psi exclusivamente a ela. O expoente mundial dessa
posição é Robert Amadou, na França, cujo facciosismo se desmascarou no
seu pequenino livro Os Grandes Médiuns.
As pesquisas de clarividência foram
relativamente fáceis, pois era fácil excluir a possibilidade telepática.
Para tanto, bastava colocar o sujet em relação com objetos
materiais desconhecidos de qualquer pessoa. Por exemplo: um maço de
cartas de baralho especial, embaralhado mecanicamente. Ninguém sabia em
que ordem as cartas se encontravam. Se o sujet era capaz de
revelar essa ordem nas séries de experiências realizadas, de maneira a
excluir qualquer possibilidade de acerto por acaso, ficava demonstrado
que a telepatia não participara do fenômeno. Excluir a telepatia não era
difícil. Mas já o mesmo não se passa com a experiência de telepatia
pura, quando se quer excluir a possibilidade de interferência
clarividente.
Essa posição cômoda da clarividência foi
completamente transtornada quando os fenômenos de precognição se
infiltraram nas experiências. Para grande número de parapsicólogos os
termos do problema se inverteram. Amadou chega a declarar
peremptoriamente: “A telepatia está perfeitamente comprovada; a
clarividência, não”. E é com base nessa afirmação que ele reduz todas as
funções psi a uma só, a telepática, servindo-se do princípio de
economia de hipóteses. Para negar, por exemplo, a clarividência na
experiência do maço de cartas, a que acima nos referimos, Amadou apela à
telepatia precognitiva. Quer dizer: o sensitivo devia perceber a ordem
das cartas na mente do experimentador por meio da precognição, ou
seja, vendo no futuro o momento em que o experimentador tomaria
conhecimento dessa ordem.
Mas o problema não é tão simples como
parece. A hipótese de telepatia precognitiva, para explicar o teste de
clarividência com o maço de cartas, choca-se com a dificuldade para
explicar a precognição. Rhine considera essas explicações como
fantásticas e sustenta a realidade da clarividência. Aliás, o número de
experiências e a variedade de condições das mesmas, provando a
existência da clarividência, acabou favorecendo a posição de Rhine. Por
outro lado, a explicação das funções psi como um todo – e
particularmente de psigama como forma sincrônica de funções
subjetivas da mente – permite-nos compreender a existência dessas
contradições no campo das explicações. A percepção extra-sensorial,
como adverte Rhine, é um complexo de funções psi que em geral se
entrelaçam da mesma maneira que se entrelaçam os nossos sentidos
físicos, apesar de sua especificidade orgânica, para obtermos todas as
sensações de um objeto.
Por isso mesmo não é estranhável que
muitos psicólogos tenham adotado posições semelhantes à de Amadou. O
Professor Whately Carington, da Universidade de Cambridge, procurou
também explicar todos os fenômenos psigama pela telepatia.
Construiu, aliás, uma curiosa teoria de associacionismo paranormal,
de certa maneira ligado à velha psicologia associacionista, que
explicaria essa redução. Voltaremos a tratar dessa teoria logo que
estudarmos o problema da possível mecânica do processo telepático.
O famoso psicólogo inglês Gardner Murphy,
debatendo com Rhine o problema, afirmou que os casos espontâneos de
clarividência estavam sempre ligados a pessoas e não a objetos ou
locais. Com isso queria dizer que a percepção de um fato, de um objeto
ou de um local, nada mais era que uma captação telepática. Amadou
considera esse argumento como “de peso”, como importante, a favor da
hipótese de sua preferência.
Mas ainda aqui é necessário advertir que a
constância da ligação pessoal não é absoluta. E mesmo que o fosse, não
significaria muita coisa, pois é evidente que vivemos, todos os seres
humanos, envoltos numa atmosfera psíquica. O centro de nossos interesses
mais profundos e vitais é sempre a criatura humana, pois ninguém vive
isolado, nem poderia, isoladamente, desenvolver as condições da espécie,
que são essencialmente psíquicas. Natural, portanto, que as visões à
distância não sejam aleatórias, mas estejam sempre ligadas a interesses
humanos.
Há casos, porém, que fogem ao esquema
telepático. Poderíamos lembrar o famoso caso das manifestações de
Hydesville, nos Estados Unidos, com as irmãs Fox, que deu origem às
investigações espiríticas. Esse é, na verdade, um episódio-marco do
desenvolvimento das pesquisas psíquicas no mundo. Por isso mesmo dos
mais combatidos e deturpados. Entretanto, conserva até hoje o seu
extraordinário valor probante. Do ponto de vista espirítico, trata-se da
prova da sobrevivência espiritual, com a perfeita identificação do
espírito comunicante. Mas do ponto de vista parapsicológico, o que ali
nos interessa é a prova da clarividência, sem qualquer possibilidade de
implicações telepáticas, a menos que se admita a tese do Professor Harry
Price, de Oxford, e do Professor Wathely Carington, de Cambridge, de que
a mente sobrevive à morte do corpo e pode agir sobre a mente dos vivos.
Nesse caso, porém, voltaríamos à tese espirítica.
Vejamos o que nos oferece o caso das irmãs
Fox, com as manifestações de Hydesville, fazendo-se exclusão da tese
espirítica e suas correspondentes parapsicológicas.
Hydesville, entre 1843 e 44, era um
vilarejo do Estado de New York. Num casebre das proximidades vivia um
casal da família Bell. A mulher viajou e o marido ficou só em casa.
Apareceu um mascate que pediu pouso. Entrou para dormir e desapareceu
para sempre. Em 1847, tendo o casal Bell tomado rumo ignorado, a casinha
foi alugada por um casal da família Weeckmann, que em breve a abandonou
em virtude de ocorrências paranormais, pancadas noturnas nas paredes e
no solo, que não os deixavam dormir. Nesse mesmo ano, o metodista John
Fox foi morar no local com sua família. Os fenômenos continuaram e as
meninas Margaret e Kate, de quinze e onze anos, respectivamente,
pareciam ligadas aos mesmos.
A 31 de março de 1848 a menina Kate
estabeleceu conversação com as misteriosas pancadas ao pedir que elas se
repetissem de acordo com certos números. Dali por diante, através de um
código convencionado, estabeleceram-se as conversações.
Parapsicologicamente a menina responderia, pelo inconsciente, através de
psikapa, produzindo os fenômenos de psicocinesia: as pancadas nas
paredes. Essas pancadas informaram que se tratava de Charles Rosma,
vendedor ambulante que havia sido assassinado no local por latrocínio.
Indicou onde o corpo e o seu baú haviam sido enterrados. Mas a escavação
revelou apenas a existência de restos de um cadáver, com fragmentos de
ossos e cabelos. O baú não foi encontrado.
Em 1904, cinqüenta e seis anos depois,
em virtude de um temporal, ruiu uma parede falsa da casa, no cômodo do
porão indicado pelas pancadas. Não se sabia da existência dessa parede,
construída paralelamente à outra. Descobriu-se, graças a isso, o
esqueleto de Rosma e o seu baú de lata, com a alça para carregá-lo às
costas. Estava provada a legitimidade da informação. E o que é mais
curioso, como notou Emma Hardinge, escrevendo para o Modern American
Spiritualism, estava provado que o esqueleto e o baú haviam sido
colocados inicialmente no local indicado pelas pancadas, de onde foram
removidos posteriormente, quando as notícias do desaparecimento do
mascate puseram em perigo de suspeita a família Bell.
O que há de importante nesse caso, do
ponto de vista parapsicológico, é o fato da percepção extra-sensorial
de Kate haver-se enganado. Como e por que ela não viu o local em que
realmente se encontravam o esqueleto e o baú, mas sim aquele em que os
mesmos haviam sido colocados primitivamente? A informação telepática
explicaria o caso: ela teria captado o episódio no inconsciente dos Bell
em algum lugar, ou o pensamento dos Bell estaria ainda voltado
para o local do crime. Mas como explicar que essa captação fosse
limitada ao momento da primeira inumação? Todo o complicado processo da
retirada posterior do esqueleto e do baú do local primitivo, de sua
trasladação secreta para o esconderijo, da construção da parede falsa,
teria sido escamoteado pela informação ou pela captação telepática?
Poder-se-ia admitir que o desejo de furtar-se à prisão fosse tão
poderoso no casal Bell que anulasse a seqüência culposa na mente
de ambos?
O Professor Stanley De Brath, citado por
Ernesto Bozzano no livro I Morti Ritornano, declara: “Se a
informação fosse de origem subjetiva, devia-se naturalmente presumir que
o subconsciente da médium teria de conhecer o local em que realmente
estava o cadáver”. Concluiu De Brath, como Bozzano, que a única
explicação possível é a espirítica: “Pois é razoável presumir que o
sepultamento no porão devia corresponder à última lembrança terrena do
assassinado”. Parapsicologicamente, parece-nos que a explicação
clarividente é mais lógica do que a telepática, pois a sensitiva podia
ter a sua atenção atraída para os restos do cadáver que ficaram no local
primitivo, e ali se fixado. Os casos de fixação dessa natureza ocorrem
até mesmo nas experiências de laboratório.
Outro caso, ainda mais enfático – pois
ninguém na Terra sabia do que se havia passado – mostra-nos como é
possível, no próprio campo das relações humanas, a ocorrência de
fenômenos de clarividência pura. Isso, do ponto de vista
parapsicológico, na linha da investigação científica, sem implicações
das teorias da supervivência. O Professor Ernesto Bozzano relatou o caso
ao filósofo Henry Bergson, que o considerou, se rigorosamente
autenticado, como “uma das melhores provas de sobrevivência”. Vejamo-lo.
O Professor Lawrence Jones escreveu à
Society for Psychical Reaserch contando o seguinte e sua carta foi
publicada no Jornal of S. P. R., número 366-7, de 1918. O irmão
do missivista, Herbert Jones, era Bispo de Lewes e Arquidiácono de
Chichester. Numa visita pastoral ao condado de Sussex, Inglaterra, ficou
sabendo do caso através do pastor do presbitério em que se hospedou.
Esse pastor foi procurado por um homem que pediu a sua ajuda num caso de
infestação. A esposa do consulente era filha de um ricaço que
morrera na paróquia, e que agora lhe aparecia em sonhos, reclamando que
haviam construído o seu túmulo sobre a sepultura de outra pessoa. As
aparições eram tão freqüentes que a mulher estava a ponto de
enlouquecer. Interrogado, o coveiro respondeu que o engano era
simplesmente impossível. O caso foi dado por encerrado. Mas o homem
voltou logo mais, afirmando que a infestação continuava. Diante
disso resolveram providenciar uma verificação legal, constatando-se que,
realmente, haviam construído o túmulo sobre uma cova vizinha. O engano
foi corrigido e as manifestações desapareceram.
Bozzano ressalta a importância teórica
desse caso, pois ninguém havia dado pelo engano. O próprio coveiro e os
parentes do morto estavam seguros de que tudo correra de maneira normal.
Parapsicologicamente não havia nenhuma possibilidade telepática. Só a
clarividência podia ser invocada, como explicação do fenômeno. Acentua
ainda Bozzano que “todas as circunstâncias convergem eficazmente para
uma demonstração da natureza positivamente extrínseca da insistência dos
sonhos, sempre idênticos”. Essa observação é perfeitamente válida para a
clarividência, pois no caso o estímulo da percepção extra-sensorial,
afastada a explicação espirítica, só poderia vir do próprio objeto
material. A linguagem onírica em que essas percepções são geralmente
traduzidas produziriam na sensitiva, filha do falecido, as reações do
sonho insistente.
Camille Flammarion relata também alguns
casos semelhantes. Um dos mais impressionantes é o de um casal francês
que perdera um filho na guerra de 1914-18 e cujo corpo desaparecera no
campo de batalha. Finda a guerra, o casal se pôs a procurar o possível
túmulo sem encontrá-lo. Por fim, conseguiu a informação de que devia
estar num cemitério de dois mil túmulos, em Dieppe. Mas como procurá-lo?
Inesperadamente, a mãe, olhando desolada pela janela, viu o filho surgir
detrás de uma árvore, acompanhado de dois soldados. Um deles parecia
russo, o outro, alemão. A visão foi persistente, a ponto de convencê-la
da realidade. O corpo foi encontrado depois numa tumba colocada entre a
de um soldado russo e a de um alemão.
Nesse caso, que Bozzano reproduz em seu
livro citado, a informação não podia ser telepática, pois os cadáveres
haviam sido removidos em massa, como desconhecidos. Só foi possível o
reconhecimento pelos pais e particularmente pelas insígnias da farda e
pela dentadura do cadáver. O estado emocional da mãe provocou a eclosão
de suas faculdades clarividentes. Afastada a explicação espirítica, só
podemos admitir a da clarividência.
Mais recente, porém, aliás recentíssima, é
a ocorrência de que dá notícias o médico e parapsicólogo norte-americano
Andrija Puharich, em seu livro The Sacred Mushroom (O Cogumelo
Sagrado), Edição Doubleday, 1959. O Dr. Puharich recebeu informação
mediúnica, por um pintor holandês residente em New York, e escrita em
egípcio arcaico, faraônico, e ao mesmo tempo em inglês atual, da
existência de uma espécie de cogumelo nos Estados Unidos do qual podia
extrair princípios ativos que atuam como alucinógenos, a exemplo da
mescalina e do ácido lisérgico. A história é comprida e cheia de
incidentes curiosos. O importante é que os caracteres egípcios foram
reconhecidos por especialistas, o nome da entidade que os transmitiu, Ra
Ho Tep, autenticado historicamente (2.700 anos a.C.), o cogumelo
encontrado “por acaso” nas proximidades de uma estrada no vale do rio
Hudson. Eram apenas nove exemplares da amanita muscaria, numa
zona em que não existe essa espécie. Puharich procedeu à extração dos
elementos indicados e produziu o ungüento receitado por Ra Ho Tep, para
aplicações experimentais. Caso semelhante ao da famosa médium Rosemary,
em Londres, com o Dr. Wood, quando – pela primeira vez no mundo moderno
– foi gravado um discurso em egípcio faraônico, reconhecido pelos
especialistas como válido.
Excluídos os elementos históricos do caso,
para concentrar-nos apenas no episódio dos cogumelos, temos
evidentemente um fato de clarividência que não pode ser explicado pela
telepatia. Os nove exemplares, e únicos, dos cogumelos sagrados, usados
nos templos egípcios para fins religiosos, encontravam-se no meio do
mato, em local não cultivado e distante de habitações. Puharich foi
conduzido até o local sem saber como, por simples intuição, chegando
mesmo a admitir que “por acaso”. Qual, e de onde a transmissão
telepática? No caso de Rosemary, a que acima nos referimos, houve também
uma curiosa comprovação histórica de tipo clarividente, uma vez excluída
a tese mediúnica. Rosemary referiu-se a uma personagem do tempo de
Amenhotep II, que não constava dos registros históricos. Mas os dados e
as circunstâncias mencionadas foram de tal ordem que a pesquisa
intensiva provou a veracidade da informação.
Mencionamos apenas estes fatos, entre
milhares deles, registrados nos anais das pesquisas psíquicas, para
oferecer alguns elementos significativos de comprovação da clarividência
através de casos espontâneos, que confirmam as conclusões de laboratório
da equipe de Rhine. Tanto a mulher do caso do Professor Lawrence Jones,
quanto a mãe aflita do relato de Flammarion, ou o pintor holandês do
caso de Puharich, como a menina Kate Fox só podiam ter visto o que
relataram pela visão sem olhos. A telepatia é incapaz de explicar esses
casos. Não obstante, como já advertimos, em muitos casos as duas
funções, a telepática e a clarividente, agem em conjugação. Para esses
casos de percepção global existe a classificação técnica de Fenômenos
GESP, ou seja, fenômenos de General Extra Sensory Perception,
que em português teria a sigla de PESG - Percepção Extra-Sensória
Geral. Rhine criou essa designação em virtude das dificuldades de
separar um fenômeno do outro e da conveniência de realizar experimentos
de conjugação, que se mostraram mais produtivos.
O livro da Professora Rhine, Canais
Ocultos da Mente, oferece numerosos casos atuais de clarividência
pura. Poderíamos citar também alguns casos de nossa experiência e
outros, de natureza espontânea, em que figuramos como sujeito.
Preferimos citar esses casos históricos, registrados por famosos
cientistas, porque a sua autenticidade requer maior dose de má vontade
para ser posta em dúvida.
Há uma tendência parapsicológica para o
mentalismo que decorre das dificuldades da aceitação científica dos
fenômenos e do perigo das implicações psicológicas. Quanto às
dificuldades, resultam, como já vimos, dos preconceitos científicos que
impedem os parapsicólogos de usarem uma terminologia de ordem mais
ampla. No tocante à Psicologia, as referências ao psiquismo integral
poderiam estabelecer confusões. Viram-se assim os parapsicólogos
limitados a uma estreita faixa do continente psíquico e fizeram o seu
acampamento na zona mental.
A impressão que se tem, aos primeiros
contatos com os estudos parapsicológicos, é a de que o homem está sendo
reduzido às suas faculdades mentais. Esse exagero deverá ser contido se
não quisermos ver o triunfo, mais hoje, mais amanhã, daquelas correntes
menos expressivas da Parapsicologia que cortam as próprias asas com medo
de se perderem no infinito e acabam por se perder na poeira da estrada.
O homem não é apenas uma estrutura mental. É um ser espiritual, um
organismo psíquico. A mente é a sua cabina de comando. Por isso mesmo
recebe ordens e expede comunicações do psiquismo em que a afetividade e
a volição, ou seja, as regiões profundas do sentimento e da vontade se
fazem traduzir em signos dinâmicos, que são os pensamentos.
Quando tratamos a telepatia como a
linguagem da mente não queremos cair no mentalismo, mas apenas dar a
essa função psi o seu devido lugar nas relações psíquicas em que
se resolve toda a vivência humana. Assim como temos a linguagem do
cérebro na palavra, temos a linguagem da mente no conceito. E assim
como a palavra não tem apenas o sentido convencional do signo, mas
também a sua carga emotiva e o seu impulso volitivo, o conceito está
sempre carregado pelo poder do espírito. Um pensamento é um vetor
poderoso que deflagra um acúmulo de energias psíquicas.
A telepatia, segundo a própria
etimologia da palavra, não quer dizer apenas a transmissão de um
sinal, mas de um estado psíquico. Aliás, a expressão usual de
transmissão não está bem aplicada. Frederic Myers foi muito feliz ao
cunhar a palavra telepatia que exprime perfeita e integralmente o
fato a que corresponde: o pathos individual comunica-se à
distância. É assim que a mente consegue estabelecer a sintonia emotiva
com outra ou com outras mentes. Transmissão e captação
telepáticas são expressões hipotéticas e impróprias que a Parapsicologia
moderna deverá superar, na progressiva compreensão da profunda
complexidade do fenômeno.
As relações mentais não se processam da
mesma maneira que as relações orais, porque estas se passam no plano
físico e aquelas no extrafísico. A teoria da sincronicidade, pela
qual o psicólogo Karl Jung pretendeu explicar as relações não causais
dos fenômenos paranormais tem a sua correspondência na teoria da
associação, com a qual Whately Carington tentou explicar as relações
não físicas entre as mentes. A primeira estabelece a relação emocional
das ocorrências parapsíquicas; a segunda, a relação analógica das
estruturas conceptuais. Para Jung o mundo psíquico, regido pelos
arquétipos fundamentais, tem por lei de relação a sincronicidade,
pois a causalidade é lei do mundo físico. Para Carington, as mentes não
são emissoras nem receptoras, no sentido de uma ligação do tipo
telegráfico ou radiofônico, mas apenas perceptivas e analógicas. As
idéias ou imagens, que ele denomina psícons, formam as estruturas
mentais que se relacionam entre si, segundo a lei da associação por
semelhança.
Essas duas teorias foram intensamente
criticadas pelos parapsicólogos das várias escolas e geralmente
rejeitadas, por não favorecerem a continuidade da experiência de tipo
físico em Parapsicologia. É claro que elas apresentam inconvenientes e
são dificilmente compreensíveis. Mas é também evidente que abrem
perspectivas para uma compreensão mais profunda de psi. Na
proporção em que as pesquisas forem revelando, como acentua Rhine, a
especificidade do psíquico, as suas leis próprias irão se impondo acima
das leis físicas que lhe pretendem aplicar. As teorias de Jung e
Carington representam precognições (e é curioso que Carington tenha
formulado a sua teoria com base na telepatia precognitiva) talvez em
linguagem onírica, simbólica, da futura colocação extrafísica do
problema de psi. No momento, servem para lembrar que as hipóteses
físicas não se aplicam ao esclarecimento dos casos paranormais.
Assim, o possível mecanismo da telepatia
exige maior compreensão da própria natureza de psi. As mentes se
comunicam por uma linguagem não articulada, mas de sintonia, não
simbólica, mas analógica. Enquanto conversamos oralmente com uma pessoa
podemos estar ou não mentalmente sintonizados com ela. Se estivermos, a
conversação será agradável e produtiva, porque as frases orais são
acompanhadas pela permuta de imagens mentais. Podemos dizer mais do que
as palavras exprimem, e perceber mais. Esse é um fato já conhecido em
Psicologia, mas que somente a Parapsicologia vem esclarecer.
Os estados afetivos, como já se comprovou
experimentalmente, facilitam as comunicações telepáticas. Isso prova que
a sintonia mental se estabelece com mais facilidade através da
reciprocidade emotiva. Daí a importância da simpatia e da
disponibilidade, que Soal verificou e aplicou em suas experiências. Daí
também a importância das drogas, da hipnose, do álcool e da cafeína
(ambos em pequenas doses), e o resultado favorável das experiências de
Urban com indivíduos tratados com eletrochoques e narcoanálise, pois
todos esses elementos, de acordo com as condições peculiares de cada
sujet, ajudam a torná-los mais disponíveis. Não que esses elementos
exógenos despertem as funções psi, mas apenas porque predispõem o
indivíduo ao exercício dessas funções, conduzindo-o a um estado
psicofisiológico adequado.
Estes fatos corroboram a tese do
dualismo-relativo de Rhine, tão combatido e criticado pelos
parapsicólogos materialistas e até mesmo pelos espiritualistas do tipo
de Amadou. Porque reafirmam a necessidade ou pelo menos a conveniência
de um certo alheamento do sujet, de um certo desprendimento das
suas tensões físicas para que ele mergulhe mais facilmente no
extrafísico, liberando as funções psi da pressão orgânica do
cérebro e do peso da rotina. O estado de aceitação dos fenômenos tem
também o mesmo efeito, porque predispõe o sujet, favorece a sua
entrega. Não é o fato, em si, de aceitar ou acreditar que é importante,
mas as conseqüências psicofisiológicas dessa atitude mental. Porque Soal
e Goldney confiam mais nas mulheres e nas crianças para as experiências
de psi? Precisamente porque são em geral menos alienadas aos
interesses e às tensões do ambiente rotineiro, e por isso mesmo mais
acessíveis ao desprendimento necessário.
Amadou não admite a tese de Rhine sobre a
natureza extrafísica de psi. Não obstante aceita a existência do
sobrenatural e estabelece uma dicotomia teológica da natureza humana.
Sua posição é a mesma dos sacerdotes que acusam os espíritas de
confundirem ocorrências paranormais com a comunicação de entidades
espirituais, mas sustentam a validade dos milagres de suas igrejas. Para
Amadou as funções psi pertencem ao corpo e ao psiquismo
fisiológico. São, portanto, materiais. O espiritual nada tem a ver com
esses fenômenos, tanto assim que os animais possuem funções psi.
Com esse golpe interpretativo ele devolve
a Parapsicologia ao Pavlovismo, a Betcherev, a Watson, a toda a escola
russo-norte-americana da psicologia sem alma. E tira à
Parapsicologia o seu papel mais importante, assinalado por Rhine, que é
o de realizar a primeira incursão das Ciências além da concepção
materialista do universo e do homem. E isso no momento preciso em que a
própria Física rompe o seu arcabouço material, avançando no campo
energético em direção a dimensões conceptuais claramente
espiritualistas. Um duplo peso parece esmagar o raciocínio de Amadou: o
da teologia católica e o da filosofia tomista. Daí a sua predisposição
para aceitar a telepatia como a única realidade psi, endossando a
tese ingênua de Murphy de que os fenômenos de clarividência, estando
sempre ligados a criaturas humanas, só podem ser telepáticos.
Lamentando que o problema da telepatia
ainda não tivesse encontrado a solução necessária, Rhine comentava em
seu livro New World of the Mind (O Novo Mundo da Mente)
que talvez fosse necessária uma conceituação melhor da mente para
aprofundar-se a questão. Essa nova conceituação decorre do próprio
desenvolvimento das experiências de psi, em quase todo o mundo. O
trabalho paciente e persistente de Rhine e os amplos resultados por ele
colhidos, com sua admirável equipe de pesquisadores, entre os quais
figura a sua própria esposa, o autorizam a fazer afirmações como as
referentes ao caso da clarividência e da telepatia. Por outro lado,
Rhine, acusado de idealista, não tem parti-pris. Sua posição é a
do cientista leal que se dedica à investigação na busca da verdade, mas
não esquece também o seu dever de sinceridade e coragem interpretativa.
As experiências realizadas pela Duke
University comprovaram suficientemente a realidade de ESP e
de Pk. A telepatia faz parte integrante do primeiro grupo. O que
Rhine entende que deve ser esclarecido não se refere à existência ou não
da telepatia, mas à sua natureza, ao seu processo. O que sabemos até
agora não nos autoriza a aceitar o velho conceito de telepatia
telegráfica. A teoria de Carington, a que já nos referimos, justifica
essa posição prudente de Rhine. Enquanto isso, as investigações
prosseguem e os resultados são de tal maneira animadores que a telepatia
é hoje objeto de uma verdadeira corrida, semelhante à atômica e à
espacial, entre os Estados Unidos e a Rússia.
Já são bastante conhecidos os trabalhos de
Vassiliev, professor de fisiologia da Universidade de Leningrado e
diretor do seu Laboratório de Parapsicologia. Bastante conhecidos no
sentido de saber-se de intensas atividades ali desenvolvidas,
particularmente no tocante à telepatia, mas pouquíssimo conhecidos
quanto aos processos e aos resultados. Sabe-se, por exemplo, que à
semelhança do que ocorre em Duke, onde Pratt se dedica à Parapsicologia
Animal, em Leningrado quem o faz é o entomologista A. Fabry. Em
entrevista concedida a uma revista russa e reproduzida na França,
Vassiliev fez referência ao trabalho de Fabry e às experiências
realizadas por ele sobre as comunicações de animais à distância.
A teoria telepática de Vassiliev, na linha
fisiológica do pavlovismo, é a da transmissão energética por ele chamada
de “meio de ligação rádio-biológica”. A maneira de Amadou – curiosa
coincidência de posições do espiritualismo dogmático e do materialismo
marxista – Vassiliev considera psi como sendo apenas “uma
sobrevivência de aptidões rudimentares, herdadas pelo homem de seus
ascendentes animais”. Pergunta o que faria o homem de hoje com poder de
“sugestão mental à distância”. considera ainda – em contradição com os
parapsicólogos ocidentais e com as experiências feitas a respeito – que
psi se manifesta entre os doentes psíquicos ou nervosos, “como
uma espécie de atavismo”. E acentua a importância das pesquisas a
respeito, por interessarem ao melhor conhecimento dos processos vitais.
Informa que milhares e milhares de experiências serão feitas na Rússia.
Em 1963, Vassiliev publicou um livro com uma tiragem de 120 mil
exemplares, intitulado: Sugestão à Distância. Em 1959 já havia
publicado Fenômenos Misteriosos do Psiquismo Humano, e
anteriormente outros livros, inclusive sobre hipnotismo.
Em 1919, Betcherev publicou Telepatia
com os Animais, seguido de mais alguns trabalhos, anos depois, sobre
“reflexos coletivos” e “atividades cerebrais”. Kajinsk lançou, em 1923,
um trabalho sobre telepatia, intitulado Transmissão do Pensamento.
Sobre o mesmo assunto, Arkadiev publicou um estudo intitulado:
Hipótese Eletromagnética da Transmissão do Pensamento. Mais
recentemente, notícias russas divulgadas na França e na Inglaterra deram
conta de experiências de Vassiliev com barreiras eletromagnéticas e
eletrônicas para impedir o processo telepático, sem o conseguir. Outras
experiências foram feitas, com diversas formas energéticas, sem nenhum
resultado, o que levou o sábio russo a informar que o pensamento é um
tipo de energia desconhecida. Essas experiências soviéticas confirmam as
de Rhine, demonstrando a inexistência de barreiras físicas para a
telepatia.
A posição da Parapsicologia soviética,
como se vê, é a mesma da corrente telepática ocidental. Não aceitando a
natureza extrafísica de psi, que seria contrária à filosofia
oficial marxista, Vassiliev e depois dele Koogan empenharam-se no estudo
de um processo rádio-emissor para o fenômeno telepático. Nesse ponto há
evidente atraso em relação aos novos conceitos do processo telepático
que se desenvolvem nos meios ocidentais e que têm, na posição de Rhine
em face das questões de clarividência e telepatia, uma demonstração
prática. O reconhecimento da natureza não-física de psi permite à
escola de Rhine investigar a estrutura superior do processo, sem nenhuma
sujeição aos princípios e às leis da Física. Essa possibilidade
representa a abertura de uma brecha na concepção materialista do
Universo e ameaça restabelecer a legitimidade da Psicologia como
ciência da alma, ou seja, do psiquismo autônomo. Leonid Koogan, que hoje
substitui Vassiliev e se interessa especialmente por investigações para
a aplicação da telepatia na Astronáutica, segue a mesma linha pavloviana
daquele, contrária à natureza extrafísica de psi.
A mais insistente acusação que se faz
atualmente a Rhine é a de filosofar sobre os resultados da sua pesquisa
científica. Pierre Duval, ainda há pouco, acusou-o, na França, de autor
“demasiado americano” de uma filosofia simplista da eficiência. E
acrescentava que a tarefa da Parapsicologia não é a de provar se o homem
é espírito ou não. Rhine poderia responder que a sua rejeição ao esquema
simplista da telepatia-telegráfica jamais seria possível, se ele
permanecesse na linha materialista ou na espiritualista dogmática. É a
sua capacidade de pensar, de analisar, de tirar ilações e pesquisar, não
só no campo objetivo, mas também no subjetivo, que lhe permite enfrentar
com independência o problema telepático. A concepção do cientista como
uma espécie de robô, cuja função é apenas a de fornecer dados ao
pensamento alheio, é muito mais simplista que qualquer filosofia da
eficiência.
Por todas essas razões, demos, neste
capítulo, o título de Tp - A linguagem da mente. É com essa
linguagem que a Ciência renovada poderá transformar o mundo. Rhine
compreendeu isso e recusou-se, por intuição e por compreensão posterior
do problema, a enquadrar a linguagem universal do espírito nos esquemas
frios da cibernética. A telepatia não é um processo mecânico, de
natureza física. É uma função mental, não isolada, mas ligada ao
conjunto psigama e estreitamente relacionada com a clarividência.
Com ela falamos a linguagem do espírito, entramos em novo tipo de
relações, abrimos as perspectivas de um futuro imprevisível para a
Humanidade. Não se pode tratar desse assunto com a frieza e a isenção
empregadas no estudo da estrutura atômica. Como assinalou Richet:
“Estamos diante de problemas que não se relacionam apenas com o nosso
bem-estar físico, mas com a nossa evolução moral e espiritual, com a
destinação do homem no Cosmos”.
Um exemplo disso – e no campo da prática,
tão ao gosto dos que censuram o pragmatismo de Rhine – nos é dado pelo
grupo de jovens astrônomos norte-americanos que, junto ao Monte Palomar,
desenvolveram o Projeto Ozma, captando sinais de duas estrelas
indicadas pelo astrônomo chinês Su Schu Huang, em 1961, nas constelações
da Baleia e de Eridan. Essas estrelas, segundo aquele astrônomo, devem
ser habitadas e possuir civilizações superiores. Mas o grupo de jovens
observadores não se contenta com os meios físicos de pesquisa e incluiu
no projeto uma equipe de telepatas. Podem os espíritos práticos rir à
vontade desses jovens pesquisadores. A verdade ê que eles representaram
nas encostas do Monte Palomar os verdadeiros anseios de uma humanidade
que se liberta do “aqui” e do “agora”, para alcançar o “amanhã” e o
“depois”. A telepatia é a única linguagem de que podem servir-se para
dialogar com as estrelas.
Seria loucura o que eles fizeram? Não,
porque as experiências de Rhine já provaram que, para a telepatia, as
distâncias não existem e o tempo não oferece empecilhos. As mentes se
comunicam num plano superior ao do condicionamento físico de espaço e
tempo. A série de experiências realizadas entre Durham e Duke, nos
Estados Unidos, e Zagreb, na Iugoslávia, provou suficientemente que
ESP – como Rhine prefere dizer – independe do espaço. O sujet
era o próprio Professor Carlo Marchesi, que procurava identificar, em
Zagreb, as cartas escolhidas pela equipe da Duke University, do
outro lado do oceano, numa distância de mais de quatro mil milhas. Os
resultados foram positivos, tendo-se realizado novas experiências,
também positivas, entre os mesmos experimentadores.
Outra prova curiosa da natureza puramente
psíquica das funções psi resultou desses contatos de Duke com
Zagreb. O Dr. Marchesi visitou o Laboratório de Duke depois das
experiências à distância e submeteu-se a experiências de proximidade,
que deram resultados muito inferiores. A sua percepção, a quatro mil
milhas, era mais precisa. Rhine lembra que as condições psicológicas do
visitante eram desfavoráveis, o que vem confirmar as observações já
feitas em Duke de que são essas condições, e não as de ordem física, “as
que determinam a proporção de acertos do sujeito”. Outras observações de
Rhine a respeito são as seguintes: Marchesi captava em Zagreb os
símbolos das cartas Zener dispostas numa mesa em Duke, formando um
conjunto tão diminuto que fisicamente seria impossível diferenciá-las na
distância; entre o percipiente e o objeto havia numerosas barreiras
físicas, além das milhas oceânicas, e que eram as cadeias de montanhas e
a densidade atmosférica, fatores incidentais inevitáveis, e os próprios
edifícios em que se abrigavam os experimentadores e o percipiente. Qual
a energia física suficiente para realizar essa façanha, vencendo
tranqüilamente todas as barreiras e comunicando ao percipiente as
impressões sutis do experimento?
O Professor Wathely Carington realizou
também um curioso experimento na Inglaterra, utilizando-se de desenhos
em lugar das cartas Zener. Os percipientes estavam na Holanda, na
Escócia e em Duke, Estados Unidos. Carington emitia do seu
gabinete na Universidade de Cambridge. Os resultados foram altamente
significativos e as contagens melhores foram obtidas pelos percipientes
que, em número de doze, captavam em Duke, na maior distância
através do oceano. Essas experiências mostram que psi não é
também afetado pela gravidade e pelas variações atmosféricas.
Não são loucos os jovens astrônomos do
Monte Palomar. Podemos mesmo dizer que há mais facilidade no contato da
sua equipe telepática com as estrelas distantes do que dos seus
instrumentos de energia física. No famoso experimento Wilkins-Sherman,
controlado por Gardner Murphy, entre as regiões do Pólo Norte, em que
aviadores russos se haviam perdido e New York, onde Sherman aguardava
comunicações do explorador Wilkins, os resultados foram notáveis. O
rádio-operador do New York Times, Reginaldo Iversen, declarou que
Sherman tinha um conhecimento telepático mais exato da situação de
Wilkins do que ele podia obter através das suas “ineficazes tentativas
para manter contato por meio da rádio-comunicação de ondas curtas”.
Seria preciso dizer mais? A natureza
extrafísica do processo telepático se comprova através de experiências
extensas e intensas. As comunicações entre Wilkins e Sherman duraram
cinco meses, entre dezembro de 1937 e abril de 1938. Nesse longo período
Sherman recebia, três vezes por semana, as comunicações telepáticas de
Wilkins, e as enviava a Murphy e a outro controlador. As comunicações
radiotelegráficas por ondas curtas foram constantemente interrompidas.
Murphy podia controlar, apesar disso, o noticiário do jornal com as
informações recebidas de Sherman. Todo o registro dessa experiência foi
publicado num livro: Thoughts Trough Space (Pensamentos
Através do Espaço) sob os nomes de Hubert Wilkins, o explorador
polar, e Harold M. Sherman, o pesquisador telepata. Em 1944 foi
publicada uma tradução na Argentina.
Harold Sherman publicou recentemente, nos
Estados Unidos, um curioso livro que se tornou best-seller, intitulado:
How to make ESP work for you (Como pôr ESP a seu serviço)
, tratando precisamente das aplicações práticas da percepção
extra-sensorial. Não se pode negar que ele tem experiência
suficiente para isso. Resta saber, entretanto, se em todos os casos de
telepatia se poderiam obter os resultados seguros do seu caso pessoal
com Wilkins.
Enquanto isso, chegam da Rússia novas
informações auspiciosas. A revista moscovita Saber e Força,
segundo comunicado da France Press, enviado de Moscou a 2 de
fevereiro de 1966, publicou importante reportagem sobre experiências
telepáticas realizadas com a presença de cientistas até há pouco
infensos à pesquisa parapsicológica. Os resultados foram de tal ordem
que o Professor Smilga, famoso físico, declarou peremptoriamente: “A
telepatia existe, não há mais possibilidade de dúvidas a respeito.”
Outros cientistas, entre os quais o Professor Kitaigorodsky, que
numerosas vezes haviam manifestado o mais completo ceticismo no tocante
às experiências parapsicológicas, declararam-se satisfeitos com as
demonstrações realizadas. Kitaigorodsky afirmou, ao terminar uma das
sessões experimentais: “Do ponto de vista da ciência contemporânea os
fenômenos parapsicológicos são inexplicáveis.”. Outro famoso físico
soviético, o Professor I. E. Koogan declarou: “Já está superada a fase
de sensacionalismo em torno da telepatia. Já não nos cabe discutir se
ela existe ou não, mas tratar de descobrir as suas origens”.
A revista soviética informa ainda que foi
criada uma secção especial para fenômenos telepáticos, integrando a
série de pesquisas em desenvolvimento, na Universidade de Moscou, sobre
radiotécnica e comunicações elétricas. A nova secção pertence ao campo
de investigações biológicas e tem por fim aprofundar os estudos sobre a
utilização das transmissões telepáticas. Como se vê, essas notícias
confirmam plenamente o interesse dos cientistas russos pela telepatia,
como nova forma provável de comunicação à distância, e comprovam o pleno
reconhecimento científico da telepatia pelos meios soviéticos.
O que opõem a tudo isso os nossos céticos,
que vêem a Parapsicologia pelo espelho côncavo do Padre Quevedo e seus
companheiros de espetáculo? O mesmo sorriso de desdém dos sábios
que tripudiaram sobre Pasteur? Parece que já é tempo de nossas
Universidades encararem a sério essa nova dimensão das Ciências,
estabelecendo centros de pesquisa a cargo de investigadores competentes.
Até quando continuarão acalentando a sua ignorância do assunto?
Os hipnotizadores conhecem a técnica de
regressão da memória, pela qual podem fazer um sujet voltar no
tempo até a vida intra-uterina. O fato de dizer-se regressão da
memória provoca algumas confusões. Há pessoas que perguntam: Como
lembrar a vida intra-uterina? Mas a regressão produzida pela hipnose
não é apenas da memória: é também vivencial. O sujet regressa às
condições de sua vida nos anos anteriores apresentando sintomas físicos
dos males que sofria. A memória não está apenas no consciente. Temos um
porão da memória, do qual podemos tirar mais segredos do que pensava o
sagaz Dr. Freud.
Prova disso foi o que fez o Cel. Albert De
Rochas, diretor do Instituto Politécnico de Paris, dedicado
experimentador do hipnotismo. Certa vez, depois de haver levado um
paciente até a vivência intra-uterina, resolveu mandá-lo para mais fundo
no tempo. E o que aconteceu foi espantoso: o paciente se transformou
numa personalidade diferente, que vivia na encarnação anterior! De
Rochas não se atemorizou e fez centenas de experiências, conseguindo
levar alguns sujets a três vidas passadas. Fez a comprovação de
alguns casos possíveis e publicou um livro a respeito: Les Vies
Successives.
Agora, nos Estados Unidos, um banqueiro
hipnotizador repetiu a façanha. A paciente, regredindo no tempo,
declarou chamar-se Bridey Murphy e ter vivido na Irlanda do século XVI.
As pesquisas feitas confirmaram boa parte de suas declarações. Mas o que
aconteceu com De Rochas tinha também de acontecer com Morey Bernstein, o
hipnotizador que foi posto a ridículo por meio mundo. A Associação
Médica Americana refutou oficialmente a experiência e desmoralizou-a.
Jacques Bergier, na França, descobriu a fraude de Morey e o pôs em má
situação. Entre outras coisas, aconselhou os leitores norte-americanos
de Morey a lerem Charcot.
Acontece que Charcot, chegando um dia à
Salpetrière, apresentou aos discípulos uma mulher histérica, de nome
Alcina, e depois de hipnotizá-la mandou-a ao quadro-negro para escrever
na língua que os presentes quisessem. Os Profs. Pannás, grego, e Matias
Duval, membro da Academia, ditaram frases em grego antigo e moderno.
Alcina escreveu-as sem vacilar. Então, Charcot disse que desejava evocar
o espírito de Galeno, o famoso médico grego. E Galeno veio e escreveu em
grego do seu tempo, em resposta a uma pergunta de Charcot:
“O corpo humano ainda não chegou à sua
perfeita conformação. Os sistemas da circulação e da enervação estão
suficientemente unidos e relacionados no plano da economia, mas o
sistema linfático sofrerá uma evolução de grande proveito,
principalmente para a longevidade humana. Em alguns animais inferiores,
de vida muito longa, poderiam fazer experiências probatórias desta
assertiva.”
Diante disso, Charcot voltou-se para os
presentes e disse: “Senhores, não queirais adiantar-vos à nossa época.
Não procureis nenhum raciocínio que vos possa dar a explicação clara e
verdadeira das nossas experiências. Contentai-vos com a observação
experimental que acabais de presenciar”.
Esta pequena mas significativa história é
contada por Frederico Vives, que freqüentou as sessões de Charcot.
Reproduziu-a por extenso (pois ela é bem maior) Santiago Bossero, num
estudo que publicou na Argentina sobre o problema das vidas sucessivas.
Temos aqui, pelas mãos de Charcot, outra oportunidade de enfrentar o
problema de domínio do tempo. Quem era essa pobre mulher idiotizada que
Charcot mandava marchar de um lado para outro, segundo conta Vives, e
que no entanto escrevia em grego antigo e moderno ou em outros idiomas
clássicos? Voltava ela ao passado?
Alguém descobriria, por certo, uma fraude
de Charcot, em conluio com a paciente. Porque há pessoas que só sabem
ver fraudes e tolices por toda parte, reservando-se para si mesmas o
duplo direito à honestidade e à esperteza. Uma espécie de dialética da
impostura. Mas a verdade é que desde todos os tempos, fatos como esses
ocorrem na Terra com idiotas e sábios, com santos e bandidos, com
tímidos e sagazes. Porque fatos são fatos e não pedem licença para
acontecer. Que fez com esses fatos a Parapsicologia? Negou-os,
remeteu-os de novo ao porão do inconsciente, fichou-os no arquivo da
estupidez humana?
Nada disso. A Parapsicologia, de início,
nem tomou conhecimento deles. Era assunto para mais tarde. Os
experimentadores desejavam lidar com coisas mais simples. A telepatia,
por exemplo, que por sua aparente afinidade com o telégrafo sem fio era
mais alegre e menos compromissada. Mas aconteceu que um dia a
demonstração experimental de que a telepatia não era condicionada pelo
espaço despertou o interesse pela sua relação com o tempo. Além disso,
os desvios de percepção nos experimentos de ESP começaram
a afetar os seus resultados. Carington foi obrigado a enfrentar o
problema da percepção do futuro, porque nas suas experiências com
desenhos vários percipientes captavam os desenhos ainda por fazer.
Peg ou precognição é o que
se pode chamar um fenômeno atrevido que se infiltrou no trabalho dos
experimentadores e obrigou-os a examiná-lo. Daí por diante muita coisa
se modificou na Parapsicologia. Para começar, os conceitos vigentes
sobre telepatia foram abalados. Mas, por outro lado, houve coisas
agradáveis. O Professor Soal, por exemplo, que sempre teve de lutar
muito para conseguir um pouco no terreno das pesquisas, havia concluído
de maneira negativa o rigoroso exame de seus experimentos com 160
sujeitos, em que obtivera 128.350 respostas sem que pudesse ultrapassar
a barreira do acaso. Um fracasso. Mas Carington o adverte quanto aos
desvios e Soal resolve cuidar do problema, verificando que dois
sensitivos, Mrs. Stewart e Mr. Shackleton, eram precognitivos.
O primeiro não pôde trabalhar com Soal,
mas o segundo se colocou à sua disposição. As experiências se realizaram
durante a guerra de 39-45. Um bom período para se cuidar do futuro,
principalmente em Londres. Per sinal que Shackleton não era apenas
precognitivo mas também retrocognitivo. Nos desvios examinados
por Soal ele havia adivinhado ora a carta anterior, ora a posterior. Não
acertava nunca no alvo, mas acertava muito mais do que isso. Atirando no
que via, matava o que não via: o passado e o futuro. Um sensitivo
deslocado no tempo e que por isso mesmo era mais valioso.
O ditado popular que usamos acima
aplica-se bem a este caso, pois as experiências de Soal não eram feitas
com as cartas Zener, mas com as suas próprias. Uma série zoológica. Soal
havia se cansado de lidar com as figuras geométricas de Zener e criara
as suas próprias figuras, utilizando animais. Os leitores por certo já
conhecem este problema das cartas e dos dados, a menos que nunca se
tenham interessado por Parapsicologia. Por isso, não tratamos deles até
aqui. Mas agora somos obrigados a repetir o que se encontra em todos os
livros de informação parapsicológica. E começaremos pelas cartas Zener,
que foram as primeiras, hoje mais conhecidas por cartas ESP.
Foram inventadas pelo Dr. Zener,
colaborador de Rhine, para substituir as cartas de baralho comum usadas
nas experiências. Apenas cinco figuras em maços de 25 cartas, para
facilitar o cálculo de probabilidades. Em cada maço o sensitivo tem a
probabilidade de acertar cinco por acaso.
As figuras são estas:

E foram exatamente estas figuras que o
Professor Marchesi captou em Zagreb quando os experimentadores as
distribuíram na mesa de Laboratório de Duke. Projetadas através do
oceano, essas figuras impressas em cartas de baralho agiram como
projéteis mentais. No caso de Shackleton as cartas eram estas outras, de
que não damos as figuras por dificuldades gráficas:
E – Elefante N.° de cartas: 5
G – Girafa Idem 5
P – Pelicano Idem 5
Z – Zebra Idem 5
L – Leão Idem 5
Total do maço 25
Essas cartas são coloridas, pois Soal se
enfastiara das figuras negras e geométricas de Zener, atirando ao mar os
seus maços. Curioso: tudo é dramático nesse episódio, com um
experimentador pouco feliz nos experimentos, mas rigoroso na elaboração
das provas, na sua realização e na avaliação dos resultados. Dir-se-ia
que a fleugma britânica de Soal chocou-se com aqueles cartões severos
que lhe vinham precisamente da América turbulenta. Sua reação foi
completa: jogar as cartas ao mar, escolher figuras de animais para as
novas cartas e mandá-las fazer coloridas (reação à frieza geométrica e à
severidade da cor negra). Talvez um fundo de fetichismo nessa
substituição dos signos de Zener por animais dramáticos, tanto em si
mesmos quanto na expressão dos desenhos (que deviam ser bem
individualizados) e nas cores vivas.
O maior rigor possível com esse carnaval
zoológico nas experiências realizadas. O Agente e Mrs. Goldney, que
auxiliava no experimento, sentavam-se frente a frente numa sala e
Shackleton e Soai noutra sala. Mrs. Goldney usava cartas numeradas e o
Agente tinha diante de si, de costas sobre a mesa, cinco cartas
dispostas por Soal e cuja ordem era desconhecida. Mrs. Goldney mostrava
um número ao Agente, através de uma abertura especial, feita num velador
que os isolava um do outro. O Agente pegava a carta correspondente, na
ordem de disposição, ao número mostrado, olhava a carta e emitia a
figura, colocando de novo a carta na mesa. Mrs. Goldney só falava para
dar sinal ao percipiente na outra sala e pedir-lhe que anotasse a
resposta. Ela ignorava completamente qual era a carta indicada pelo
número que exibira ao Agente. O percipiente anotava com a simples
inicial do animal a sua percepção. As iniciais diferenciadas têm a
finalidade de facilitar a experiência e dar-lhe maior segurança.
Essas experiências deram resultados
positivos, Shackleton havia agido de acordo com as suas curiosas
faculdades, captando sempre as cartas anteriores ou posteriores à que
lhe era transmitida. Mais tarde, Soal conseguiu realizar algumas
experiências com Mrs. Stewart, sendo bem sucedido. Depois da guerra, Mrs.
Stewart realizou novas experiências com Soal, que verificou esta coisa
curiosa: ela havia perdido o dom de profecia. Não adivinhava mais a
carta seguinte, mas a chamada carta 0, que corresponde ao presente, a
carta objetivo. Com essas experiências Soal doutorou-se pela
Universidade de Londres.
Shackleton era um homem de 36 anos quando
procurou Soal para oferecer-se como sujet. Já conhecia as suas
faculdades precognitivas desde os vinte e poucos anos, mas jamais fizera
qualquer tipo de experiência científica. Usara algumas vezes as suas
faculdades para objetivos práticos, sendo bem sucedido. Por exemplo:
ganhar nas corridas de cavalos. Embora a faculdade não seja infalível,
um sensitivo como Shackleton pode constituir verdadeira ameaça nesses
casos. Outra particularidade desse sensitivo era captar de um golpe o
caráter das pessoas que lhe eram apresentadas. Soal teve oportunidade de
verificar a realidade dessa percepção.
O leitor há de estranhar, se não estiver
habituado ao assunto, a desproporção entre a grandeza dos fatos de
precognição relatados no início deste capítulo e a aparente
insignificância desse jogo de adivinhação de cartas. Mas essa
desproporção é a diferença de garantia. Por ela é que se pode aferir a
existência ou não da faculdade. Milhares e milhares de experiências
desse tipo, com métodos diversificados pelos vários experimentadores,
levam à comprovação científica ou não da realidade dos fenômenos. No
jogo de cartas de Shackleton estavam sendo julgados, perante a Ciência,
todos os profetas do passado. A heresia científica não poupa sequer os
profetas bíblicos.
Nossas referências à pouca sorte de Soal
decorrem de uma curiosa situação vivida por ele. De 1934 a 1939 todas as
suas experiências foram negativas. E isso no mesmo período em que Rhine
obtinha os melhores resultados. Foi esse, certamente, um dos motivos da
sua reação dramática à frieza geométrica das cartas Zener. Conta-se que
Soal chegou a pensar que a América tinha melhores condições para as
experiências de psi do que a Inglaterra. Certa vez teve a
oportunidade de experimentar Mrs. Eileen Garret, que obtivera resultados
notáveis em trabalhos com Rhine. Inútil experiência. Com Soal, as suas
faculdades excelentes pareciam embotar-se.
Como se vê, a advertência de Carington
quanto à possibilidade de acertos por desvios salvou-o do desânimo, ou
pelo menos da decepção que havia sofrido. A revisão dos dados, provando
a existência de resultados altamente significativos, deu-lhe estímulo
para o prosseguimento das pesquisas. Este exemplo vale como explicação
de muitos casos de abandono de pesquisas, particularmente na fase
metapsíquica. Não foram poucos os cientistas, e entre eles o casal
Curie, que abandonaram o trabalho por acharem difícil a obtenção de
resultados satisfatórios. Acredita-se na existência de indivíduos
negativos, diante dos quais os melhores sensitivos nada conseguem. É
possível que existam, não por motivos misteriosos, mas por falta de
conhecimento da maneira porque devem tratar os sensitivos, ou mesmo por
falta de habilidade para esse tipo de experiências. O próprio Soal
verificou e advertiu que as experiências devem realizar-se em ambiente
de simpatia e cordialidade, evitando-se toda e qualquer forma de
constrangimento para os sensitivos.
Não são os fatores materiais, mas os
psíquicos, como acentuou Rhine no caso de Marchesi, os que prejudicam a
ação do sensitivo. Na proporção em que as pesquisas forem se
desenvolvendo e exigindo atividades mais complexas, fornecerão elementos
para a revisão de muitas acusações de fraudes do passado. A experiência
quantitativa tem os seus limites, como acentuou Ehrenwald, pois os
fenômenos provados por ela devem e precisam submeter-se a investigações
qualitativas. A complexidade desse novo tipo forçará o estudo mais
aprofundado das questões de ambiente e de relações do sensitivo com os
pesquisadores e de influência negativa dos métodos de coerção, aplicados
intensamente no passado.
Os problemas implícitos na verificação de
Peg e Reg (precognição e retrocognição) são
numerosos, pois a constatação dessa possibilidade humana de dominar o
tempo traz implicações filosóficas e religiosas. Embora a profecia
tivesse existido sempre, a verdade é que ela foi encarada, no passado,
com uma atitude teológica de aceitação reverente do fato como uma graça.
A constatação científica do fato modifica por completo essa situação.
Não se trata mais de uma graça, mas de uma faculdade humana, suscetível
de experimentação e controle científico. Uma faculdade normal de que
todos podem dispor, em menor ou maior grau, pois nós todos a usamos
freqüentemente sem disso nos apercebermos.
Quantas vezes prevemos, com referência a
nós próprios ou aos nossos amigos, acontecimentos e situações que
realmente ocorrem anos mais tarde. Quantas vezes contrariamos as nossas
intuições, descrendo de nossa precognição e nos saímos mal em
negócios e empreendimentos vários. Nos afazeres diários da vida a
precognição a curto prazo é uma constante da nossa percepção. Ela se
entrosa de tal maneira na trama das percepções sensoriais que mal a
distinguimos, a não ser quando se nos oferece uma ocorrência
extraordinária. Manejamos um objeto, um aparelho de barbear, por
exemplo, e percebemos que vamos dar um corte no rosto. Antes que
possamos evitá-la, a ocorrência se verifica. Foi tão curto o lapso de
tempo entre a percepção e a ocorrência, que em geral não notamos o fato
precognitivo.
A teoria psicológica da imago pode
servir de explicação para as antevisões pessoais. Carregamos conosco, em
nosso inconsciente, a imagem dupla do que podemos ser. Essa dupla
imagem tem uma face negativa que decorre de nossas tendências da mesma
ordem, e uma face positiva pintada com as cores de nossas melhores
aspirações. Se nos entregamos às más tendências, afrouxando a vontade, a
face negativa da imago se impõe. É fácil percebermos, então, com
grande antecedência, as situações amargas em que iremos cair. Se, pelo
contrário, incentivamos as nossas boas tendências e empenhamos a vontade
na sua realização, os fenômenos de precognição otimista não serão
difíceis. Existem, nesses casos, implicações diversas como a da simples
dedução. Mas a precognição não é de natureza dedutiva e
geralmente contraria o desenvolvimento normal das coisas. Assim, mesmo
quando a imago positiva parece estar em realização, podemos ser
surpreendidos por uma precognição negativa. Nesse caso a
virada da nossa imago pode começar por uma precognição.
Já no tocante aos objetos exteriores a
explicação se complica muito mais. E essa complicação exige, muitas
vezes, uma concepção estrutural do tempo, como a formulada por J. W.
Dunne, em Experimento com o Tempo. A teoria da duração, de Henri
Bergson, e do tempo como fracionamento daquela – sucessão de imagens
fracionadas da duração, como as fotos de um filme em projeção – também
pode auxiliar-nos. Se existe uma estrutura do tempo, que poderia ser o
fluir da duração do conceito bergsoniano, é lícito supor que a
mente possa percorrê-la, libertando-se do condicionamento existencial do
aqui e do agora em que nos encontramos. E há algumas
experiências curiosas a respeito. Hornell Hart, em The psychic fifth
dimension, trabalho publicado na revista da Sociedade Americana de
Pesquisas Psíquicas, em 1953 (páginas 3 a 32), propõe o estudo dos
fenômenos de projeção consciente do eu para solução do problema
da supervivência do homem. São esses os momentos excepcionais da
libertação existencial, que geralmente implicam fenômenos de percepção
sincrônica do tempo.
Exemplo curioso nos é dado pelo recente
livro do médico Andrija Puharich, O Cogumelo Sagrado, a que nos
referimos atrás. Conta o autor que, a 13 de dezembro de 1954, após três
dias de intensa atividade física, sem dormir ou descansar, recolheu-se
ao seu quarto e atirou-se à cama sem trocar a roupa. O cansaço era
enorme e logo adormeceu. Mas, tão logo o fez, viu-se a si mesmo como um
espírito liberto do corpo, flutuando no espaço. Via o próprio corpo na
cama, sem lhe dar maior importância. Pensou então que poderia visitar
alguém nesse estado de libertação. Logo se dirigiu à casa da Sra.
Garret, em New York, e depois saiu à procura da Sra. Alice Bouverie, que
encontrou na ampla sala de uma casa estranha, que não conhecia. Quis
fixar alguma coisa do ambiente, para verificação posterior, se possível.
O brocado doirado das paredes já lhe havia chamado a atenção e nele
fixou-se. A seguir sentiu que precisava voltar com urgência ao seu
quarto, no Estado de Maryland, e acordou com as pancadas de sua filha na
porta.
Puharich verificou, depois, a exatidão do
que vira na casa da Sra. Garret e nessa estranha visita à Sra. Bouverie.
A casa desconhecida era da mãe da Sra. Bouverie e a sala fora
perfeitamente descrita, mas as paredes eram forradas de branco. Não
obstante, quarenta anos atrás, os brocados das paredes tinham o doirado
excitante que o médico vira no seu desprendimento. Mencionamos
este episódio por ser recente, ocorrido com um médico-eletrônico e
pesquisador parapsicológico. Mas há numerosas ocorrências semelhantes
nos anais da pesquisa psíquica. O tempo percebido se mistura com
fragmentos do passado ou do futuro, à semelhança do sincretismo bizarro
de certos sonhos.
No caso, o Dr. Puharich estava diante de
cenas reais do momento de seu desprendimento, numa sala real e
atual, mas cujas paredes lhe mostravam o aspecto de quarenta anos
passados. Haveria algum motivo particular, nas preferências do médico,
para que a sua percepção estrutural do tempo – naquele recorte da
estrutura que era a sala no presente – fizesse a fase anterior
ressaltar nas paredes com o doirado que tanto o interessou? Seria um
caso de percepção seletiva? A mente poderia, assim, selecionar os
componentes da estrutura do tempo? E não estaria esse fenômeno ligado
aos da seleção mnemônica, já bem estudados no caso da memória?
Todas essas perguntas revelam a
complexidade dos problemas levantados pela Pesquisa parapsicológica.
Neste caso particular do Dr. Puharich, com a projeção do eu (por
ele mesmo posta em dúvida apesar de toda a evidência do fenômeno) o
detalhe da cobertura da parede suscita ainda outra questão curiosa. Não
haveria, na percepção extra-sensorial, um princípio de
pregnância semelhante ao da gestalt ou psicologia da forma? A
cobertura física atual das paredes era de pano branco. Mas por baixo
dela estava a cobertura anterior, doirada, como uma espécie de resíduo
físico. Esse resíduo, que pertence ao passado, ressaltaria no conjunto
da percepção como uma forma pregnante. Mas parece evidente que a
pregnância, no caso, não seria da forma e sim das condições psíquicas da
percepção, ou seja, das disposições psíquicas do percipiente. Isso
explicaria muitas incongruências da vidência, tomadas quase
sempre como fatores negativos. E confirmaria a referência de Rhine ao
condicionamento psíquico e não físico do percipiente.
Alguns expositores de Parapsicologia
pretendem estabelecer limites para a precognição e
retrocognição. Alegam que há uma diferença fundamental entre os
profetas e os percipientes atuais, pois aqueles viam a longo
prazo, e estes unicamente a curto ou a curtíssimo prazo. É uma maneira
ingênua de tratar o problema, pois não seria possível fazermos
experiências científicas atuais, com resultados imediatos, jogando com
séculos ou milênios. Não se conhece nenhum limite para essa forma de
psi. Os limites arbitrários não são fixados apenas por ingenuidade,
mas também pelo interesse sectário. Os expositores que seguem a linha
tomista de Amadou, fazendo distinção, também arbitrária, entre o
psiquismo e o espírito, querem salvar assim as suas posições religiosas,
esquecidos de que a investigação científica já invadiu o domínio
religioso por muitas outras brechas.
O que a investigação parapsicológica vem
demonstrando não atenta contra a religião e a crença na sobrevivência
espiritual do homem, mas também não endossa as posições dogmáticas do
sectarismo religioso. Os espiritualistas não dogmáticos nada têm a
temer. Muito pelo contrário, só têm de se rejubilar com o avanço de um
tipo de pesquisa que invade o campo do espírito, reajustando a concepção
espiritual do homem à mentalidade científica.
Os fenômenos de precognição e
retrocognição lembram uma afirmação enfática de Krishnamurti: “Nem o
tempo nem o espaço existem para o homem que conhece o eterno”. Em termos
bergsonianos, para escaparmos à idéia estática de eternidade, poderíamos
substituir a expressão o eterno por esta outra: a duração.
Aldous Huxley, profundamente místico, estabelece também uma divisão
entre o campo do paranormal e o da mística, à maneira de Amadou. Todos
esses intentos são justificáveis. Mas parece evidente que se o homem é
espírito, e como tal se projeta, não apenas na existência, mas na
duração, as suas funções psíquicas são espirituais. Podemos estabelecer,
sem dúvida, uma diferença de graus entre vários tipos dessa percepção,
mas não estabelecer uma dicotomia de natureza teológica, que só serviria
para criar maiores confusões no momento em que nos esforçamos para
clarear o caminho.
O tempo é uma estrutura conceptual e de
natureza relativa, como queria Einstein, relacionando-o com a ação dos
campos gravitacionais. Concebemos o tempo segundo a intensidade do campo
em que nos encontramos. Assim, fora da Terra estamos fora do tempo
terreno e podemos entrar na órbita de outra forma de tempo, mais
acelerado ou mais lento que o nosso. Lá ou aqui, onde o homem estiver,
Peg é o seu instrumento de domínio do tempo. Graças às suas
funções psi ele pode andar na estrutura do tempo e percorrer
o seu império em todos os sentidos. Basta pensarmos um pouco nessa
possibilidade para compreendermos o profundo interesse, mesmo do ponto
de vista prático, das pesquisas parapsicológicas sobre os fenômenos de
precognição e retrocognição.
É bom não esquecer que as pesquisas
físicas e as experiências astronáuticas já alteraram, por sua vez, a
concepção clássica do tempo, não só na Ciência como no próprio senso
comum. Quanto mais avançam essas pesquisas, mais o homem atual se
aproxima de uma nova compreensão do tempo e mais fácil se torna a
explicação dos fenômenos parapsíquicos de percepção do passado e do
futuro.
Estamos num mundo de novas dimensões. Um
mundo que cresce em todos os sentidos, desde o demográfico até o
conceptual. O avanço das Ciências e das Técnicas revoluciona
profundamente o campo geral do Conhecimento. Seria inútil opor sofismas
lógicos à realidade experimental do domínio do tempo pela mente. Os
fatos são fatos.
Os Profs. Thouless e Tischner,
respectivamente inglês e alemão, consideram, como o faz Rhine e toda a
sua escola, absolutamente comprovada a existência de Pk ou
psikapa, na sua modalidade de psicocinesia ou psicoquinesia. E vão
além, pois procuram explicar através dela a mecânica da vida. Pk
é a ação da mente sobre a matéria, sem qualquer forma de intermediário.
Ação direta. Rhine explica assim o fenômeno: “A mente, que não é
física, servindo-se de vias não-físicas, age sobre o mundo físico”.
E isso tem dado muito pano para manga. Podemos trocar toda essa questão
em miúdo, dizendo simplesmente o seguinte: o pensamento age sobre a
matéria.
As experiências de laboratório, para
verificação da existência ou não desses fenômenos, começaram na Duke
University em 1934. Somente nove anos depois, em 1943, os
pesquisadores resolveram dar a público os resultados obtidos. Os dados
dessas experiências, como afirma Rhine, estão até hoje à disposição dos
estudiosos que pretenderem examiná-los, naquela Universidade. Além
disso, as pesquisas a respeito se multiplicaram por todo o mundo. A
conclusão de Rhine é decisiva: “A mente possui uma força capaz de
agir sobre a matéria. Produz sobre o meio físico efeitos inexplicáveis
por qualquer fator ou energia conhecidos pela Física”.
Mas Robert Amadou põe em dúvida a
existência do fenômeno. Não se satisfaz com as experiências de
laboratório realizadas até agora. Pretende que novas e mais intensas
pesquisas sejam efetuadas. A cisão teórica do campo parapsicológico
aumenta com o problema da psicocinesia. Mas, ao mesmo tempo, a variedade
de experiências realizadas no mundo oferece resultados positivos a favor
da existência do fenômeno, aliás já investigado em maior profundidade na
fase metapsíquica. E Rhine propõe a observação dos fenômenos que podemos
chamar de comuns ou naturais e que comprovam a ação da mente sobre a
matéria. Esses fenômenos, conhecidos em todo o mundo – como os de cura
de verrugas, bicheiras, hérnias etc. por simples benzedura – aparecem
como formas de comprovação natural ou espontânea das experiências de
laboratório.
Assim como as experiências de psigama
foram feitas com cartas de baralho, as de psikapa começaram com o
jogo de dados. E isso por motivos circunstanciais, como logo mais se
verá, mas também pela maior facilidade que os dados oferecem, à
semelhança das cartas, para a boa verificação do fenômeno e a precisa
avaliação dos resultados. Muitas críticas foram feitas, e ainda o são, a
essa preferência de Rhine pelos dados. Correm por conta da incompreensão
e da prevenção, quando não do sectarismo científico ou religioso que
atuam invariavelmente em questões desta natureza.
Paralelamente às experiências de Duke,
outros tipos de investigação foram idealizados e realizados em várias
partes do mundo. Na França, Chevalier e Hardy realizaram experiências
com gotas d'água, através de engenhosos mecanismos. As gotas caíam sobre
uma lâmina, sendo cortadas ao meio, e os sujets agiam no sentido
de desviá-las da queda natural, atraindo-as para si ou afastando-as.
Hardy construiu outros mecanismos, o primeiro para acender lâmpadas
elétricas por ação mental num complicado aparelho eletrônico; o segundo
para mover uma pequena balança de precisão ou prolongar os seus
movimentos pela influência do pensamento.
As experiências mais tocantes foram
realizadas pelo casal Paul Vase, na França, e por Nigel Richmond, na
Inglaterra. Os primeiros realizaram experiências semelhantes às dos
faquires indianos sobre a germinação e crescimento de plantas. Obtiveram
resultados favoráveis, pois a ação da mente acelerou a germinação e o
desenvolvimento de semeaduras especiais, enquanto a parte não submetida
à influência mental cresceu de maneira normal, lentamente. Richmond
dirigiu os movimentos de paramécios ao microscópio, em direções
determinadas. E Richard da Silva experimentou com sucesso impedir o
desenvolvimento de bactérias em solução de ágar-ágar.
Todas essas experiências, e muitas outras,
foram postas em dúvida por falta de métodos rigorosos de registro e
controle dos resultados. Mas outras pesquisas foram e continuam a ser
feitas. Em Atenas, por exemplo, o Professor Tanagras observou o fenômeno
de pirovasia (andar sobre as brasas de uma fogueira com os pés
nus), chegando a conclusões curiosas a respeito. Posteriormente,
formulou uma teoria da união dos fenômenos de telepatia e psicocinesia
para explicação de alguns fatos de precognição. Esse fenômeno
misto, que ele denominou de psicobolia, seria produzido da
seguinte maneira: a previsão de um desastre, por meio de um sonho,
poderia despertar no inconsciente do sujet as forças
psicocinéticas, que agiriam à distância sobre o objeto, produzindo o
efeito sonhado. Não se trataria, entretanto, de uma verdadeira previsão,
e sim de uma sugestão provinda do sonho e realizada pelo poder
psicocinético.
Aliás, essa teoria de Tanagras,
aparentemente absurda, obrigou os pesquisadores a tomarem cautelas
especiais nas experiências de precognição para evitarem as
possíveis influências psicocinéticas. Por outro lado, foram formuladas
teorias de efeito contrário, explicando a psicocinesia pela
precognição. O zoólogo C. B. Nash, seguido de outros
experimentadores, sugeriu que os fenômenos psicocinéticos não seriam
mais do que precognições. O sujet não dirigia a caída dos dados
da maneira que queria, mas da maneira que previa. Rhine
considera que a melhor experiência para anular essa hipótese foi
realizada por Thouless, na Universidade de Cambridge, já várias vezes
citada nestas páginas.
Cada uma dessas hipóteses ou teorias
obrigava os pesquisadores a realizar numerosas experiências com o fim de
verificar a sua possibilidade ou anulá-la. Em geral, o curioso dessas
hipóteses é que elas admitem efeitos muito maiores que os comprovados
pelas experiências, para negarem efeitos infinitamente menores que os
pesquisadores procuram alcançar. A teoria da psicobolia é um
exemplo disso. Também a da ação psicocinética sobre o embaralhamento
mecânico de cartas, para negar a precognição. Supunha-se a
possibilidade de influência psicocinética na máquina de embaralhar, de
maneira que as cartas seriam dispostas na ordem determinada pelo
sujet. Assim, não haveria precognição, mas psicocinesia. É
fácil compreendermos que a ação mental sobre a máquina, com a enorme
precisão suposta no embaralhamento de cartas, representaria um
resultado psicocinético muito superior a todos os obtidos
experimentalmente até então. Mas a finalidade dessas hipóteses era
precisamente apurar os meios de investigação, permitindo uma definição
precisa de cada tipo de fenômeno.
As objeções à existência da psicocinesia
decorrem de uma alegação única: as experiências realizadas até agora são
ainda muito poucas para autorizar as conclusões de Rhine e sua escola.
Quando Rhine contesta com os resultados das experiências, rigorosamente
anotados e tratados, surgem evasivas desta natureza: os dados empregados
não eram do tipo mais indicado; houve muitas experiências com dados
defeituosos ou pelo menos que se podem supor defeituosos, pois não eram
fabricados especialmente; houve resultados que, nas revisões, mostraram
a ocorrência de erros de registro. A todas essas evasivas Rhine e sua
equipe respondem com o relato minucioso das experiências e sustentam a
realidade da psicocinesia, experimentalmente comprovada, não obstante
admitam a necessidade de que as experiências continuem e se
intensifiquem.
Ao contrário da telecinesia – movimentos
de objetos à distância, aportes, levitações de objetos e pessoas,
inclusive dos próprios sensitivos –, que constituiu um dos campos mais
vastos de experiências na Metapsíquica, a psicocinesia é considerada
como ação da mente sobre a matéria sem qualquer intermediário físico,
como acentuamos no início do capítulo. Ficam assim excluídas as
hipóteses metapsíquicas da ectoplasmia. Para Richet esses movimentos
eram produzidos por meio de um elemento físico: o ectoplasma, emanação
orgânica do médium. O Professor Crawford, catedrático de mecânica da
Universidade Real de Belfast, na Irlanda, chegou a realizar numerosas
experiências sobre a mecânica do ectoplasma.
As investigações de Crawford foram
consideradas como esclarecedoras do processo. Richet as incluiu em seu
Tratado de Metapsíquica. Crawford realmente provou, através de
experiências minuciosas e rigorosamente controladas, com as repetições e
diversificações necessárias, a existência daquilo que William Crookes
chamou de força psíquica, ou seja, de emanações do corpo do
sensitivo em condições variadas, diminuindo o peso deste quando em
grande quantidade. Por exemplo: colocado o sensitivo sobre uma balança
de controle-relógio, verificou-se que o peso do mesmo diminuía ao
levitar-se um objeto pesado, como uma grande mesa ou um piano, e
aumentava com a soma do peso do objeto quando este era leve, como uma
cadeira ou uma banqueta. Isso demonstrava que a força emanada do médium
tomava a forma de um pseudópodo, erguendo os objetos leves como se faz
com o braço, mas apoiando-se no solo, em forma de alavanca, para o caso
dos objetos pesados.
O Coronel Albert De Rochas, que foi
diretor do Instituto Politécnico de Paris e notabilizou-se pelos seus
trabalhos experimentais sobre a exteriorização da sensibilidade e da
motricidade em processos hipnóticos e para-hipnóticos, fez importante
comunicação ao Congresso Internacional de História das Ciências,
realizado em 1900, em Paris, sobre a levitação. Remontou o estudo da
levitação aos gregos, referindo-se aos pequenos tratados de Heron e
Filon sobre Autômatos e Pneumatômatos, por ele mesmo
traduzidos para o francês e publicados em Paris pela Livraria Masson, em
1882. Isso demonstra a razão de Rhine ao afirmar que os fenômenos
parapsicológicos são novos apenas para as Ciências modernas.
Os estudos e as pesquisas de Eugene Osty e
Gustave Geley, no Instituto de Metapsíquica de Paris, sobre a força
psíquica de Crookes, que é o mesmo ectoplasma de Richet, revalidaram
modernamente as velhas observações gregas, mas acabaram sendo postos de
lado pela evolução técnica do nosso tempo. Tendo em vista a posição
atual da Ciência em face desses fatos, a Parapsicologia age com
prudência, tratando preliminarmente da psicocinesia como ação direta da
mente sobre a matéria, através de pesquisas em plano rudimentar. Daí o
apelo ao jogo de dados, à queda de gotas d'água, à movimentação dos
pratos de pequenas balanças de precisão. As próprias experiências com
plantas e bactérias, por implicarem menor complexidade, são realizadas
apenas por alguns experimentadores mais audaciosos, que em geral as
interrompem, temerosos das conseqüências que os seus trabalhos podem
acarretar-lhes no campo profissional. Há uma história da acomodação
científica que ainda um dia será escrita em todos os seus
pormenores.
As experiências de Pk em
laboratório são, portanto, limitadas e condicionadas, como o são as de
percepção extra-sensorial. Rhine já advertiu que esse
condicionamento e essa limitação, exigidos pelo método científico – e
não podemos esquecer que este método corresponde às condições da
pesquisa material – determinam uma redução dos fenômenos. Os casos
espontâneos, ocorridos no mundo inteiro, revelam sempre maior densidade.
Daí o interesse, por exemplo, que a Dra. Louise Rhine vem dedicando ao
exame sistemático desses casos, devidamente colhidos e comprovados por
processos especiais. O método científico só nos permite colher uma
parte mínima dos efeitos, em fenômenos provocados, pois desde que
estes são de ordem psíquica manifestam natural suscetibilidade em
situações experimentais. Soal foi dos primeiros a observar que a criação
de um ambiente de familiaridade entre pesquisadores e sujeitos favorecia
a produção mais abundante dos fenômenos. Essa familiaridade não quer
dizer afrouxamento dos meios de controle experimental, mas apenas a
diminuição de constrangimentos para o sujeito.
A concepção do fluido é hoje uma heresia
científica, ao menos provisoriamente. Foi afastada do magnetismo e do
hipnotismo e a Parapsicologia também a põe de lado, ou pelo menos entre
parênteses, como vemos no caso da psicocinesia. O ectoplasma figura na
mesma pauta de condenação e a força psíquica de Crookes, embora
ainda sobreviva nas doutrinas energéticas da telepatia, entre russos e
franceses, é considerada em geral como suspeita. Carington, com sua
teoria das estruturas de psícons, e Jung, com sua teoria da
sincronicidade, procuram substituir a concepção energética. Mas
parapsicólogos do renome científico de Thoules, Soal, Price, Tischner,
Pratt e outros tendem a admitir que a ação psicocinética, integrada nos
processos vitais, dispõe de meios específicos de manifestação.
Para Thouless e Tischner, como acentuamos
no início do capítulo, a psicocinesia explica a mecânica da vida. Sua
manifestação é de natureza dupla. Interiormente ela se manifesta na
movimentação do corpo. A mente age através do sistema nervoso sobre os
músculos, produzindo assim os efeitos motrizes. Exteriormente age sobre
o mundo material através de meios ainda não-conhecidos, que para Rhine
são extrafísicos, mas para Vassiliev, na Rússia, são de natureza física
ainda não identificada. Soal, por exemplo, realizou na Universidade de
Cambridge experiências bem sucedidas de voz direta. Trata-se de
um fenômeno espirítico bem conhecido que implica a psicocinesia e a
telecinesia, pois temos a levitação da corneta de papelão ou de metal, a
sua movimentação no ambiente e a produção de uma voz aparentemente
autônoma, que parece soar sem ligação com o aparelho vocal do sensitivo.
Seja-nos permitido lembrar aqui algumas
experiências pessoais que justificam a nossa posição favorável à
ectoplasmia. Em 1938, em Cerqueira César, na Sorocabana, realizamos
experiências com o médium Ciro Milton de Abreu e sua esposa D. Adelaide.
Reuníamo-nos numa sala retangular, de seis metros de comprimento por
quatro de largura, com apenas duas portas: uma de passagem interior e
outra para a rua. Pequeno grupo: Dadício de Oliveira, então assessor do
coletor federal local; sua esposa, D. Catarina de Oliveira; Maria
Virgínia Ferraz Pires e Bonina Amaral Simonetti Pires (esposa e mãe do
autor) ; às vezes, o médico Dr. Adalberto de Assis Nazareth e sua esposa
e mais duas ou três pessoas. O médium, ferroviário da E. F. Sorocabana,
era porteiro da estação local; ele e esposa dotados de sensibilidade
variada. Tentamos experiências de escrita direta com lápis e
prancheta, sobre papel em branco, folha rubricada pelos presentes,
fechada à chave na gaveta de uma mesa colocada à distância do grupo.
Portas fechadas à chave, ambiente de luz vermelha, todos perfeitamente
visíveis. Local tranqüilo sem ruídos. Na primeira experiência e nas
seguintes, durante meia dúzia de sessões, obtivemos apenas pequenos
ruídos e sinais levemente luminosos sob as cadeiras dos médiuns, quando
em transe. Depois, obtivemos a grafia, em letras grandes e mais ou menos
trêmulas, no papel, dentro da gaveta fechada, da palavra: Paz. Na
sessão posterior, a escrita aumentou. Obtivemos: Paz,
continuem, com a mesma letra graúda e trêmula. Depois disso,
infelizmente, por motivo de doença na família dos médiuns, não pudemos
prosseguir. Mudanças posteriores dissolveram o grupo.
Mais tarde, visitando a cidade, tivemos
oportunidade de assistir a um trabalho realizado com quase as mesmas
pessoas e com o mesmo médium, na sala de frente da residência do Sr.
Dadício de Oliveira. Aliás, o próprio médium insistiu para que
participássemos de algumas sessões, pois nada percebia durante os
trabalhos e os relatos que posteriormente lhe faziam pareciam suspeitos.
Tinha receios de estar fraudando inconscientemente, sem que os
participantes do trabalho o percebessem. Maior era a sua desconfiança
diante do entusiasmo revelado por todo o grupo. Presenciamos então a um
dos fenômenos mais curiosos de ectoplasmia de que já tínhamos noticia
pela leitura de livros especializados. Na sala escura, mas não
totalmente, pois não dispunha de forro e a luz filtrava levemente pelas
telhas – o médium em transe, cercado pelo grupo – a emissão de
ectoplasma começou com leve característica: luminosidade sob a sua
cadeira, seguida da expansão, com cheiro cada vez mais acentuado de
ozona, de um leve nevoeiro que se adensava progressivamente. Quando a
sala estava completamente tomada por esse nevoeiro leitoso, começaram
curiosos fenômenos de explosão ectoplásmica, semelhantes, em
proporções relativas, a descargas elétricas na atmosfera. Pequenos
relâmpagos estrelejavam no ambiente, cortando o ar de um lado para
outro, sempre em sentido descendente, produzindo odor mais forte de
ozona. Esses efeitos duraram por mais de duas horas, de maneira que
pudemos observá-los à vontade.
Noutra sessão o mesmo médium foi levitado
de forma estranha. Sentado numa cadeira, encostado à parede, foi
arrancado da mesma e deslizou pela parede até o teto, sendo colocado em
pé no alto da parede. Acesa a luz, vimo-lo equilibrando-se no alto, mas
de corpo curvado para a frente, o que dava a impressão de que ia cair.
Ficou nessa posição por dois minutos cronometrados. A seguir, apagamos a
luz elétrica e ouvimos imediatamente novo ruído de arrasto, como se o
seu corpo fosse levado de arrastão. Ele era colocado de pernas
entrançadas no madeirame do teto e de cabeça para baixo. Acesa a luz,
pudemos vê-lo assim durante um minuto. Apagada a luz, em apenas dois ou
três segundos (foi impossível o cálculo exato, dada a rapidez do
fenômeno) o médium se encontrava de novo na cadeira, sentado e em
transe, de cabeça deitada para trás, apoiada na parede, exatamente como
se achava antes do início dessa seqüência de movimentos.
Os fenômenos de voz direta obtidos
mais tarde, em Marília, com o médium Urbano de Assis Xavier, e em São
Paulo com a médium D. Hilda Negrão, esposa do jornalista Odilon Negrão,
confirmaram esses efeitos telecinéticos. Em todas essas experiências,
realizadas em pequenos grupos familiares e em ambientes fechados e
restritos, sem a menor possibilidade de fraude – mormente tendo-se em
conta a amplitude dos efeitos – tivemos oportunidade de verificar a
realidade dos fenômenos metapsíquicos de que somente agora, e
timidamente, a Parapsicologia vem tomando conhecimento. Compartilhamos
da opinião de Wathely Carington, de Soal, de Price e de Thoules de que
esses fenômenos não revelam apenas a emanação de uma força psíquica
do médium, mas também a existência de uma enteléquia de Shi
(segundo a expressão de Soal) ou da alma humana, do espírito humano. Só
poderíamos admitir o contrário se as experiências provassem o contrário
– o que até agora não foi feito –, enquanto as provas a favor, como se
vê pela opinião dos parapsicólogos citados, continuam a produzir-se,
mesmo com as limitações extremas da pesquisa científica de tipo
quantitativo.
A psicocinesia é assim o primeiro passo da
Parapsicologia para a redescoberta da telecinesia, com suas inevitáveis
implicações energéticas. Se para a percepção extra-sensorial, que
por sua própria natureza psíquica (ou puramente psicológica, como
pretende Rhine) podemos admitir a ação direta da mente sem
intermediário, pelo menos de natureza física, já o mesmo não se dá com a
psicocinesia, porque os fenômenos psicocinéticos, sendo objetivos,
exigem a participação de elementos orgânicos. A mente pode agir
diretamente no plano mental, mas no plano material ela necessita de
instrumentos. A tese de Rhine, de ação direta da mente sobre a matéria,
parece menos aceitável que a de Tischner, que considera essa
possibilidade somente no plano das relações alma-corpo, exigindo para as
ações exteriores um instrumento orgânico. Esse instrumento, como já o
demonstrou a pesquisa metapsíquica, só pode ser o pseudópodo de
ectoplasma que Richet denominou Alavanca de Crawford em homenagem
ao injustiçado pesquisador de Belfast.
Neste ponto incidimos na teoria da
polaridade de Rhine, que tenta explicar a psicocinesia como o pólo
oposto de percepção extra-sensorial. Quer dizer: a polaridade de
psi revelando-se nos efeitos recíprocos, subjetivos e objetivos.
O simples fato da percepção representa, segundo Rhine, uma ação da mente
sobre a matéria e vice-versa. Isso justifica a sua tese da ação direta
em psicocinesia. Mas se percebemos diretamente, isso só acontece na
percepção extra-sensorial, pois a percepção normal se verifica
através dos sentidos físicos. E toda ação mental depende, para se
efetivar no mundo físico, da mediação de elementos materiais, ao menos
pelo que sabemos até agora. O problema é bastante complexo, como vemos,
e seria inoportuno tentar aprofundá-lo aqui. Parece-nos suficiente
advertir que a comprovação já feita em tantas experiências científicas
ou leigas, experimentais ou ocasionais, da existência do ectoplasma,
deve servir para uma posição mais cautelosa no tocante à teoria dos
fenômenos psicocinéticos.
Por que todos esses trabalhos são
relegados ao esquecimento? Pelo fato de um Paul Heuzé ou um Silva Mello
contestá-los, sem as credenciais científicas e o acervo de experiências
de um Zöllner, de um Aksakof, de um Paul Gibier, de um Osty ou um Geley?
As experiências de Crookes, como afirmou Richet: são de granito.
Não obstante, pretendem contestá-las com suposições ridículas.
Remy Chauvin, diretor de laboratórios do
Instituto de Altos Estudos de Paris, formulou recentemente a teoria da
alergia ao futuro, para explicar essas contradições. Essa forma
de alergia tem impedido o desenvolvimento de pesquisas que se
destinam a abrir novos horizontes para o homem. Os que se apegam ao
presente, ao acervo de conquistas já realizadas pelas Ciências, lançam
mão de todos os recursos para evitar o avanço do conhecimento em rumos
que lhes parecem perigosos. Simples manifestação cultural do instinto de
conservação.
Segundo Chauvin, a própria evolução da
cultura exige a ação contraditória das forças de impulsão e retenção. As
primeiras impelem a cultura em direção a novas conquistas, as segundas
retêm a cultura em seu estado atual. Esse jogo de forças, existente em
todas as coisas, estabelece o equilíbrio de cada entidade,
permitindo-lhe evoluir sem prejuízo das conquistas já consolidadas. Mas
quando as forças de retenção sobrepassam as de impulsão, o processo
evolutivo está ameaçado. O mesmo acontece no caso inverso. Nas Ciências
atuais as forças de retenção (a inércia) estão ameaçando as de impulsão
(a cinética) em vários campos. A maioria dos cientistas prefere
acomodar-se.
As pesquisas de clarividência e telepatia
levaram os investigadores à descoberta da precognição, mas não
ficaram nisso. Os fenômenos psi se encadeiam, de maneira que
puxar um deles é arrastar os demais. A trama do paranormal é como uma
rede que vai surgindo do fundo do psiquismo como das águas de um mar. E
essa rede traz os seus peixes.
O grupo de pesquisas dos fenômenos teta
surgiu na Duke University, sob a direção do Professor Pratt, em
virtude das interferências de casos de morte nas investigações
dos casos de vivos. E o Boletim Teta se impôs aos leitores
do Journal of Parapsichology como uma necessidade de informação
específica. Mas quais são esses casos de morte?
Já vimos que eles estão presentes em todas
as investigações, tanto do passado como do presente. São uma constante
do campo de fenômenos paranormais. Um dos exemplos mais esclarecedores,
a respeito, é o livro da Professora Louise Rhine, Canais Ocultos da
Mente. Os casos de avisos de morte são os que mais impressionaram os
investigadores. Mas há também os casos de aparentes manifestações de
espíritos de mortos que não se referem propriamente a mortes recentes.
Fugir à investigação desses casos seria temer a verdade que a Ciência
procura.
Os Profs. Soal e Bateman, em seu livro a
duas mãos, Telepatia, Experiências Modernas, lembram no prefácio
que as pesquisas de laboratório, por meio de cartas, correspondem às
exigências de comprovação quantitativa das ciências atuais. E explicam:
“Podem argumentar que certos médiuns, como a Sra. Piper ou a Sra.
Blanche Cooper, revelaram possuir minucioso conhecimento da vida de seus
consulentes, que não poderiam ter conseguido pelos meios normais. É
verdade, mas poucas vezes demonstraram isso a pedido ou respondendo a
perguntas: fizeram-no de maneira espontânea. Médiuns como elas quase
sempre falham na adivinhação das cartas, na percepção de desenhos ou em
simples experiências telepáticas. Apesar de sua maior capacidade
paranormal, não têm, no geral, inclinação para trabalhos experimentais
de cunho estatístico. E é esta, atualmente, a única espécie de trabalho
capaz de impressionar os cientistas ortodoxos”.
Essa declaração equivale a uma confissão
de que o campo dos fenômenos paranormais é muito mais vasto e cheio de
oportunidades do que o limitado espaço de um laboratório. Mas a pesquisa
de campo, como o levado a efeito pela Sra. Rhine, só poderia ser feita
depois das infindáveis séries de experiências intramuros. Grande número
de parapsicólogos, à maneira de Soal e Bateman, do casal Rhine, de Pratt,
Carington, Price, Tischner e outros, sabe que os fenômenos espontâneos,
como sustenta o Professor Jean Ehrenwald, são mais ricos e mais
carregados de significação que as “secas” experiências de laboratório.
Mas é necessário oferecer figos secos aos céticos, para que eles
acreditem na existência de figos frescos.
Os fenômenos teta se acham
naturalmente mesclados aos tipos da classificação parapsicológica já
nossa conhecida. A impossibilidade, porém, de atribuí-los simplesmente à
clarividência ou à telepatia, de um lado, e de outro lado à psicocinesia,
exigiu para eles uma classificação especial. Recorreu-se à letra grega
theta, oitava letra do alfabeto grego, por ser com ela que se
escreve a palavra morte. Assim, a frieza da designação científica,
puramente esquemática, foi amornada pelo sentido simbólico.
Mas aconteceu com os fenômenos teta
uma coisa curiosa. Não foi possível reduzi-los ao campo de psigama
ou de psikapa. Ele se revelou nos dois campos, de maneira que os
pesquisadores se viram obrigados a incluí-lo no esquema com dupla
designação: teta psigama e teta psikapa. Os
primeiros são os fenômenos puramente subjetivos, percebidos
individualmente pelo sujeito. E mesmo quando percebidos por outras
pessoas, não têm nenhuma objetividade. São aparições, vozes, estrondos,
barulhos diversos sem nenhum motivo exterior. Os segundos são objetivos:
a queda de um quadro, o partir de um vaso, a derrubada de um móvel e
assim por diante.
A importância desses fenômenos está em
ligação com fatos reais. Sua significação é evidente e conhecida desde a
mais remota antigüidade. As crônicas históricas da Grécia e Roma, sem
contar o enorme acervo proveniente das civilizações orientais, estão
repletas de casos dessa natureza. Não há dúvida quanto à existência do
fenômeno conhecido como aviso de morte. Mas, cientificamente esse
fenômeno não existia. Todos os relatos a respeito eram relegados ao
campo da superstição, atribuídos à imaginação. Mesmo agora não se pode
afirmar que esses fenômenos, com a significação de avisos de morte,
tenham existência científica, estejam incluídos na fenomenologia
admitida pelas Ciências.
Claro que depois das pesquisas
parapsicológicas a existência desses fenômenos ficou provada
cientificamente, pelo menos como possibilidade. A explicação científica
seria a da clarividência ou da telepatia, e para os objetivos, na área
parapsicológica que os admite, como prova da psicocinesia. Mas existe
para muitos casos aquela impossibilidade de explicação “sem uma presença
extrafísica” a que aludem o casal Rhine. Daí a necessidade de pesquisas
especiais quanto à tipologia própria desses fenômenos, determinada pela
significação intrínseca e evidente que os caracteriza.
Os casos de manifestações mediúnicas de
pessoas falecidas são mais complexos, mais difíceis de sujeitar às
exigências da metodologia científica dominante e sua investigação será
deixada para mais tarde. Apesar disso, algumas experiências têm sido
feitas corajosamente e é grande o número de livros publicados a
respeito, na Europa e nos Estados Unidos, como se pode ver pela seção
bibliográfica do Journal of Parapsichology. Estamos numa época de
audácias e muitos investigadores se atrevem a avançar no terreno
perigoso. O próprio Rhine, como se sabe, pois o declara em seus livros,
considera esse problema como de simples metodologia. Descobrindo-se o
método conveniente, como ele fez com a clarividência e a telepatia, e
posteriormente com a psicocinesia, não haverá dificuldades para o
empreendimento de pesquisas sistemáticas.
Os cientistas norte-americanos que
investigam o caso Arigó declararam em São Paulo, em reunião com
representantes do Instituto Paulista de Parapsicologia, e outros
elementos dos nossos meios universitários, que esperam obter resultados
positivos nesse sentido. Guardam, porém, absoluto silêncio quanto ao
método empregado. Usam complicada aparelhagem e dedicam longo tempo a
observações pessoais junto ao médium em transe. A insistência com que
vêm realizando os trabalhos, fazendo viagens constantes e dispendiosas
ao Brasil e permanecendo semanas inteiras em Congonhas parece demonstrar
que têm obtido êxito. Aliás, isso foi confirmado por declaração que
fizeram à imprensa e mais recentemente em contatos pessoais com o autor
e outros estudiosos brasileiros.
Os casos de reencarnação não se incluem
nos fenômenos teta. Parecem mais afastados do interesse dos
investigadores por exigirem a prova anterior do pressuposto, ou seja, da
própria sobrevivência do homem após a morte. Não obstante, os cientistas
que se interessam por eles, como o Professor Banerjee, acreditam que se
conseguissem provar cientificamente a reencarnação, a prova da
sobrevivência estaria implicitamente feita. E o curioso é que Banerjee
possui um arquivo de centenas de casos de reencarnação que conseguiu
comprovar em doze anos de pesquisas. Mas prefere chamá-los de “casos de
memória extra-sensorial”, por não dispor de condições científicas
oficiais para a sua imposição ao mundo das Ciências.
Vejamos praticamente o que se passa:
Banerjee pode provar que cerca de quinhentas crianças demonstraram
possuir lembranças de uma vida anterior e que os seus relatos foram
objetivamente comprovados pela pesquisa. Isso parece suficiente para a
maioria das pessoas, mas não para os homens de Ciência, que levantam
dúvidas e formulam hipóteses explicativas as mais diversas. Banerjee
precisava dispor de meios seguros para desfazer essas hipóteses. Mas
quando um cientista diz que a criança simplesmente captou as supostas
lembranças pela clarividência ou pela telepatia, ou se põe a falar de
“memórias das células” e outras coisas mais improváveis que a própria
reencarnação, ele só pode refutá-lo servindo-se da lógica. Foi o que
aconteceu com as pesquisas de Albert De Rochas no campo da regressão da
memória, no século passado.
A necessidade de segurança criou para as
Ciências uma espécie de rede de aço no tocante às exigências
metodológicas. Os cientistas que pretendem romper as malhas dessa rede
enfrentam dificuldades muitas vezes insuperáveis. Mas a própria evolução
científica tem modificado essas exigências, com a criação de condições
novas na investigação, uma vitória que para Richet fora impossível.
Talvez a investigação dos fenômenos teta venha abrir novas
possibilidades dentro em breve.
Tudo quanto escrevemos nos capítulos
anteriores a respeito da progressão irresistível das pesquisas
paranormais confirma-se neste capítulo. Fomos obrigados a acrescentá-lo
a esta nova edição, não apenas para atualizá-la no campo da informação,
mas também para sancionar as previsões formuladas no tocante ao avanço
das pesquisas. Podemos dizer, ainda, que este capítulo prova a exatidão
da segunda parte do volume, que tantos estudiosos demasiado
sistemáticos, e sobretudo opiniáticos, haviam considerado como
temerária. As perspectivas da Parapsicologia, que desdobramos ali,
tornaram-se realidade, em grande parte, muito mais cedo do que
esperávamos.
Mec é a sigla de memória
extracerebral, o mais recente fenômeno a entrar no campo das
pesquisas de psi. Com ele, esse campo de pesquisas se amplia de
súbito, rompendo a aparente estagnação em que parecia haver caído. E
assinale-se a contradição: representando um mergulho no passado, Mec
é, na verdade, um salto no futuro. A colocação científica do problema de
Mec, simultaneamente na URSS e nos EUA, por cientistas de
reconhecida capacidade e probidade, valeu por um rompimento inesperado
das barreiras do preconceito que impediam o avanço das pesquisas e
chegavam mesmo a ameaçar a Parapsicologia com a repetição da aparente
derrota infligida pelos adversários à Metapsíquica. Podemos agora dizer
que esse perigo foi afastado, exorcizado pela audácia dos pesquisadores
modernos.
A expressão memória extracerebral
surgiu simultaneamente com outras, como: paramemórias e
reencarnações sugestivas. É evidente a superioridade teórica da
primeira designação, que se emparelha perfeitamente com ESP (percepção
extra-sensorial) e ao mesmo tempo rejeita a suspeição de causas
puramente sugestivas, que torna anticientífica a última designação. Por
sinal que esta última surgiu na Rússia, onde é evidente o interesse
ideológico de contestação do significado do fenômeno. Quanto à expressão
paramemórias, que também se ajusta à nomenclatura
parapsicológica, perde entretanto para Mec no tocante às
exigências de clareza e precisão.
Memória extracerebral é um tipo de
memória que não pode estar no cérebro, pois este pertence à existência
atual do indivíduo, surgiu com o seu corpo, nesta vida, como a
tábula rasa dos empiristas – disco virgem para as primeiras
gravações sensoriais – enquanto a referida memória corresponde a uma
possível existência anterior. De onde vem ela? Esse o problema essencial
a ser resolvido pelas pesquisas. Era muito fácil e cômodo, até há pouco
tempo, resolvê-lo com um simples dar de ombros, negando a sua
existência. Mas agora, com as provas científicas da sua realidade, só
resta a evasiva simplória da sugestão ou a escapadela provisória pelas
vias da percepção extra-sensorial. Essas duas vias de escape,
entretanto, já se encontram bloqueadas pelas conseqüências teóricas e as
evidências práticas das pesquisas.
Podemos dividir em três campos, no
momento, a área de pesquisas de Mec. De um lado temos o campo
ocidental constituído pelos investigadores norte-americanos e europeus;
de outro o campo oriental constituído pelos pesquisadores indianos e
asiáticos; e por fim o campo soviético, onde se destaca a figura do
Professor Wladimir Raikov, da Universidade de Moscou. As pesquisas
realizadas no Brasil pelo Eng. Hernani Guimarães Andrade e outros
pesquisadores, bem como as da Argentina, enquadram-se naturalmente no
campo ocidental.
O pioneiro das investigações no meio
universitário, ao que parece, foi o Professor Dr. Hamendras Nat Banerjee,
da Universidade de Jaipur, província de Rajastan, na Índia. Desde 1954,
segundo ele mesmo nos informou em entrevista pessoal, suas pesquisas vêm
aprofundando a questão de maneira sistemática e rigorosa. Vários livros
em que apresenta o resultado de seus trabalhos foram editados em inglês
pela própria Universidade. Seu fichário de casos excede ao de qualquer
outro pesquisador, indo além de um milheiro. Apesar disso, as suas
conclusões não são tão positivas como as do Professor Dr. Ian Stevenson,
da Universidade de Virgínia, EUA, que parece agir com mais desenvoltura.
O Dr. Banerjee dá-nos a impressão de um homem que sofre das restrições
naturais determinadas pela sua condição de indiano. Sua posição
científica é mais ou menos afetada pelo preconceito ocidental que sempre
envolve as figuras da Índia numa auréola mística. Reagindo contra isso,
Banerjee se mostra demasiado cauteloso, embora nem sempre consiga manter
essa cautela. Stevenson está livre dessa coação e age de maneira mais
decisiva.
O pioneirismo de Banerjee, porém,
restringe-se à atualidade. Antes dele temos de assinalar a presença
vanguardeira do Cel. e Professor Albert De Rochas, Diretor do Instituto
Politécnico de Paris, que em 1924 já lançava o seu livro As Vidas
Sucessivas, pelos Editores Chacorcan Freres, e o Dr. J. Björkem, que
em 1943 publicava em Estocolmo o seu livro Hypnotiska
Hallucinationerna, pela Editora Litteraturforlaget. Na Inglaterra,
embora não estritamente em plano universitário, o livro This Egyptian
Miracle, do Dr. F. H. Wood, despertou grande interesse, relatando o
caso de Rosemary, médium espontânea que falava o egípcio
faraônico, revelando recordações de uma vida longínqua. Outro livro
inglês, recente, e que enquadra o autor nas pesquisas atuais, é o do Dr.
Alexander Canon, médico da corte, intitulado Reencarnação e
Psiquiatria.
Albert De Rochas foi o pioneiro das
pesquisas hipnóticas sobre a reencarnação. Sua técnica é hoje
desenvolvida pelo Dr. Raikov, na Universidade de Moscou, favorecendo a
posição do pesquisador em face do materialismo oficial da URSS. Daí a
expressão reencarnações sugestivas por ele utilizada
inicialmente. Mas Banerjee e Stevenson seguem outro método, preferindo o
exame dos casos espontâneos de lembranças de vidas anteriores reveladas
por crianças. Segundo esses dois cientistas, os casos espontâneos têm a
vantagem da naturalidade, enquanto o processo de regressão da memória
pela hipnose é artificial e o mais sujeito à suspeita de fabulações
inconscientes pelo paciente. Os dois métodos, porém, vão se revelando
aos poucos como processos complementares, servindo alternadamente para a
comprovação científica da realidade das vidas sucessivas.
Em suas conferências e entrevistas em São
Paulo o Dr. Banerjee colocou-se numa posição cautelosa, mas instado por
um entrevistador de televisão, no Canal 4, chegou a sustentar a tese da
prova da sobrevivência espiritual do homem através da pesquisa sobre a
memória extracerebral. O Dr. Stevenson, em seu livro 20 Casos
Sugestivos de Reencarnação, no qual figuram dois casos observados no
Brasil, admite que as pesquisas já romperam os limites da simples
sugestão, atingindo a evidência, Isto mostra o quanto se avançou no
campo da Parapsicologia nestes últimos anos. Mas como poderiam os
cientistas chegar à comprovação científica, e portanto irrefutável, de
um caso de reencarnação através das manifestações espontâneas ou
provocadas da memória extracerebral? É o que procuraremos
esclarecer a seguir.
O método seguido por De Rochas é ainda o
empregado pelos cientistas atuais, mas aperfeiçoado; com exceção,
naturalmente, de Raikov, que não se preocupa com a verificação da
realidade da reencarnação, mas apenas com o problema em si, estritamente
psicológico, da memória extracerebral. Raikov, na linha
pavloviana da psicologia soviética, pretende explicar o fenômeno em
termos biológicos. Mas tanto Banerjee como Stevenson, e os demais
cientistas que os acompanham nesse campo de pesquisas, seguem as trilhas
de De Rochas: verificação objetiva das lembranças nos locais e meios
social e familiar em que teria vivido a personalidade anterior, que
agora aparece como reencarnada. Essa verificação, dando resultados
positivos, é tanto mais significativa quanto menos as pessoas atuais, em
cujo meio vive o reencarnado, tiverem informações sobre os fatos
lembrados. Ou seja: quanto mais estranhos sejam para os familiares
atuais do reencarnado os locais, as pessoas e os costumes de sua
existência anterior.
A esse método de verificação
acrescentaram-se técnicas modernas de comparação tipológica, tanto de
natureza psicológica como biofisiológica. Banerjee e Stevenson servem-se
de fichas tipológicas comparativas. Isso é possível nos casos de
reencarnações recentes, particularmente em meios sociais afins, por
exemplo: no mesmo país, na mesma família ou em famílias interligadas por
relações de amizade. É possível também no caso de personalidades que
deixaram marcas na tradição local ou na História, tornando-se impossível
em casos de reencarnações que implicam distâncias maiores de tempo entre
a vida anterior e a atual, porque então escasseiam ou desaparecem
totalmente os dados da tipologia anterior. De qualquer maneira, essa
técnica de comparação tipológica, quando bem aplicada, proporciona
elementos valiosos de evidência.
Stevenson, seguindo tentativas feitas no
passado por Sir Oliver Lodge e atualmente por C. J. Ducasse, dá grande
importância aos padrões culturais, que podem ser confrontados, entre as
duas personalidades, mesmo quando colocada a segunda (a do reencarnado)
em situação cultural e social diferente da situação do passado. Nos
padrões de comportamento, Stevenson dá grande valor às manifestações
claras, precisas, de habilidades que o reencarnado não pode ter obtido
na vida presente e que o identificam com a personalidade anterior. Nos
padrões físicos, corporais, destacam-se os sinais de nascimento e as
deformações que podem identificar, ao menos em princípio, a
personalidade atual com a personalidade anterior. Em vários casos há
também um elemento ponderável a ser considerado: o aviso de
reencarnação, que poderíamos chamar de anunciação, em virtude dos
casos clássicos de anunciações de nascimento nas várias religiões.
Lembre-se a anunciação do anjo a Maria, a anunciação do nascimento de
João e assim por diante. As anunciações, naturalmente mais modestas,
feitas no âmbito familiar, têm inegável significação quando o fato se
realiza e as suas circunstâncias confirmam a previsão.
Todo esse processo de verificação dos
casos de reencarnação não exclui a multiplicidade de teorias
explicativas do fenômeno de memória extracerebral. Mas, como em
todos os campos da Ciência, e particularmente no setor especifico das
Ciências Psicológicas, a verificação depende da capacidade e habilidade
do investigador, pois o processo é complexo, implicando numerosos
fatores sutis (porque psíquicos) e exigindo elevado grau de bom-senso,
de conhecimento dos problemas em causa e de capacidade de discernimento.
Como assinala Stevenson, é preciso discernir, por exemplo, entre casos
de possessão e de reencarnação. Os casos de possessão pertencem
ao capítulo da mediunidade. Uma criatura atual é “possuída” pelo
espírito de outra, que se manifesta nela como personalidade alternante.
O interessante neste caso é a aceitação científica, e já agora pacífica,
dos casos de manifestações mediúnicas. A evidência dos casos de
reencarnação supera a fase das discussões teóricas sobre a questão da
sobrevivência espiritual e da comunicabilidade dos mortos. Stevenson
confunde, em certos casos, a possessão mediúnica com a reencarnação
propriamente dita, o que prova que ele não é espírita.
Façamos justiça a Allan Kardec e ao
Espiritismo, reconhecendo sua prioridade no campo das investigações
científicas sobre a reencarnação. A Revista Espírita (coleção do
tempo de Kardec), hoje editada em português, é um valioso repositório de
fatos e uma eloqüente demonstração do esforço de Kardec no campo da
pesquisa psíquica, para provar a reencarnação. E os métodos hoje postos
em prática pelos cientistas têm as suas raízes mais profundas no
Espiritismo. Ao contrário do que dizem as pessoas mal informadas ou mal
intencionadas, Kardec não tirou o princípio da reencarnação das
doutrinas da Índia. O princípio espírita da reencarnação originou-se das
manifestações dos espíritos e confirmou-se nas pesquisas. O próprio
Richet, no Tratado de Metapsíquica, reconhece que Kardec jamais
aceitou um princípio que não fosse confirmado pela experiência, pela
investigação de tipo científico. Até mesmo a questão das fichas
tipológicas atuais já teve o seu precedente n'O Livro dos Espíritos.
O meio ali indicado para saber-se o que se foi no passado é o exame das
tendências atuais. Essas tendências, vocações e habilidades, revelam no
presente as conquistas efetuadas no passado pelo espírito.
Kardec se considerava um druida
reencarnado. O mesmo aconteceu com Léon Denis, continuador de Kardec, a
quem Conan Doyle chamou um druida da Lorena, em cuja província
ele havia nascido. Kardec publicou na revista um curioso estudo sobre os
celtas e sua religião, o Druidismo. Léon Denis desenvolveu esse estudo
num livro dos mais belos e mais curiosos: O Gênio Céltico e o Mundo
Invisível. Mas ambos, Kardec e Denis, não acreditavam apenas que
eram druidas reencarnados na França, território da antiga Gália de
Vercingetórix. Eles sabiam que o eram. E sabiam porque? porque
haviam constatado as suas tendências, a orientação cultural (o problema
dos padrões de cultura) que já traziam em seus espíritos ao nascer, a
sua predisposição para o reerguimento dos princípios druídicos
(reencarnação, comunicação mediúnica, existência dos vários planos
espirituais, lei de causa e efeito, conceito de Deus e lei de evolução)
através do Espiritismo.
As provas da reencarnação no Espiritismo
abrangem todos os elementos considerados pelas pesquisas científicas
atuais. São considerados elementos probantes os seguintes: lembranças de
vidas passadas, sinais físicos reproduzidos no reencarnado, anunciação
mediúnica de renascimento (comprovada por sinais ou semelhanças
temperamentais e tipológicas), súbito reconhecimento pelo reencarnado de
locais em que vivera e de pessoas com as quais convivera (sempre que
seguidos de comprovações objetivas), simpatias ou antipatias acentuadas
e sem motivos imediatos entre pessoas (excluídos os casos de simples
atração ou repulsão fluídica por motivos de disposições temperamentais
ou psíquicas). Como se vê, a posição espírita, rejeitada pelas Ciências,
é a mesma por elas adotada na atualidade. Há profundas diferenças entre
as leis da reencarnação no Espiritismo e nas antigas religiões da Índia
e de outros povos, bem como na posição dos espíritas ante o problema e a
posição dos indianos, por sinal bem ressaltada pelo Dr. Stevenson em seu
livro acima citado. A concepção espírita da reencarnação se liga, de um
lado, à do Cristianismo primitivo, e de outro lado à concepção druídica,
segundo acentuaram Kardec e Denis.
A concepção cristã da reencarnação
encontra-se nos próprios Evangelhos e alguns dos Pais da Igreja, como
Orígenes, São Clemente de Alexandria e São Gregório de Nazienza. A
concepção celta se encontra nas tríades druídicas, exposição da
doutrina em estrofes de três versos, largamente estudadas pelos
especialistas ingleses, franceses, escoceses e outros. Kardec apresenta
essas duas concepções confluindo na Doutrina Espírita, e dialeticamente
se fundindo na síntese superior da concepção espírita, o que as
investigações científicas estão agora comprovando e referendando. Como
se sabe, o princípio da reencarnação vem de épocas imemoriais.
Desenvolveu-se amplamente nas civilizações antigas, como a do Egito, as
da Mesopotâmia, da Índia e da China. As tradições religiosas de Israel a
registram com o nome de ressurreição e os judeus atuais,
estudiosos de sua religião, não podem negá-la. Mas o Cristianismo herdou
essa tradição e aprimorou-a, apesar de tê-la suprimido (bem como à
pneumatologia ou manifestação mediúnica) para vê-la renascer nos
tempos modernos através do Espiritismo, que Kardec apresentou como uma
forma de Renascimento Cristão.
As concepções da reencarnação variaram
através dos tempos e dos povos, desde a forma retroativa da Metempsicose
egípcia, que Pitágoras adotou, até às formas confusas da ressurreição
judaica e cristã (João Batista era Elias, Jesus um dos profetas antigos
e ensinava que é preciso nascer de novo, da carne e do espírito –
ou da água e do espírito, o que dá na mesma, pois a água era símbolo do
elemento material para os antigos). Essas variações não militam contra,
mas a favor do princípio da reencarnação, como realidade interpretada
diversamente por diversas culturas. O que a Ciência faz agora com Mec
(memória extracerebral) é o que já fez com vários outros
problemas religiosos e terá de fazer com outros no futuro:
racionaliza-os, integrando-os na cultura contemporânea através da
pesquisa e da comprovação. O sobrenatural dá lugar ao natural. A lei da
reencarnação deixa de ser um princípio abstrato e passa para o plano da
realidade concreta (ou pelo menos verificável) à semelhança das leis
físicas e matemáticas. Assim, o estudo e a pesquisa de Mec
representam, sem dúvida, uma das mais recentes conquistas da atualidade
no campo do Conhecimento, reintegrando esse campo na sua unidade perdida
e reintegrando o espírito no quadro das realidades científicas do
século.
A falta de pesquisas intensivas sobre a
reencarnação, no Brasil e em toda a América de língua castelhana,
decorre principalmente da falta de recursos financeiros e de pessoal
habilitado. Nos Estados Unidos, como se vê pelos trabalhos ali
publicados – e um dos atestados disso é o livro de Ian Stevenson – os
pesquisadores são financiados por indivíduos ou instituições que lhes
permitem a tranqüilidade, as condições e o tempo necessários. Por outro
lado, as condições culturais e a preparação universitária dos
pesquisadores facilita a habilitação para esse campo específico e
difícil de estudos e investigações. Em nossos países latino-americanos
escasseiam recursos, condições e preparação.
Stevenson observou em seu livro que as
condições psicológicas no Brasil são mais favoráveis do que na própria
Índia, onde uma tradição espiritualista de tipo arcaico, fundamentada em
pressupostos místicos e eivada de superstições, dificulta o aparecimento
dos casos e mais ainda a sua pesquisa. As condições psicológicas do
Brasil decorrem de sua formação cultural, na qual Stevenson destaca duas
correntes importantes de contribuição, provenientes de fontes e camadas
estruturalmente diversas. A primeira é a corrente africana, folclórica,
representada pelas religiões primitivas trazidas até nós pelo tráfico
negreiro. É a corrente do Sincretismo Religioso Afro-Brasileiro, da
mistura de religiões e crenças do continente negro com o Catolicismo e
as crenças indígenas de nossa terra. A segunda é a corrente filosófica
francesa, que chegou bem mais tarde, somente em fins do século passado,
com o Espiritismo e, portanto, com as obras de Allan Kardec. Entre esses
dois extremos da estrutura cultural – o Folclore africano e a Filosofia
francesa (esta particularmente em suas conseqüências religiosas) – há
porém a vasta área de reação da cultura acadêmica européia, de tipo
materialista, que levanta uma barreira de preconceitos contra as
pesquisas parapsicológicas.
Há inegavelmente um complexo de
inferioridade cultural em toda a América Latina, que não lhe permite o
arejamento e a desenvoltura com que norte-americanos e europeus
enfrentam o momento de transição em que nos encontramos no mundo. A
evolução cultural do nosso tempo já superou, e com muita rapidez, a fase
de materialismo defensivo que marcou fortemente a segunda metade do
século XIX e a primeira metade do século XX. As próprias conquistas da
Física abriram novas perspectivas para um renascimento espiritualista
mundial. Mas os meios intelectuais – e particularmente os universitários
– no Brasil e demais países do continente, não conseguiram ainda vencer
a sua repugnância instintiva pelos problemas espirituais. Permanecem
fechados na casca de tatu do materialismo superado, convencidos de
encontrarem-se ainda na trincheira da verdade contra a superstição, sem
perceberem que a guerra já acabou e a anistia ampla se faz em todo o
mundo. Encastelado assim numa posição retrógrada, o nosso
intelectualismo acadêmico se vê acuado, principalmente no Brasil, pelas
avalanchas de hordas bárbaras que aumentam sem cessar, tanto no
campo da corrente africana quanto no da corrente francesa. Essa teimosia
o levará fatalmente a uma derrocada semelhante à do Império Romano, mas
enquanto não se der a queda da orgulhosa Roma Imperial a pesquisa de
Mec entre nós prosseguirá em ritmo de catacumba, à luz de archotes.
Esse aspecto trágico da situação cultural brasileira escapou
naturalmente à observação de Stevenson.
Os casos de reencarnação no Brasil,
conhecidos particularmente no meio espírita, são numerosos. Mas o
interesse existente nesse e em outros meios culturais afins é
esterilizado pela indiferença e pela reação dos meios universitários.
Essa reação, num país de pouco desenvolvimento cultural, exerce poderosa
influência, levando as próprias famílias em que ocorrem os casos de
reencarnação a uma curiosa posição de ambivalência: de um lado, elas se
orgulham da ocorrência, que as torna objeto de interesse especial dos
meios espiritualistas; de outro lado elas se esquivam e disfarçam a
situação, com o receio de serem consideradas pelos intelectuais como
redutos de superstições, e também com o receio (por sinal muito humano e
muito de acordo com o sentimentalismo brasileiro) de exporem os seus
parentes reencarnados ao ridículo e lhes criarem situações embaraçosas
no futuro. Isso particularmente nos casos de reencarnação com mudança de
sexo. Mas apesar disso os ventos do mar largo, que sopram de todos os
quadrantes do mundo, e o desenvolvimento cultural acelerado dos últimos
anos nos levam a esperar, talvez para mais breve do que se pensa, uma
mudança favorável dessa situação opaca para a transparência necessária.
Não é fácil fazer um levantamento geral
dos pesquisadores atuais da reencarnação em todo o mundo. Por toda a
parte eles se multiplicam sem cessar. Basta correr os olhos em algumas
publicações especializadas da Europa e da América, particularmente o
Journal of Parapsychology, para se ver a abundância de estudos
publicados a respeito. Mas o livro de Ian Stevenson, 20 Casos
Sugestivos de Reencarnação, oferece-nos, já nos agradecimentos do
autor aos que com ele colaboraram, uma lista impressionante de figuras
exponenciais das Ciências contemporâneas. Na abertura de um ciclo de
conferências na Biblioteca Municipal Mário de Andrade, em São Paulo, o
Dr. Banerjee declarou que pôde verificar pessoalmente a existência, na
Rússia, de duzentos cientistas empenhados na investigação da memória
extracerebral. Banerjee tem estado com certa freqüência nos Estados
Unidos, na URSS e no Canadá, três países em que essas pesquisas se
processam com mais intensidade.
Ian Stevenson é diretor do Departamento de
Psiquiatria e Neurologia da Escola de Medicina da Universidade de
Virgínia, EUA. Entre os cientistas atuais citados no seu livro podemos
destacar os seguintes: Dr. Karlis Osis, eminente Parapsicólogo
norte-americano; Dr. Robert Laid-law, Psicólogo e Diretor do Hospital
Roosevelt, de New York; Professor C. J. Ducasse, da American Society for
Psychical Research; Professor Gardner Murphy, famoso Psicólogo
norte-americano; Dr. J. G. Pratt, do grupo de parapsicólogos da
Universidade de Duke, EUA; Professor P. Pal, do Itachuna College de
Bengala Ocidental; Professor B. L. Atreya, da Universidade Hindu de
Benares; Dr. Jamuna Prasad, Diretor do Gabinete de Psicologia do
Ministério da Educação da Índia; Dr. William A. Coates, da Universidade
do Ceilão e atualmente na Universidade de Rochester, EUA; Dr. Ananda
Maitreya, da Universidade de Vidalankara, Índia; Dra. Louise Rhine,
esposa e companheira de pesquisas do Dr. Joseph Banks Rhine, Duke
University, EUA.
Mec pertence ao campo de psigama
no quadro de classificação dos fenômenos paranormais. Sua própria
natureza o inclui nesse campo, pois tratando-se de memória não
tem nenhuma forma de manifestação exterior. Não obstante, como todos os
fenômenos parapsicológicos, suas provas são sempre objetivas. Só podemos
saber se estamos diante de Mec ou de uma fabulação inconsciente
pelo confronto das lembranças do paciente com a realidade histórica e
social.
As gravações do inaudível ainda não
tiveram a sua classificação parapsicológica nem receberam a sua sigla.
Mas depois que o Dr. Konstantin Raudive apresentou ao III Congresso
Internacional de Parapsicologia de Puchberg seu relatório sobre 30.000
das 80.000 gravações que havia obtido, fazendo-o na qualidade de
psicólogo e parapsicólogo, o assunto passou ao campo parapsicológico e
está sendo submetido a pesquisas intensivas. Não há mais dúvida quanto à
realidade do fenômeno nem quanto à sua qualificação como paranormal. As
vozes gravadas provêm de entidades espirituais, muitas delas
identificáveis. Foi o que convenceu Raudive. A primeira voz que ouviu,
dirigindo-se a ele e chamando-o pelo nome, foi de Margarete, moça que
fora empregada de sua mãe por muitos anos e havia morrido há pouco
tempo.
Na verdade, a única novidade desse
fenômeno é o fato de se gravarem as vozes em fitas magnéticas de
gravadores comuns. Para os cientistas esse fato é importante: dá-lhes
maior segurança na pesquisa e reveste o seu trabalho de um aspecto novo,
atualizado, segundo os moldes da era tecnológica. Mas para os espíritas
a gravação de vozes tem seus antecedentes nos fenômenos de voz direta
e de escrita direta. Kardec, servindo-se da mediunidade do jovem
Didier, filho do seu editor, obteve vários fenômenos de escrita
direta e até mesmo de impressão tipográfica por esse processo. Essas
experiências foram relatadas na Revista Espírita e hoje podem ser
lidas na nossa língua, pois a coleção da Revista foi traduzida e editada
em São Paulo. Vários cientistas obtiveram resultados semelhantes. São
das mais famosas as experiências do Professor Frederico Zöllner, da
Universidade de Leipzig, na Alemanha. Era Catedrático de Física e suas
pesquisas foram relatadas no livro Física Transcendental. Há uma
edição paulista com o título de Provas Científicas da Sobrevivência,
lançada pela EDICEL.
Os fenômenos de voz direta e de
escrita direta incluem-se na classificação espírita de efeitos
físicos, que corresponde à classificação parapsicológica de
psikapa. Decorrem do princípio de ação da mente sobre a matéria.
E dependem naturalmente da mediunidade, ou seja, das funções psi
de sujeitos paranormais. A fita magnética não exerce nenhuma
influência especial no caso. Sua função é a mesma do papel ou da lousa:
receber passivamente a influência da voz, que nela se grava como a de
qualquer pessoa viva. A aparelhagem técnica moderna substitui o papel e
a lousa. Pode-se alegar que a voz gravada é inaudível. Ninguém a ouve no
momento da gravação. Mas o mesmo se dá com a escrita direta.
Usa-se o papel ou a lousa sem necessidade de lápis ou caneta. Ninguém vê
os elementos invisíveis que vão grafar as palavras. A tinta do lápis ou
da pena só aparece no ato mesmo da escrita. No caso da impressão
tipográfica isso é mais tocante. Ninguém vê os tipos, nem a máquina de
impressão, nem a tinta usada, nem ouve o barulho da máquina, e não
obstante a impressão sai tão perfeita que se pode notar o rebaixo dos
tipos no papel. A mensagem impressa não é um texto formal, mas um
bilhete, um aviso, uma carta. E o fenômeno pode ser repetido à vontade.
Assim, a gravação do inaudível confirma a
tese de que as comunicações espirituais são intrinsecamente de natureza
psíquica. Segundo Kardec elas não dispensam o médium, pois só este pode
fornecer às entidades extracorpóreas os elementos vitais necessários. Os
gravadores registram as vozes inaudíveis quando o pesquisador é médium
ou dispõe de médiuns ao seu serviço. O pesquisador italiano Dr. Giuseppe
Crosa, neuropsiquiatra de Gênova, tem mediunidade e grava músicas e
vozes com facilidade, mesmo quando não está realizando pesquisas. Outros
pesquisadores nada conseguem se não dispuserem de médiuns ao lado. Isso
parece liquidar o sonho das máquinas-mediúnicas, destinadas a
substituir a mediunidade humana. Não há máquina que possa substituir o
homem, porque o destino das máquinas é servir ao homem.
O descobridor do fenômeno de gravação do
inaudível foi o pintor estoniano Friedrich Jürgenson, que durante a
última guerra mundial se refugiara na Suécia. Morando numa casa de campo
em Mölnbo, próximo a Estocolmo, tentava gravar o canto dos pássaros para
fazer a trilha sonora de um filme. Precisamente às 16 horas e 5 minutos
do dia 12 de junho de 1959 (contava então 50 anos de idade) instalou o
seu gravador numa tenda armada no bosque e pôs o microfone para fora. Um
pássaro cantava. Quando parou, Jürgenson quis ouvir a gravação. Estava
perfeita, mas além do canto ouviam-se rumores estranhos de vozes humanas
à distância e acordes musicais. Estava descoberto o novo fenômeno,
embora Jürgenson, a princípio, não compreendesse do que se tratava.
Coube ao Dr. Raudive, alemão que também se
refugiara na Suécia durante a guerra, esclarecer o problema de Jürgenson
e colocar cientificamente a questão no campo da Parapsicologia.
Jürgenson conta em seu livro Sprechfunk Mit Westorbenen, já
editado em português com o título de Telefone para o Além
(Editora Civilização Brasileira) a decepção que sofreu com alguns
cientistas, entre os quais o Professor Olander e elementos da Faculdade
de Parapsicologia da Universidade de Estocolmo. Björkhem, famoso
investigador sueco, professor universitário, foi o único a levar a
questão a sério, mas já no fim da vida, sem tempo nem forças para se
dedicar ao assunto. Jürgenson havia já desistido de contatos com os
cientistas quando de surpresa foi bater-lhe à porta o Professor
Konstantin Raudive, formado em Psicologia e Filosofia pelas
Universidades de Paris, Upsala e Edimburgo. Um homem arejado, de
profundos conhecimentos e com experiência parapsicológica. Foi ele o
novo Zöllner da pesquisa psíquica alemã, que em breve se colocou em
evidência mundial com suas pesquisas metódicas e suas irrefutáveis
gravações do inaudível.
O famoso parapsicólogo alemão Hans Bender,
de Friburgo, interessou-se também pelas gravações do inaudível. O médico
alemão Felix Kersten, que durante a segunda guerra mundial exerceu
grande influência sobre Himmler, também se interessou. O Rev. Leo
Schmidt, da Igreja Católica da Suíça, formado em Ciências pela
Universidade de Friburgo, destacou-se logo como um dos maiores
interessados na pesquisa do fenômeno. O médico Felix Kersten, autor do
livro Conversas com Himmler, comunicou-se com Jürgenson após a
morte, revelando-lhe que morrera de um colapso cardíaco. O Dr. Kjell
Stenson, Chefe da Técnica de Som da Radiodifusão Sueca, interessou-se
pelas experiências e divulgou-as, sustentando sua legitimidade. A
participação dos técnicos de rádio e TV no controle e aprimoramento das
pesquisas tem sido intensa.
As pesquisas de Raudive em Bad Krozingen,
Alemanha Ocidental, atraíram numerosos cientistas internacionais.
Jürgenson, naturalmente entusiasmado com a sua descoberta, insiste em
afirmar que as gravações do inaudível constituem “os primeiros fenômenos
paranormais a serem pesquisados por meios fisiotécnicos na história da
humanidade”. Um perdoável exagero, pois as pesquisas de Crookes, Zöllner,
Richet e outros no passado, e principalmente as pesquisas
parapsicológicas atuais, na América e na Europa, bem como na Rússia, têm
sido feitas com a utilização desses meios, com o emprego de aparelhagens
especialmente construídas. Mas, como acentuamos, os aparelhos, por mais
aprimorados que sejam, nunca dispensaram a presença do médium ou sujeito
paranormal. São apenas instrumentos destinados a dar maior eficiência às
pesquisas e garantir maior exatidão no controle dos resultados.
Maior razão teriam os físicos e biólogos
soviéticos ao reclamar prioridade na obtenção de provas concretas da
existência do espírito, o que evidentemente não fazem. Não por modéstia,
mas porque não podem admitir que as suas provas se refiram ao espírito.
Os dogmas fundamentais do Marxismo, que constituem a interpretação
materialista do Universo – negando estranhamente a própria dialética em
que pretendem firmar-se – excluíram o espírito da realidade cósmica. A
dialética hegeliana estava em pé, encarando o futuro, e o Marxismo a
virou de cabeça para baixo. Duro trabalho vão ter agora os soviéticos
para reerguê-la de novo.
A Física
descobre a fonte do Paranormal
A descoberta progressiva da antimatéria, a
partir dos idos de 1930 – justamente quando nascia a Parapsicologia na
Universidade de Duke – levou os físicos de todo o mundo à descoberta do
espírito. Foi precisamente para aprofundar o conhecimento da antimatéria
que o casal Kirlian conseguiu inventar uma câmara fotográfica de alta
freqüência – ou melhor, que opera sobre um campo imantado de energia de
alta freqüência – para fotografar além da matéria. A câmara kirlian
realizou prodígios. Dotada de aparelhagem ótica, permitiu aos fotógrafos
observarem os aspectos surpreendentes de uma nova realidade. A surpresa
maior foi a descoberta de que as coisas e os seres não possuem apenas a
estrutura material que conhecemos, mas uma estrutura interna e
inteiramente desconhecida, de natureza energética. Essa estrutura não é
opaca e sem luz, como as da matéria, mas transparente e luminosa. A
conclusão preliminar a que chegaram é a de que essa estrutura energética
constitui o fundamento, o molde e a fonte vital dos organismos
materiais.
“Trata-se – explicaram – de um verdadeiro
organismo totalmente unificado, que age como unidade e produz o seu
próprio campo eletromagnético, base dos campos biológicos.” Bastaria
isso para dar-nos a confirmação da intuição genial de Claude Bernard, o
pai da Medicina moderna, quando sustentou a necessidade de um modelo
energético para manter a estrutura orgânica do corpo humano, com a
especificação estrutural das células ante as mutações e renovações
constantes de todo o organismo no decorrer da existência.
Mas o casal Kirlian foi além, ao
verificar, em suas experiências, que o brilho do corpo energético não é
constante nos seres vivos, revelando maior ou menor intensidade, e que
essas variações indicam modificações dos estados interiores dos
seres, sejam eles vegetais, animais ou humanos. Chegaram mesmo a afirmar
que as atividades psíquicas do homem são anotadas no corpo energético em
forma de hieróglifos luminosos e coloridos. “Conseguimos inventar –
dizem os Kirlian – um aparelho que pode grafar esses hieróglifos, mas
precisamos de auxílio para a sua interpretação.” Verificaram ainda que o
estado emocional dos pesquisadores influi no objeto a ser fotografado,
produzindo essas alterações. Essa descoberta, puramente ocasional, abre
uma nova possibilidade no campo da comunicação e confirma os resultados
das pesquisas parapsicológicas no tocante às influências telepáticas
reciprocamente exercidas entre os homens.
Não há mistérios na existência desses
hieróglifos luminosos e coloridos, nem na possibilidade de grafá-los
para interpretações posteriores. Esse processo corresponde de certa
maneira à gravação das ondas eletromagnéticas do cérebro no
eletroencefalograma. Teremos logo mais de construir aparelhos captadores
das ondas luminosas do corpo energético para o estudo das condições de
saúde. Por outro lado, essa bioluminescência não é de natureza elétrica
ou eletromagnética, pertencendo a uma classe de energia ainda
desconhecida. Esta última conclusão lembra a de Vassiliev quando afirmou
que o pensamento é “uma energia física de tipo ainda não conhecido,
produzida pela forma mais evoluída de matéria que constitui o córtex
cerebral”.
O relacionamento dessas descobertas com a
Medicina se acentua quando as experiências soviéticas revelam que as
doenças orgânicas podem ser previstas pelo exame da luminescência do
corpo energético. Investigações com vegetais e animais demonstraram essa
possibilidade. Alterações mórbidas das plantas começam nas modificações
de brilho e coloração de sua estrutura energética, o mesmo se dando no
tocante aos animais. Scheila Ostrander e Lyn Schroeder consideram em seu
livro Psychic Discoveries Behind the Iron Curtin (Descobertas
Psíquicas por trás da Cortina de Ferro, Edição Prentice-Hall, New
York) que as conseqüências dessa descoberta do corpo energético
atingirão quase todas, senão todas as áreas do nosso conhecimento atual.
Podemos avançar um pouco mais, admitindo que se trata de uma verdadeira
revolução copérnica. Essas duas pesquisadoras universitárias
norte-americanas foram à Rússia e entrevistaram os cientistas
soviéticos. As declarações dos cientistas equivalem a revelações
proféticas, lembram as visões bíblicas do mundo espiritual e
particularmente as referências do apóstolo Paulo ao corpo espiritual.
Eufóricos, como que se libertando inesperadamente da asfixia
materialista, os cientistas afirmam que o homem não é apenas uma
máquina orgânica. Os tomés do materialismo científico tocaram as
chagas do Cristo e estão ao mesmo tempo surpresos e deslumbrados.
O pedido de ajuda do casal Kirlian foi
atendido. Biólogos, físicos, biofísicos e bioquímicos soviéticos
reuniram-se em Alma Ata, centro de pesquisas espaciais da URSS, e
realizaram pesquisas intensivas com a câmara kirlian. Em 1968 uma
comissão designada oficialmente para examinar o assunto, composta de
elementos exponenciais das ciências, iniciou trabalhos de investigação
planejada no mesmo local, chegando a conclusões definitivas sobre a
realidade do corpo energético, a que deram o nome de corpo bioplasmático
ou corpo bioplástico. Essa comissão era integrada pelos Profs.
Grischenko, Gibadulin, Vorobev, Inyushin, Shouiski e Fedorova. A câmara
kirlian teve a aprovação oficial da Academia de Ciências e passou a ser
considerada como o mais avançado instrumento de pesquisas científicas da
União Soviética. Mas, ao mesmo tempo, abriu-se uma nova frente de luta
para o materialismo oficial do Estado. Os cientistas soviéticos estão
convocados para a batalha impossível de demonstrar que o corpo
bioplástico não passa de um organismo de plasma biológico, talvez de um
plasma constituído de partículas ainda desconhecidas.
A propósito, os cientistas definiram
inicialmente o corpo bioplástico com as seguintes palavras: “É uma
espécie de constelação do tipo elementar, que se aproxima à natureza do
plasma, constituída de elétrons ionizados e parece que excitados, de
prótons e provavelmente de outras partículas atômicas”. Essa tentativa
de explicação lembra a teoria de Paul Dirac, físico inglês, que em 1932
anunciou a existência de um oceano de elétrons livres que constituiria a
essência da realidade. Tudo o que conhecemos como real, dizia Dirac, não
é mais do que uma película exterior, muito tênue, ocultando-nos o real
verdadeiro. O Professor Sonioyukovitch, da Universidade de Moscou,
propõe a utilização da antimatéria como energia propulsora de naves
espaciais. O elemento propulsor seria a luz ou essa luminescência do
corpo bioplástico revelado pela câmara kirlian. E o Professor Lev Landau,
Prêmio Nobel de Física, também russo, propõe uma nova Física em face da
descoberta da antimatéria. Como se vê, a revolução copérnica da Física
está em marcha e o seu ponto culminante é a descoberta do corpo
bioplástico.
No tocante à Parapsicologia, essa
descoberta vem revelar a fonte dos fenômenos paranormais. O elemento
extrafísico do homem, proposto pelo Professor Rhine, está confirmado
pelos físicos e biólogos soviéticos. Isso é tanto mais impressionante
quanto foram os parapsicólogos russos, tendo à frente Vassiliev, os mais
ardorosos impugnadores da teoria de Rhine. Convém lembrar, a bem da
verdade, que Kardec foi o primeiro a sustentar a existência do corpo
energético, dando-lhe a designação técnica de perispírito. Esse
perispírito ou corpo espiritual do homem também existiria nos objetos e
nos seres vegetais e animais. Kardec afirmou a natureza mista desse
corpo, que seria formado pelo que ele chamou de fluido universal,
uma espécie de plasma cósmico, substância de tudo quanto existe no
Universo, constituído de partículas materiais e não-materiais ou
espirituais. Todos os fenômenos mediúnicos – hoje chamados paranormais –
procederiam desse organismo que, segundo o Espiritismo, liga o espírito
ao corpo.
O avanço da Parapsicologia na descoberta
de novas dimensões da realidade – como acentuamos desde a primeira
edição deste livro – tem sido amparado pelo avanço da Física. Mais uma
vez podemos afirmar que as perspectivas apontadas na segunda parte deste
volume estão se confirmando mais rapidamente do que pensávamos. Já agora
essas perspectivas, criticadas por alguns estudiosos do assunto como
exageros de imaginação, recebem a inesperada sanção dos físicos. Nenhuma
das áreas do conhecimento escapará ao impacto das descobertas
parapsicológicas, como compreenderam Ostrander e Schroeder. Dentro em
pouco veremos o problema do espírito voltar à sua antiga posição: será o
problema central das Ciências. E com isso a unidade do Conhecimento
estará restabelecida em torno do homem. Porque é ele, como Ser, o
problema essencial da Filosofia e como alma o problema central da
Religião. Ser, espírito e alma, o homem assim
encarado, em seus três aspectos, pelas três formas dominadoras do campo
do Conhecimento, será realmente a imagem de Deus na Terra.
Mas como, para ser a imagem digna de Deus,
o homem deve também ser imortal, os cientistas soviéticos resolveram
aplicar a câmara kirlian numa série de pesquisas sobre o fenômeno da
morte. O materialismo estaria salvo se as experiências demonstrassem que
o corpo bioplástico morre com o corpo biológico. Observando os momentos
finais de moribundos e documentando essas observações com fotografias em
seqüência, verificaram que há uma dispersão progressiva de pontos
luminosos, como se o corpo bioplástico se desprendesse do corpo físico
num fluxo crescente de partículas. Isso tanto no homem como no animal. À
proporção em que as partículas se perdem no ar o corpo material perde
toda a luminescência, tornando-se opaco. Só então o corpo do animal e do
homem se cadaverizam. Ao mesmo tempo, detectores de vibrações biológicas
continuam a captar vibrações de campos de força vital à distância do
cadáver.
Esse curioso processo de desprendimento
das partículas bioplásticas coincide perfeitamente com numerosas
observações espíritas, feitas por videntes, junto a leitos mortuários, e
com explicações mediúnicas dadas por entidades espirituais. Léon Denis
explica em seu livro Depois da Morte: “A separação é quase sempre
lenta, o desprendimento da alma se opera gradualmente. Começa algumas
vezes muito tempo antes da morte e se completa com a ruptura dos últimos
laços fluídicos que unem o corpo ao espírito”. Denis foi discípulo e
continuador de Kardec. Em O Livro dos Espíritos Kardec explica:
“A observação prova que no instante da morte o desprendimento do
espírito não se completa subitamente; ele se realiza gradualmente, com
lentidão variável, segundo os indivíduos”. Nas descrições dos videntes é
comum a referência a um desprendimento gradual de elementos do
perispírito (ou corpo bioplástico) que vão se juntando aos poucos a
certa distância do cadáver.
Condicionados pela concepção materialista,
os cientistas soviéticos, ao verificarem esse desprendimento de
partículas, perguntam se não é o corpo bioplástico que também está se
desintegrando. Falta-lhes o conhecimento das pesquisas psíquicas
intensivas sobre o momento do desenlace. Se tivessem esse conhecimento
ficariam assombrados ao ver nas suas experiências a confirmação em
minúcias de observações já feitas há mais de um século. A captação de
campos de força vital à distância do cadáver é suficiente para confirmar
o afastamento do corpo bioplástico, que em geral repousa em fase de
refazimento.
Tudo quanto acabamos de expor justifica a
designação de corpo bioplástico dada pelos físicos soviéticos ao
perispírito. O episódio da morte mostra que a primeira parte da
expressão, o prefixo bio, que quer dizer vida, corresponde
precisamente à função vital desse corpo. O sufixo plasmático, ou
sua simplificação plasma, refere-se à função plasmadora desse
corpo energético. As experiências soviéticas justificaram amplamente
essa parte. Uma delas, relatada no livro das pesquisadoras
norte-americanas, refere-se ao enxerto de um braço embrionário no lugar
destinado à perna de um animal em desenvolvimento. O braço
desenvolveu-se como perna, demonstrando que a influência do campo
organizador (ou plasmador) é capaz de adaptar a estrutura
estranha às exigências do campo. É evidente que a designação de corpo
bioplasmático, geralmente simplificada para corpo bioplástico,
resultou precisamente das séries de experiências realizadas pelos
cientistas para verificar as funções específicas do corpo energético.
Essas funções fundamentais correspondem exatamente às do perispírito na
teoria espírita.
Como se realiza a investigação
experimental em Parapsicologia? E qual o procedimento seguido para o
controle estatístico dos resultados? Essas são duas perguntas que
ocorrem a todo estudante, depois dos primeiros contatos com a nova
disciplina científica. Em linhas gerais, ambas estão respondidas desde
que o estudante tomou conhecimento da realidade paranormal, porque a
Parapsicologia, como todos sabem, é um ramo das Ciências que teve, como
primeira tarefa, provar a existência do seu objeto. Mas as linhas
gerais não satisfazem à curiosidade do estudante, tanto mais quando ele
tem a pretensão de, mais hoje, mais amanhã, dedicar-se à pesquisa,
participar de algumas experiências ou pelo menos poder explicar como
elas se processam.
Antes de tudo e para fazermos justiça ao
grande injustiçado que tem sido Charles Richet, autor do Tratado de
Metapsíquica, Prêmio Nobel de Fisiologia e Medicina em 1913, convém
lembrar que foi precisamente ele, o campeão do método qualitativo nas
experimentações do paranormal, o primeiro a aplicar também o método
quantitativo. Isso ocorreu em 1884. Richet realizou 2.997 experiências
com cartas de baralho, obtendo 789 resultados positivos, quando as
probabilidades eram de 732. A diferença não foi, como se costuma dizer,
significativa. Muitas críticas foram feitas ao seu procedimento. Apesar
disso, Richet fez observações interessantes que são válidas até hoje,
como a referente à existência de uma influência da fadiga na
percepção extra-sensorial.
O trabalho de Richet a respeito foi
publicado na Revista Filosófica (Revue Philosophique),
tomo XVIII, pág. 609, de dezembro de 1884. Intitula-se: “A sugestão
mental e o cálculo de probabilidades”. Curioso notar, de passagem, que a
denominação dada por Richet ao fenômeno reapareceu em nossos dias numa
obra importante do Professor Vassiliev, Catedrático também de Fisiologia
da Universidade de Leningrado, sobre as suas experiências telepáticas.
Depois de Richet coube ao físico inglês Sir Oliver Lodge sugerir um
processo matemático para avaliação dos resultados de experiências
telepáticas, feitas também com cartas de baralho, em 1885.
Mas o cálculo de probabilidades, que é
elemento fundamental do controle estatístico das experiências, está
vinculado historicamente às cartas de baralho e ao jogo de dados.
Galileu Galilei, Pierre Fermat e Blaise Pascal, que criaram essa forma
de cálculo, utilizaram-se dos dados como excelente material para suas
experiências. Assim como no jogo de dados, também no referente ao
baralho, o cálculo de probabilidades serviu para a explicação de muitos
problemas aparentemente ocasionais ou casuais dos resultados das
partidas. E isso de tal maneira que, bem equacionada a situação, um
especialista poderá determinar as razões matemáticas da ruína de um
jogador obstinado. Veja-se, a respeito, as explicações de Émile Borel em
Traité du Calcul des Probabilités et ses Aplications.
Esses antecedentes históricos,
aparentemente sem importância, mostram que o cálculo de probabilidades
estava, por assim dizer, predestinado a servir para a comprovação dos
fenômenos paranormais. Por outro lado explicam a razão da sua utilização
em experiências elaboradas com dados e cartas de baralho. Como sabemos,
Rhine e sua equipe, na Duke University, racionalizaram a
aplicação desses instrumentos através da criação das chamadas cartas
Zener e dos dados especiais para fins experimentais. A propósito, convém
lembrar que Fermat e Pascal consideravam os dados, segundo Borel,
desdeque bem fabricados, como cubos perfeitos, constituídos de
substâncias homogêneas em que os sinais numéricos das faces não
comprometem, por sua leveza, a simetria necessária. Esta observação
responde, com antecedência de três séculos – pois Fermat e Pascal
realizaram seus trabalhos na primeira metade do século dezessete –, a
algumas objeções que ainda hoje se pretendem levantar à aplicação dos
dados. Tanto mais que os dados de Rhine são especialmente preparados
para as experiências.
Outra objeção a que Borel responde com
absoluta segurança é a de que o cálculo de probabilidades é puramente
abstrato e pode provar qualquer coisa que o especialista desejar. Como
adverte Amadou, essa objeção revela apenas que o seu formulador ignora
por completo o que se chama cálculo de probabilidades. Borel
recorre a um exemplo do matemático inglês Lord Keynes para mostrar que o
referido cálculo, como todos os demais, sendo de natureza subjetiva
apresenta resultados objetivos em suas aplicações a casos concretos. Por
outro lado, Keynes demonstra que os erros no cálculo de probabilidades
decorrem da falta de conhecimento exato, pelo calculador, do caso
concreto a que o aplica. E Borel acrescenta que a probabilidade, em
certos casos, pode igualar à unidade, equivalente portanto à certeza.
O valor da probabilidade é relativo à exatidão dos dados postos em
equação.
Por isso mesmo as cartas de baralho
aplicadas às experiências de Parapsicologia, como vimos nos casos de
Zener e de Soal (cartas de cinco figuras geométricas e de cinco figuras
de animais, respectivamente) reduzem ao mínimo os números a serem
apreciados e estabelecem com absoluta segurança e clareza a
probabilidade de acerto por acaso. E por isso também os dados de Rhine,
especialmente fabricados para a experimentação científica, lançados por
meio mecânico e tendo os resultados de cada jogo registrados
fotograficamente, excluem as dificuldades habituais do cálculo,
dando-lhe a segurança requerida para a exata verificação dos resultados
da experiência. Aliás, como observam Rhine, Soal, Carington e Amadou, o
controle estatístico demonstra unicamente que os fenômenos estudados não
podem ser atribuídos ao acaso. O problema da natureza dos fenômenos, de
suas causas reais, depende do processo científico de exclusão de
hipóteses.
Esclarecidos estes aspectos fundamentais
da investigação experimental em Parapsicologia, podemos passar ao exame
de alguns casos concretos. Comecemos pelo mais discutido dos fenômenos:
o de psicocinesia. O próprio Rhine nos ofereceu em O Alcance da Mente
vários exemplos de experiências com dados, realizadas a partir de 1934.
A escolha dos dados não foi preconcebida. Ocorreu por acaso. Um jovem
jogador de dados chamou a atenção de Rhine, no próprio laboratório, para
a crença de muitas pessoas de que podem agir mentalmente sobre os
resultados. “Vimos – escreveu Rhine – que o lançamento de dados era o
procedimento ideal indicado para os ensaios de laboratório sobre a
hipótese da psicocinesia”. Uma das razões principais era o interesse dos
sujets, já naturalmente assegurado. A outra era a aplicabilidade
das diversas formas de controle experimental.
Rhine ofereceu-nos o seguinte exemplo de
uma série típica de experiência com dados. Explicava-se ao sujet
o objetivo da experiência. Dava-se-lhe um copo e um par de dados.
Escolhia-se, por exemplo, um resultado a ser alcançado: o número 7.
Pedia-se ao sujet que sacudisse o copo e lançasse os dados sobre
uma mesa com toalha. Os resultados eram proclamados em voz alta, depois
de atentamente verificados por duas ou mais pessoas previamente
escaladas, e o controlador, que podia ser o próprio experimentador, os
registrava. Todos os acertos eram assinalados por um círculo em redor.
As combinações 6 mais 1, 5 mais 2, 4 mais 3, eram as únicas possíveis,
como se sabe. Isso facilitava a verificação dos resultados. Cada série
se constituía de 12 lançamentos dos dados. Depois de cada série, os
acertos eram computados e fazia-se o cálculo de probabilidades.
Este é apenas um exemplo de experiência
rudimentar. Posteriormente os lançamentos foram se complicando.
Fizeram-se experiências planejadas com minúcias, aplicando-se maior
número de dados. Mais tarde, como sabemos, foram feitos dados especiais
com materiais diversos, como madeira, chumbo, aço, materiais plásticos,
etc., e inventados aparelhos especiais para o lançamento. Por fim
aplicou-se a máquina elétrica, dotada de controle fotográfico dos
resultados, jogando-se com grande número de dados. Fazem-se experiências
com sessenta e mais dados, objetivando-se os mais variados resultados.
Há também as experiências de localização, determinando-se mentalmente
que os dados sejam lançados de um lado ou de outro da mesa, quando a
máquina só poderia lançá-los na parte central.
Dado este exemplo simples, que pela sua
própria simplicidade revela o mecanismo da experiência de psicocinesia
com dados, passemos a um caso concreto de percepção extra-sensorial.
Tomamos um caso de investigação com as cartas Zener realizado por Naum
Kreiman e Dora Ivnisk, relatado por ambos no n° 3, fevereiro e março de
1964, volume primeiro dos “Cuadernos de Parapsicologia”, de Buenos
Aires. Foram realizadas duas experiências: uma de 50 jogos, em sete
sessões, com 6 e 8 jogos por sessão; e outra de 40 jogos, em cinco
sessões, com 8 jogos por sessão. Cada jogo consta das retiradas de
cartas de um maço de 25. Assim, uma sessão com 8 jogos é aquela em que
se utiliza oito vezes o maço.
Em setembro de 1963 os experimentadores
conheceram a Srta. I. F., que lhes contou haver acertado numerosas vezes
em números de rifa e que geralmente predizia a data de recepção de
correspondência de seus amigos e parentes. Convidada a realizar
experiências com as cartas Zener, aceitou. Os experimentadores tiveram o
cuidado de não utilizá-la apenas como sujeito, para não coagi-la,
submetendo-a a uma situação de cobaia. Dessa maneira a Srta. I. F. agiu
também como experimentadora. Essa precaução é de grande valor nas
experiências e concorda com as observações de Soal quanto à necessidade
de não exercer nenhuma forma de constrangimento sobre o sujeito.
Nas duas experiências foi empregado o
sistema do maço cerrado, embaralhado ao acaso e cortado sem que o
sujeito o veja. O maço cerrado é um maço compacto de 25 cartas
Zener colocado de face voltada para baixo sobre a mesa e tendo o dorso
coberto por cartão ou papel branco. O sujeito deve adivinhar as cartas
em sua ordem no maço, começando pela de cima ou pela de baixo. Nos
primeiros jogos, os resultados favoreciam a posição + 1, ou seja, o
sujeito percebia a carta seguinte, e não a que devia perceber. Por sinal
que esses resultados estavam de acordo com a sua informação de que
acertava em números de rifa e previa a chegada de correspondência. A
própria Srta. I. F. declarou: “O passado não me interessa, só me
interessa o futuro.” Mas, na quarta sessão, comentando os resultados
referentes à carta 0, que é a carta a ser adivinhada, disse: “No começo
não acerto muito, preciso esquentar, porque os meus maiores
acertos se verificam nos últimos jogos de cada sessão.” Na sexta sessão,
declarou que os seus maiores acertos se davam através de respostas
espontâneas. Em todas as sessões houve o cuidado de evitar o cansaço do
sujeito.
Vejamos o resultado da quarta sessão,
realizada a 26 de novembro de 63: a Srta. I. F. acertou 37 vezes na
carta 1. Isso, em oito jogos. Resultado demasiado variável, mas
significativo quanto à possibilidade de acertos. Os resultados totais da
experiência foram os seguintes: carta 0, obtidos 257 acertos, com apenas
7 além dos previstos como prováveis por acaso; carta + 1, 234 acertos,
com menos 6 do que os previstos e portanto aquém dos prováveis acasos;
carta – 1, 209 acertos, com menos 31 do que os previstos por acaso.
A avaliação matemática destes resultados
escapa à compreensão dos leigos no assunto, pois exige a aplicação da
chamada hipótese binômia, para cálculo dos desvios de percepção.
Nos resultados acima, o chamado desvio standard, designado pelas
iniciais DS, acusou 14,14 para as cartas 0; 13,85 para as cartas + 1; e
13,85 para as cartas – 1. A hipótese binômia (tendo por base a
fórmula de Bernoulli) acusa a razão crítica, designada pelas
iniciais RC, de 2,23. Este resultado acusa um desvio negativo,
para carta – 1, que, segundo os experimentadores “coincide de certa
maneira como as referências do sujeito sobre o passado e o futuro.”
Convém esclarecer que o desvio negativo
é o desvio inferior aos resultados prováveis por acaso. É por isso que
esse desvio concordava com a declaração da Srta. I. F. de que o passado
não lhe interessava, mas somente o futuro. O segundo experimento, de 40
jogos, realizado de acordo com as regras do anterior, não deu melhores
resultados. A Srta. I. F. teve a oportunidade de dar, ao lado das
respostas espontâneas em voz alta e anotadas pelo experimentador,
respostas não-espontâneas que ela mesma registrava numa folha de papel
aparte, sem a intenção de coincidir com a carta objetivo. Todos
os resultados desse experimento não excederam as probabilidades do
acaso, de maneira que não houve maior interesse.
Como se vê, a técnica das experiências é
relativamente fácil e pode variar de acordo com as circunstâncias e os
objetivos a atingir. É necessário, porém, que cada experiência seja bem
planejada, em seus mínimos detalhes. No caso que examinamos o sujet
foi colocado numa ponta da mesa e o operador na outra ponta. Entre os
dois havia uma divisão de madeira, que não permitia ao sujet ver
o operador. Além disso, o maço de cartas estava cerrado, ou seja,
empilhado, de maneira que ninguém conhecia a ordem das cartas. Não era
uma experiência de telepatia, mas de clarividência. O operador indicava
por onde a percipiente devia começar, se pela carta de baixo ou de cima,
e esta começava a responder. O operador anotava as respostas. Os
resultados eram conhecidos depois de cada jogo.
Devemos deixar bem clara a estrutura da
experiência, que pode ser dada nos seguintes termos: cada experiência
constitui-se de jogos, sendo para cada jogo o uso total de 25 cartas;
cada jogo, por sua vez, constitui-se de cinco ensaios, que são as cinco
cartas tiradas sucessivamente, ou apenas percebidas no maço cerrado.
O número de jogos depende do plano elaborado pelo experimentador. Como
as figuras do baralho Zener ou do baralho Soal são apenas cinco, a
probabilidade de acertar, em cada ensaio, por acaso, é apenas uma. O
desvio é a quantidade de acertos a mais ou a menos que a probabilidade
de acasos. Assim, quando um percipiente acerta num jogo 20 vezes, o que
já aconteceu em diversas ocasiões, o desvio positivo é 15, pois
dos vinte acertos devemos eliminar os cinco do acaso provável. Quando,
em vez de acertar tanto, o percipiente acerta apenas 4 vezes, há um
desvio negativo de 1.
O desvio standard é uma forma
matemática de desvio que ocorre de maneira progressiva. Num jogo de
cinco ensaios, com 15 acertos pelo percipiente, temos o desvio
positivo de 10 e o desvio standard de 2. Dividindo o primeiro
pelo segundo, temos a razão crítica de 5. A fórmula matemática do
desvio standard indica que esse desvio aumenta na proporção da
raiz-quadrada do número de ensaios. A probabilidade da ocorrência de
acertos por acaso em grandes experiências implica o aparecimento da
razão crítica por acaso. Existe uma tabela especial com os valores
dessa razão que permite encontrar prontamente a probabilidade de acaso
sem necessidade de grandes cálculos.
A razão crítica, estatisticamente
chamada valor t, é a diferença entre o desvio verificado, ou
seja, entre o número de acertos e o desvio standard, ou seja, os
resultados previstos, que em português podemos chamar desvio tipo.
Na tábua ou tabela da razão crítica o valor 5, que consideramos acima
num jogo de cinco ensaios, indica uma probabilidade por acaso de apenas
1 em 3 milhões.
Como se vê, o controle estatístico da
investigação experimental em Parapsicologia requer conhecimentos
especializados. O método está hoje completamente desenvolvido e a sua
aplicação aos resultados das experiências assegurou a plena validade das
mesmas do ponto de vista das exigências científicas. Desde que as
experiências sejam planejadas e executadas com o necessário rigor e o
tratamento estatístico procedido por especialistas, como ocorre em todos
os grandes centros de pesquisa, os resultados obtidos não podem
deixar a menor dúvida. Essa a razão porque a Parapsicologia é hoje
uma disciplina científica positiva, admitida e exercida em todos os
grandes centros universitários.
O Professor José Fernandes, Catedrático
jubilado de Física das Universidades de Buenos Aires e La Plata,
parapsicólogo de renome mundial, informa em seu livro Parapsicologia
Experimental que nas experiências com o sensitivo Ronald W. na
Sociedade Argentina de Parapsicologia, verificou-se por várias vezes o
resultado de 100%, ou seja, 25 acertos em cada jogo de 25 cartas. Casos
como esses, também verificados na Europa e nos EUA, dão a esperança de
grande certeza em experiências bem realizadas, em condições adequadas.
Com isso, temos também a possibilidade de controle das funções psi.
No tocante a esse controle é, porém,
conveniente não alimentarmos ilusões. As funções psi decorrem de
processos bastante sutis de percepção cortical em condições
psicofisiológicas apropriadas. Essas condições não correspondem às
situações habituais dos sujets na vida cotidiana. É necessário
desenvolver nestes o processo de adaptação a essas condições, para que
as funções psi sejam exercidas com segurança. Acreditamos que as
possibilidades de generalização do uso das funções psi dependam
das condições gerais de vida e cultura numa civilização menos conflitiva
e agressiva do que a nossa. Em suma: trata-se de possibilidade para o
futuro.
Há pessoas que se perdem facilmente no
caminho por falta de senso de orientação. Assim, há estudiosos,
pesquisadores e expositores de Parapsicologia que facilmente se perdem
nos seus trabalhos por falta do mesmo senso. Mas há também os que se
fazem de perdidos por mera conveniência. É o caso dos sacerdotes
hipnotizadores e malabaristas que tudo fazem para confundir os leigos e
aturdir o povo, com o objetivo único de defender as suas posições
religiosas, ameaçadas pela evolução das Ciências psicológicas. O outro
caso, o das pessoas que de boa-fé se extraviam no caminho, pode ser
explicado por uma imagem de Rhine: são exploradores que se esquecem do
largo mar, entretidos com os seixos da praia.
Os fenômenos de hiperestesia e de
hipermnesia têm servido para muitas confusões teóricas em
Parapsicologia. O Padre Oscar Gonzalez Quevedo S. J., em seu livro A
Face Oculta da Mente, deu grande ênfase aos casos de hiperestesia
para acentuar que os fenômenos de percepção extra-sensorial podem
ser puramente fisiológicos, e portanto sensoriais. Antes dele, centenas
de pesquisadores e estudiosos do passado, particularmente na fase
metapsíquica, firmaram os pés nesse mesmo terreno e no da hipermnesia,
com o mesmo fim, mas com a diferença de serem mais coerentes, pois eram
materialistas. Todo o esforço do P. Quevedo se concentra na tentativa de
explicação fisiológica dos fenômenos paranormais. Isso o coloca ao lado
das correntes materialistas da Parapsicologia e em especial da corrente
soviética. O simples título de seu último livro, As Forças Físicas da
Mente, no momento em que Rhine demonstra que a mente não é física,
prova que esse padre é mais materialista do que Marx e Buchner.
A hiperestesia constituiu uma hipótese
importante no início do movimento metapsíquico, pois parecia capaz de
explicar de maneira natural ocorrências paranormais que eram
interpretadas como sobrenaturais. Hoje, nesse sentido, não passa de uma
hipótese superada. Sabemos que a hiperestesia é uma condição fisiológica
de psi. E que essa condição pode existir em tal intensidade que
antecipe com percepções hiperestésicas as manifestações
extra-sensoriais. Aumentada a capacidade estésica dos nossos sentidos,
por influência de fatores diversos, temos a nossa percepção aumentada.
Compreende-se que esse fenômeno deva corresponder a uma preparação
fisiológica maior ou menor, perceptível ou não, do estado de transe,
considerado, como sustenta Amadou, “o estado psicofisiológico necessário
para o exercício da função psi”.
Podemos colocar a hiperestesia como a
primeira fase de um processo de dissociação psíquica que nos leva do
simples abrandamento da tensão, de que falava Janet, até ao êxtase.
Temos assim uma seqüência gradual bem definida: hiperestesia –
hipermnesia – transe – êxtase, verificando-se em cada um destes
graus do estado paranormal uma seqüência também de graus de intensidade.
O êxtase é, dentro desse esquema, o extremo oposto da simples distração.
Bozzano demonstrou a possibilidade de transmitirmos mensagens
telepáticas e psicográficas inconscientemente – e até mesmo de
projetarmos o nosso eu à distância – durante simples instantes de
distração, de sonolência ou alheamento. (Veja-se Da
Mente à Mente, Ernesto Bozzano, Ed. Europa, Verona, 1946).
Amadou acrescenta ao que acima citamos que
o transe é necessário, mas não suficiente para o exercício da função
psi. O mesmo acontece com o estado hiperestésico. O indivíduo pode
estar distraído ou sonolento sem ter a sua percepção aumentada. Isso nos
mostra que a relação de continente e conteúdo é a mesma, tanto no plano
físico quanto no psíquico. E isto insere, ao mesmo tempo, a simples
distração no contexto dos estados paranormais. Ela é, embora fugaz,
um instante de situação intermediária, de terra-de-ninguém entre o
estado de vigília e o sono, entre a fase normal de integração psíquica e
a anormal de desintegração. Do que se deduz facilmente que o aumento de
nossas percepções normais, o estado hiperestésico, é o primeiro passo no
campo da percepção extra-sensorial. Em hipnologia considera-se a
distração como um momento do estado hipnótico natural.
Querer reduzir fenômenos típicos de ESP
a simples casos de hiperestesia, a esta altura do desenvolvimento das
pesquisas parapsicológicas, é um pouco mais do que simples temeridade.
Mas esta redução arbitrária interessa particularmente aos que desejam
negar qualquer possibilidade de fenômenos extrafísicos, única forma
possível de transformar a Parapsicologia em nova arma do materialismo ou
do teologismo contra os movimentos espiritualistas livres, como o
Espiritismo e a Teosofia. A hiperestesia, fase larval do transe,
é utilizada como possível explicação nova – apesar de centenária – dos
fenômenos mediúnicos. Basta isso para compreendermos o retrocesso a que
o afã hiperestésico do P. Quevedo pretende levar a Parapsicologia, com
ares de inovação científica, devolvendo-a do limiar da prova da
sobrevivência, em que já se encontra, ao rés do chão do intermúndio
psicofisiológico.
Daí também a sua insistência na velha e
superada tese, aliás psicológica – e da mais simplória escola de
psicologia de todos os tempos, que é o condutismo norte-americano,
derivado do reflexionismo russo – de que a linguagem do
corpo, que é a mímica inconsciente, pode explicar os casos de telepatia.
Watson, pai do condutismo, também chamado psicologia sem alma,
sustentava a inexistência do pensamento. O que há é apenas reflexo,
segundo a sua teoria do arco-reflexo, pela qual o organismo
excitado pelo meio físico deflagra a sensação em arco que vai ao
centro nervoso e volta à expressão mímica em forma de resposta. O P.
Quevedo cria então a sua teoria reflexionista a que chama, ingênua ou
ironicamente, de hiperestesia direta do pensamento. Nada mais
nada menos que a velha teoria de Chevreul, endossada no Brasil pelo
ateísmo e o materialismo irredutíveis do Professor Silva Mello, de que o
pensamento é captado por videntes charlatães na mímica inconsciente dos
seus próprios fregueses (Veja-se Mistérios e Realidades deste e do
Outro Mundo e Religião: Prós e Contras, A. da Silva Mello,
Editora Civilização Brasileira, Rio, 1960 e 1963, respectivamente) .
Essas teorias, que se referem apenas aos
reflexos do pensamento no processo fisiológico, serviram para a
construção de hipóteses e teorias mirabolantes que reduziriam todo o
psiquismo a um novo tipo de mecanicismo materialista. Com elas estamos
mais próximos da Cibernética do que da Parapsicologia, mais integrados
na concepção do homem robô do que na do homem espírito.
Mas o P. Quevedo não se contenta com esse retrocesso histórico e
espiritual e insiste em afundar um pouco mais: vai ao cumberlandismo,
com o qual explica, ao mesmo tempo, o mistério dos cavalos de Elberfeld
e as comunicações mediúnicas. A teoria provém do nome do prestidigitador
inglês Cumberland, pai da telepatia de teatro ou falsa telepatia. E tudo
isso depois que as pesquisas parapsicológicas já demonstraram a absoluta
independência do processo telepático no tocante às relações pessoais, a
sua efetivação a grandes distâncias através de estepes e oceanos.
Graças a esses malabarismos o P. Quevedo
consegue chegar a esta definição de Parapsicologia: “... é a ciência
que tem por objeto a constatação e análise dos fenômenos à primeira
vista inexplicáveis, mas possivelmente resultado de faculdades humanas”.
Como se vê, definição indefinida, que bem revela a sua posição
pseudocientífica. Quais os fenômenos inexplicáveis em causa? E
como fazer-se essa antecipação dos resultados da análise, em termos de
possibilidade? Nem científica, nem filosófica e nem mesmo teologicamente
essa definição pode ser aceita. É um simples palpite, uma opinião comum.
Não foi à toa que Pitágoras afirmou ser a Terra a morada da opinião
(Veja-se A Face Oculta da Mente, do referido autor, com todas as
autorizações eclesiásticas, Edições Loyola, São Paulo, 1964).
A hiperestesia leva à hipermnesia, ou
seja, ao aumento do poder mnemônico, ao aumento da memória, como já
vimos no esquema do processo paranormal. O P. Quevedo, nesse mesmo
livro, cujo título pode ser mais bem compreendido como A Face Oculta
do Padre, descamba para a Pantomnesia, que seria mais bem
expressa pelo termo Pantomímica, segundo o equivalente teológico
da modesta teoria científica da hipermnesia. Não é fácil admitirmos o
que o padre afirma no subtítulo do cap. 9.° do seu livro: Você pode
se lembrar de tudo. Mas o aumento do poder mnemônico, em
determinadas pessoas e em circunstâncias especiais, é fato comprovado. E
dele se serve o padre, dando-lhe a amplitude universal da Pantomímica
para explicar o que a hiperestesia não conseguiu esclarecer e
particularmente tentar explicar a xenoglossia, ou faculdade de
falar línguas estranhas sem conhecê-las. Essa faculdade admirável, bem
como a psicografia literária – ainda longe de serem estudadas e
investigadas pela Parapsicologia – são parapsicologicamente
explicadas pelo padre como simples questões de memória-inconsciente.
Mas como o inconsciente, nesse caso, deve ser também onisciente, o autor
chega a esta conclusão pseudocientífica, sacada sem a menor contemplação
para com os critérios da pesquisa científica: “O inconsciente é mais
inteligente que o consciente”.
Nenhuma atenção para o problema das
relações dinâmicas do consciente com a inconsciente. Nada sobre a
natureza específica de um e outro ou da natureza una de ambos. Nada
sobre o que se entende por inteligência, problema sério em Psicologia e
que parece não existir para o padre. O que interessa é a conclusão
apressada, mecanicista e portanto simplória, não para a finalidade
científica do conhecer, mas para a finalidade sectária do
dogmatizar. A hiperestesia passa rapidamente à categoria universal
de uma Pantomímica e o inconsciente é arvorado, segundo as
expressões textuais do autor, em gênio desconhecido. E apesar de
todas essas incoerências, dessa ingênua charlatanice, desse malabarismo
simplório, o livro e os cursos do autor se propagaram entre nós e
encontraram acolhida num grande jornal diário e em algumas universidades
e escolas superiores.
Diante disso, é claro que não podíamos
subtrair-nos ao dever de enfrentar, num livro de esclarecimento e
orientação da matéria, o rápido exame que acabamos de fazer das
estranhas e absurdas teorias do P. Quevedo, lançadas como semeadura de
joio nos trigais incipientes de nossa formação parapsicológica. Exame,
aliás, de apenas alguns tópicos do calhamaço com que ele desacatou os
nossos foros de cultura, não obstante tenha recebido a resposta sensata
de um curso organizado pelo Instituto Paulista de Parapsicologia, dado
por seis professores universitários no grande auditório da Associação
Paulista de Medicina.
Ao lado das teorias citadas devemos ainda
referir a do Professor Cesário Morey Hossri, da Faculdade de Filosofia
de Santos, divulgada em seus cursos naquele estabelecimento de ensino
superior da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo e através de
dois grandes jornais diários de São Paulo. Trata-se de uma teoria não
menos estranha: a do canhoto corrigido ou do ambidestrismo.
Podemos resumi-la nestas explicações textuais do autor: “Aproximadamente
10% dos indivíduos nascem canhotos e, devido à aversão do meio social ao
canhotismo, cerca de 90% são corrigidos; supomos que esta agressão à
personalidade ocasiona uma defasagem nas conexões nervosas dos
hemisférios cerebrais direito e esquerdo, vindo isto a provocar,
posteriormente, o aparecimento do fenômeno alucinatório de ‘ver’ e
‘ouvir’ fantasmas (alucinações visuais ou auditivas, ou ambas ao mesmo
tempo)”.
O Professor Hossri formula ainda uma
teoria da personalidade paranormal, na qual inclui o
ambidestrismo como uma das características dessa personalidade. Em
primeiro lugar parece-nos prematura essa tentativa de caracterização.
Existiria uma personalidade paranormal? A própria expressão
paranormal, como se sabe, foi elaborada para suprir uma deficiência
do nosso conhecimento no campo do psiquismo. O paranormal é
apenas o normal não conhecido, ou não-habitual, o inabitual
de Richet que substitui as antigas expressões de supranormal ou
sobrenatural. Por outro lado, os fenômenos paranormais não
exigem nenhum tipo especial de personalidade para se produzirem. Os
tipos mais diversos, às vezes aparentemente inadequados (por exemplo:
indivíduos de aspecto grosseiro, abrutalhado, demasiado apegado às
coisas materiais) são sujeitos iguais ou melhores que outros mais
delicados e sensíveis, e portanto aparentemente mais adequados. As
pesquisas realizadas a respeito, nos Estados Unidos e na Inglaterra, não
deram até agora nenhum resultado aceitável.
Rhine trata do assunto em The New World
of the Mind referindo-se às experiências de Stuart, no Laboratório
de Parapsicologia da Universidade de Duke, e às de Humphrey e da Dra.
Schmeidler. Todas essas tentativas encontraram dificuldades insuperáveis
para uma classificação. E isso por uma razão fundamental: psi
parece igualmente distribuída, como o bom-senso no Discurso do
Método, de Descartes. Todos a possuem, embora das mais diversas
maneiras. Por exemplo, nas experiências de Humphrey os sujeitos foram
divididos em dois grupos: introvertidos e extrovertidos, segundo os
testes de desenhos a que eram submetidos. Houve diferenças sensíveis
entre os grupos: nas experiências de clarividência, os extrovertidos
obtiveram resultados positivos e os introvertidos resultados negativos.
Mas isso apenas demonstrou uma diferença
de sentido no desvio da percepção e não a falta de percepção em qualquer
dos grupos. O indivíduo negativo oferece desvios negativos, sem
deixar de ser dotado de psi. Rhine chega à conclusão de que as
funções psi, sendo de natureza fundamental e portanto anterior aos
progressos do desenvolvimento da razão e da civilização, constituiriam
uma espécie de substrato comum da humanidade, não susceptível de
avaliação no contexto da personalidade. Assim, a colocação do problema
em termos de personalidade parece-nos insustentável, pelo menos até
agora.
Em segundo lugar devemos considerar a
falta absoluta de dados que nos demonstrem, de maneira convincente, a
existência de qualquer relação entre os problemas de canhotismo e o
exercício das funções psi. E porque essa relação, ao invés de
outras como, por exemplo, as de natureza sexual, muito mais chocantes
para todos os indivíduos? Qual o motivo por que a simples correção do
canhotismo produziria essa defasagem dos hemisférios cerebrais, e
o atrofiamento das pernas, o nariz de papagaio, a boca torta não fazem o
mesmo? O fato de o hemisfério direito dirigir a motilidade esquerda e
vice-versa não explica essa suposta defasagem. E como explicar-se
que a possível defasagem dos hemisférios produziria os fenômenos
de vidência e audiência? Mas o autor vai muito mais longe, chegando
mesmo a afirmar que essa defasagem produz os fenômenos de
psikapa. O problema se complica e nenhuma explicação é dada. O que
Hossri nos oferece é simplesmente a afirmação gratuita de um fato em que
as únicas conexões possíveis são mesmo as dos hemisférios, que a sua
teoria, por sinal, torna avariadas.
Uma das mais famosas e discutidas médiuns
do mundo, Eusápia Paladino, que converteu Cesare Lombroso de feroz
adversário dos fenômenos mediúnicos em seu admirador, defensor e
pesquisador, não era canhota. Nunca se corrigira. E ficava canhota em
transe. Como se teria produzido a desconexão dos seus hemisférios?
Aliás, Lombroso nos conta, a seu respeito, o seguinte:
“A Condessa de A. (em Veneza, segundo o
Professor Faihofer) costurou uma bolsa com uma moeda por baixo das
roupas e foi à sessão com a idéia de que a bolsa seria descosturada e
transportada, o que realmente aconteceu. Outra vez compareceu com uma
jóia oculta na cabeleira esperando que fosse transportada para a cabeça
de Eusápia, a quem desejava dá-la, e logo que assim pensou, o transporte
realizou-se. Como veremos, os médiuns em transe possuem forças
musculares e intelectuais de que não dispõem no seu estado normal, que
só podemos explicar, às vezes, pela transmissão de pensamento dos
presentes, e em geral exigem uma explicação especial, como o auxílio dos
defuntos. Estes transmitem, durante o transe, algumas de suas mais
singulares faculdades aos médiuns, como o canhotismo a Eusápia, a
levitação e a incombustibilidade a Home, que podia pegar uma brasa sem
se queimar e transmitir essa insensibilidade a outras pessoas”.
(Veja-se Fenomeni Ipnotici e Spiritici, de Lombroso, tradução
brasileira de Carlos Imbassahy, Editora Lake, São Paulo, 1960.)
Temos aí o testemunho de um sábio: Eusápia
virava canhota algumas vezes, quando a entidade comunicante havia sido
canhota em vida. E nas sessões realizadas com ela verificaram-se, como
vemos na descrição de Lombroso, fenômenos subjetivos e objetivos
perfeitamente conjugados. Bastava a Condessa de A. pensar e o transporte
dos objetos se verificava. Como tanto se caluniou esta extraordinária
sensitiva (pequena mulher analfabeta e rude, acusada das fraudes mais
sutis) é bom lembrarmos que Lombroso só aceitou a realidade dos
fenômenos quando Eusápia lhe deu a materialização de sua própria mãe,
como ele mesmo nos conta no livro acima citado: “Eu pensei fortemente
em rever minha mãe; a mesa logo assentiu ao meu desejo não expresso e
logo apareceu a imagem de minha mãe”. E noutro trecho, capítulo
oitavo da segunda parte do livro: “Pude verificar uma vez a aparição
completa de minha mãe”. Tudo isso sem canhotismo corrigido e sem
qualquer defasagem dos hemisférios cerebrais.
As relações psicofisiológicas são
evidentes em todos os processos de produção fenomênica, tanto subjetiva
quanto objetiva, mas sempre mais acentuadas no campo de psikapa.
Rhine estuda essas relações em seus livros já citados. Muito antes dele,
os metapsiquistas empenharam-se nesse estudo realizando importantes
pesquisas a respeito. Schrenck-Notzing, à maneira de Geley e Osty,
interessou-se pelas relações de conjunto entre o médium e os
assistentes, em referência aos fenômenos. Tratando, por exemplo, da
exteriorização de forças biopsíquicas e do aparecimento de formações
ectoplásmicas, lembra o famoso pesquisador alemão:
“Morselli, Ochorowicz e Crawford supõem
que o médium, em contato físico com os assistentes (formação de
correntes) possui a faculdade de emprestar dos mesmos certas quantidades
de energia, que reline às suas próprias, de maneira que podemos f alar
de criações psicofísicas coletivas”. (Veja-se Les
Phénomènes Physiques de la Mediunité, de Albert Von
Schrenck-Notzing, Payot, Paris, 1925.)
Enrico Morselli realizou tentativas de
controle com dinamômetros da perda de forças dos assistentes e também do
aumento de forças dos mesmos, durante os trabalhos. Essas relações
existem, como hoje novamente se constatam nas experiências
parapsicológicas. Mas não podem ser utilizadas para a formação de
teorias gratuitas, sem as pesquisas minuciosas que esse tipo de teoria
do Professor Hossri exige particularmente, e sem que tenham, portanto,
um precedente de hipóteses com exame e prova. Por outro lado é
necessário que um problema dessa natureza seja submetido previamente a
especialistas em fisiologia cerebral. Malabarismos como os do P.
Quevedo, levados afoitamente a sério nos nossos próprios meios
universitários, ou precipitações como a do Professor Hossri (com forte
conteúdo susceptível de ridículo) comprometem o desenvolvimento da
Parapsicologia no Brasil.
Os exageros no tocante à hiperestesia e à
hipermnesia agradam especialmente àqueles que pretendem reduzir toda a
fenomenologia paranormal ao plano fisiológico. Mas a teoria do
ambidestrismo nem chega a produzir esse efeito de proselitismo.
Dificilmente um estudioso sério de problemas psicológicos pode admitir
que fenômenos paranormais sejam reduzidos a uma questão de manuseio. Mas
no plano da divulgação pura e simples ou da iniciação aos conhecimentos
parapsicológicos, e particularmente no plano do ensino universitário, em
que essas hipóteses foram amplamente semeadas, os seus efeitos são
desastrosos. Encerrando aqui esta primeira parte do nosso livro,
esperamos haver contribuído para que o problema parapsicológico seja
colocado, entre nós, de maneira mais objetiva e mais livre, sem as
implicações deformantes a que acima nos referimos.
Agora que as nossas editoras se empenham
na tradução das obras fundamentais de Rhine e das obras informativas de
Amadou e outros, é possível que o ambiente se modifique mais
rapidamente. De qualquer maneira, temos de advertir quanto às próprias
traduções. O aparecimento do primeiro livro de Rhine em português foi
decepcionante. O título original de The Reach of the Mind,
corretamente traduzido em espanhol para El Alcance de la Mente,
aparece em nossa língua desta maneira ambígua: O Alcance do Espírito.
E o pior é que em todo o texto a palavra inglesa mind conserva a
tradução errada de espírito.
Rhine não trata do espírito no sentido
metafísico que damos à palavra, mas da mente no sentido psicológico de
conjunto das funções cerebrais. Ele chega mesmo a declarar que, embora
admitindo a natureza extrafísica da mente – por força dos resultados das
numerosas experiências realizadas – não é espírita nem espiritualista. É
apenas um cientista que admite, à maneira de Einstein, Compton,
Eddington e outros, a necessidade de rompermos a concepção
organocêntrica do homem, como já rompemos a geocêntrica do Universo.
Felizmente o segundo livro de Rhine em
português traz o título certo: Novas Fronteiras da Mente (New
Frontiers of the Mind). Justifica-se o caso da tradução francesa por
falta da palavra mente nessa língua. Mas no italiano, em que também se
fez a confusão, como no português, ela é injustificável, a menos que as
traduções tenham sido feitas do francês e não dos originais ingleses.
Psicologicamente a palavra mente tem hoje o sentido específico a
que atrás nos referimos.
Enganam-se os que pensam que nos dedicamos
à Parapsicologia para defender nossos princípios, nossa posição
filosófica. Consideramos essa atitude como desonesta. Nossa posição
filosófica é suficientemente sólida para sustentar-se por si mesma.
A Parapsicologia invadiu a nossa área e tivemos de examinar os seus
propósitos. Felizmente eram honestos e pudemos estabelecer uma
convivência harmoniosa.
No campo da Parapsicologia estamos em
nosso próprio elemento. Os outros é que chegaram depois, e muitos como
arrivistas mal intencionados. Podemos dizer sem receio que o terreno é
nosso, de direito e de fato. Como Tertuliano no caso das escrituras
sagradas, podemos evocar a figura jurídica do usucapião em nosso favor.
Muito antes de Rhine e McDougal já estávamos nesse terreno, com Kardec,
Richet, Crookes e outros. E sempre com ampla liberdade, por imperativo
exclusivo da consciência e na busca livre da verdade, sem
preconceitos nem interesses secundários. Continuamos, pois, em nossa
posição, agora na boa companhia dos parapsicólogos honestos.
Antes de encerrar esta parte voltamos ao
problema do canhotismo, em virtude do aparecimento do livro Destros e
Canhotos do Professor José Quadros França (Edições Melhoramentos,
São Paulo, 1969). Esse livro confirma a absoluta carência brasileira de
estudos e dados estatísticos a respeito. Hossri supõe, como vimos, 10%
de canhotos na população, mas França informa que as estatísticas
norte-americanas acusam a média de 12,5% equivalente a 125 canhotos em
cada 1.000 pessoas. Hossri supõe 90% de canhotos corrigidos e França
declara: “Não encontramos aqui no Brasil levantamentos estatísticos
sobre o fenômeno”.
No tocante aos efeitos da correção do
canhotismo o Professor França se limita ao problema da gagueira e a
conseqüências psíquicas ainda não comprovadas, apenas supostas.
Referindo-se a estudo do Dr. Werner Kemper publicado no n.° 51 da
Revista Brasileira de Medicina (novembro de 1951), França examina a
fragilidade das teorias científicas ali expostas sobre o canhotismo.
Tudo isto vem confirmar a temeridade da hipótese de qualquer relação
entre a correção do canhotismo e o desenvolvimento das funções psi.
1. Palingenesia: síntese dialética
Em livro há pouco publicado em Buenos
Aires, pela Editorial Victor Hugo, Humberto Mariotti estuda o
Materialismo Histórico à luz da Parapsicologia, concluindo pela evidente
abertura de perspectivas ontológicas na Ciência contemporânea, graças às
investigações da fenomenologia paranormal. Mariotti já teve um de seus
livros traduzido para o português e publicado no Brasil. Trata-se de
Dialética e Metapsíquica, resultante de um debate com o marxista
Emílio Troise.
O que ressalta de mais importante neste
novo estudo de Mariotti é a sua negação da validade da concepção
materialista da História – sem negar a realidade do processo dialético –
e a afirmação da importância da palingenesia como um conteúdo histórico
que somente a investigação parapsicológica poderá revelar, através do
método científico de investigação e experimentação.
Para os que conhecem a maneira cautelosa
por que a Parapsicologia avança, passo a passo, nas suas investigações,
pode parecer temerária a afirmação de Mariotti. Para os que, porém,
sabem ligar historicamente a Parapsicologia à Metapsíquica – o que
Mariotti faz com extraordinária lucidez – não há nenhuma temeridade no
seu procedimento. Tanto mais que ele não se lança à formulação de
qualquer hipótese, limitando-se a mostrar a possibilidade, já revelada
pelas conquistas parapsicológicas, de um novo acesso à problemática
ontológica no plano científico.
Esse acesso decorre naturalmente da
constatação científica das faculdades paranormais. Aliás, o próprio
Professor Joseph Banks Rhine alude ao problema, em seu famoso livro
The New World of the Mind, ao referir-se às pesquisas universitárias
realizadas por sua esposa, a Profª Louise Rhine. Bem antes, ainda no
plano histórico da Metapsíquica, Ernesto Bozzano afirmara que a prova
científica da percepção extra-sensorial implicava, de maneira
logicamente irrevogável, a existência de estâncias ontológicas
desconhecidas, capazes de sustentar a validade das teorias metafísicas
do homem.
As provas científicas da Metapsíquica
foram rejeitadas, não pela negação dos fatos observados ou da validade
dos experimentos, mas pela perplexidade que provocaram.
Entendeu-se que os fenômenos estudados por William Crookes, Charles
Richet, Eugênio Osty, Gustave Geley, Schrenck-Notzing, Alexandre Aksakof,
Oliver Lodge e tantos outros eram intrinsecamente impossíveis. A
objeção, como se vê, era filosófica e não científica. Robert Amadou,
atualmente, em seu livro La Parapsychologie, lembra que os
metapsiquistas poderiam responder, à maneira de Galileu, que apesar da
impossibilidade alegada os fatos existem. E tanto isso é certo que a
Parapsicologia está hoje refazendo meticulosamente, no plano da
investigação universitária, em âmbito mundial, os caminhos já feitos
pela Metapsíquica. Através do método quantitativo de investigação o
procedimento qualitativo da Metapsíquica se comprova. E como acentua Jan
Ehrenwald, exige mesmo a volta ao exame qualitativo.
Por falar em Ehrenwald, é bom lembrar que
esse psiquiatra propõe, no seu livro sobre a telepatia, a conjugação de
três métodos para a investigação dos fenômenos telepáticos, em sua
ocorrência no plano patológico. Entende Ehrenwald que as estâncias
psicanalíticas da personalidade podem revelar novos aspectos, à luz da
investigação parapsicológica. E para tanto afirma a conveniência de se
conjugar, nos casos possíveis, os métodos qualitativo e quantitativo e o
método significativo da interpretação psicanalítica. Vê-se, assim, que
as novas perspectivas ontológicas de Mariotti são uma realidade que se
revela também na clínica psiquiátrica.
Mas o que importa, no tocante à
palingenesia, é a negação da validade materialista da concepção
dialética da História. Lembra Mariotti que a dialética hegeliana não se
compadece com nenhuma forma de materialismo, sendo, pelo contrário, a
própria lei da negação da negação aplicada ao materialismo.
Quando se coloca a ênfase do processo histórico, não no seu aspecto
material, considerado em si, mas na sua dinâmica, ou seja, no seu
processo dialético, o problema se desloca, sob o ponto de vista lógico,
para a Metafísica. Passamos a lidar com o abstrato e a reconhecer
imediatamente os fundamentos imateriais do processo histórico.
Diante disso Mariotti releva a importância
da investigação ontológica, nas perspectivas que se abrem através da
Parapsicologia, para a reformulação da concepção dialética num sentido
de volta às proposições hegelianas. De nossa parte entendemos que não
cabe apenas à Parapsicologia, mas também à Física Nuclear um papel
fundamental nesse terreno. Por mais que Bertrand Russel procure salvar a
concepção materialista, sustentando que a negação científica da matéria
não implica a negação das leis físicas, é evidente que o rótulo que se
mantenha para essas leis nada importa e nada significa. A realidade
científica atual é a da colocação do problema ontológico entre duas
séries de perspectivas que se abrem, cada vez mais amplamente, nas
Ciências da Natureza e nas Ciências do Homem, com a negação do
organocentrismo e a possibilidade do reconhecimento de formas de
vida além das que se manifestam nos organismos materiais.
Essa possibilidade abriria, por sua vez,
perspectivas extrafísicas para a interpretação do processo histórico. E
se a palingenesia puder comprovar-se, como supõe Mariotti, pelo
prosseguimento da investigação parapsicológica, teríamos a possibilidade
de encarar o problema dos ciclos históricos através do retorno de
personagens e circunstâncias ao cenário existencial, uma vez que a
precedência histórica da essência, negando também a validade da
concepção sartreana, se afirmaria filosoficamente através da Ciência.
Aliás, é bom lembrar que, para Sartre, a existência precede a essência
apenas no tocante ao homem.
As novas perspectivas históricas
reafirmariam os pressupostos hegelianos, oferecendo-nos estas dimensões
dialéticas, inteiramente renovadoras das nossas concepções do homem e do
universo: o mitológico e o histórico se apresentariam como a tese e a
antítese do processo do desenvolvimento humano, que resultaria na
síntese da palingenesia. Eis os caminhos que o livro de Mariotti nos
aponta e que parecem corresponder precisamente a esta fase de superação
cultural que estamos vivendo. Por outro lado essa superação, por sua
própria natureza de síntese dialética, não invalidaria o materialismo e
o existencialismo, limitando-se a determinar os marcos de validade
circunstancial em que os mesmos devem colocar-se, ou seja, dando a cada
uma dessas concepções filosóficas o seu lugar no amplo contexto
palingenésico.
Dessa maneira teríamos o materialismo
histórico situado no plano existencial como a visão objetiva do processo
metafísico que determina as transformações sociais. Uma espécie de visão
fenomenológica, de natureza descritiva. O existencialismo sartreano
(hoje considerado pelo próprio Sartre como um enclave do
Marxismo) corresponderia a uma visão objetiva e circunstancial de cada
avatar da essência, que se renova e se enriquece no aqui e no
agora das etapas da evolução palingenésica.
Mariotti nos mostra o sentido filosófico
da revolução parapsicológica nas Ciências. Podemos repetir com Sir
Oliver Lodge que se trata de uma revolução copérnica, como veremos mais
adiante. Não há motivo para nos admirarmos com a oposição de certos
setores ao desenvolvimento da Parapsicologia. Todas as forças
conservadoras do processo histórico reagem diante dessa ameaça de
desintegração, embora parcial, da cultura atual, da estrutura do
conhecimento, segundo a lei de equilíbrio que determina a existência do
instinto de conservação nos organismos vivos e nos grupos sociais.
A propósito da tese de Mariotti
escreve-nos erudito leitor: “Ao contrário de abrir novas perspectivas na
concepção do mundo, a volta à palingenesia, proposta por Mariotti,
representaria simples retrocesso histórico à metafísica estóica”.
Defendendo ardorosamente o Materialismo-Histórico, o leitor insiste no
caráter retrógrado da posição idealista, que lhe parece “uma fuga
romântica à realidade histórica”, fuga essa que permite “a volta, em
pleno século de conquista do espaço, a superstições soterradas nos
escombros do mundo helenístico”.
Não entendemos por que estranho motivo a
volta à concepção palingenésica seria um retrocesso histórico, enquanto
a volta ao atomismo de Leucipo e Demócrito representa evidente progresso
que permitiu a investigação cósmica. O temor da volta às velhas
superstições, ou mesmo às concepções ingênuas do passado, tem sempre
marcado as fases de grande desenvolvimento intelectual. Mas apesar dele
a volta sempre se afirmou como uma espécie de necessidade histórica. O
próprio materialismo-dialético nada mais é que uma readaptação
conceptual, não apenas da dialética hegeliana, mas das próprias
concepções dos fisiólogos gregos. Nada demais que voltássemos aos
estóicos, cuja metafísica se enraíza profundamente em Heráclito, tão
querido e exaltado pelos materialistas dialéticos.
Os escombros do mundo helenístico são
extraordinariamente fecundos e deles podem brotar, não apenas os
cogumelos venenosos das explosões atômicas, mas também os que fornecem
alimento e vida ao pensamento moderno. Neste caso, como demonstra
Humberto Mariotti em seu livro Parapsicologia y Materialismo
Histórico (e sopesamos o verbo demonstrar antes de usá-lo)
encontra-se a concepção palingenésica do mundo, que constitui o centro
da metafísica estóica. É evidente que não tratamos de uma simples volta,
de um retrocesso puro e simples, mas de um retorno cíclico à maneira dos
que verificamos, por exemplo, no caso atômico, na própria questão da
dialética-materialista ou ainda no caso da concepção comunista da
sociedade.
Pede-nos o leitor, por outro lado, “um
maior esclarecimento do processo dialético da história em bases
palingenésicas”. Pareceu-lhe confusa a proposição de que o mitológico e
o histórico podem apresentar-se como a forma de contradição da qual
resultaria a síntese palingenésica: “mesmo porque – acentua – a
palingenesia não seria uma síntese, mas apenas um momento de volta, de
regresso ao estado anterior”. Antes de tudo devemos assinalar que não
há, no processo dialético, um momento de volta puro e simples, pois toda
volta só pode verificar-se como resultado do choque ou da fusão das
proposições contraditórias. Não há “regresso ao estado anterior”, mas
avanço qualitativo ou enriquecimento histórico, segundo o velho símbolo
hindu da “serpente que morde a ponta da cauda”.
No plano do desenvolvimento histórico
encontramos duas fases que se opõem, não apenas em sentido cronológico,
mas também e principalmente em sentido qualitativo e portanto
significativo. A primeira dessas fases é a mitológica, em que vemos a
humanidade sair de uma espécie de “indiferenciação psíquica”,
correspondente aos períodos primitivos de sua evolução, para tentar a
racionalização do mundo através do pensamento mítico, ainda densamente
impregnado das emoções primárias. Huntersteiner realizou um belo
trabalho, a que deu o título de Fisiologia do Mito, mostrando a
natureza específica do mito, regido por uma lei fundamental que é a
metamorfose. A esta lei, que parece antes imaginária que real, se opõe a
concepção progressiva da história, estruturada numa seqüência racional
de causa e efeito.
A oposição do mitológico ao histórico é o
que poderíamos dizer: um fato evidente por si mesmo. Quando remontamos,
por exemplo, à história chinesa antiga – história que não é história,
mas apenas mitologia – e vemos o tumulto das dinastias partir da
nebulosa divina e nela perder-se, compreendemos claramente a natureza
indiferenciada da fase mitológica. Somente a partir da concepção
histórica judaica, desenvolvida pelo Cristianismo, a seqüência dos
eventos se define como um processo, e o que é mais importante, de
natureza teleológica. Os acontecimentos se delineiam e se encadeiam com
precisão cronológica, objetivando sempre um fim, e o processo antes
confuso se esclarece e adquire significação. Impõe-se a analogia
spenceriana entre o desenvolvimento coletivo e o desenvolvimento
individual do homem, a partir da indiferenciação psíquica infantil para
as fases de diferenciação progressiva e definição racional do
amadurecimento orgânico e psíquico.
O mitológico, numa interpretação
dialética, apresenta-se como a tese ou proposição inicial da qual se
desdobrará fatalmente a antítese. E isso tanto mais se afirma quando
analisamos a natureza sincrética do mitológico, onde não há fronteiras
entre o humano e o divino, o temporal e o eterno, o cronológico e a
duração. Podemos dizer que a duração ainda não foi segmentada, segundo a
explicação bergsoniana. É por isso que a lei do mito é a metamorfose.
Não há sucessão cronológica, mas apenas variações na duração. A tese
contém em si mesma os germes do desenvolvimento futuro, os elementos que
se definirão na fase histórica sob o impacto do deus Marduc da razão,
que partirá o caos em dois pedaços para produzir o cosmos.
O processo dialético, entretanto, não se
interrompe. Uma vez colocada a oposição, a tese se desenvolve na
antítese, mas terá fatalmente de resultar na síntese. A separação dos
elementos fundamentais da tese, na produção natural e necessária da
antítese, não foi casual, mas causal e por isso mesmo teleológica.
Regida por uma causa, dirigia-se a um fim. E este fim, implícito na
própria dialética, é o desenvolvimento ou a realização de um estado
superior em que os elementos rejeitados pela antítese voltam a
incorporar-se no processo, aparentemente interrompido.
Não há outra fase que possamos considerar
como uma possibilidade pós-histórica senão a palingenésica. Somente
nesta se torna possível a realização da síntese, nos termos da filosofia
de Charles Bonnet e de Ballanche ou ainda do próprio Schopenhauer. Eis o
momento em que a reencarnação, como um processo não apenas individual,
mas coletivo, se impõe nas dimensões estóicas, aclarada pelas conquistas
científicas da atualidade. Num mundo de renovações cíclicas, como vemos
no desenvolvimento dos reinos naturais – aos quais pertencemos – seria
estranho que apenas a Humanidade seguisse um sistema linear de evolução
através da História. A constatação do processo palingenésico no plano
social surge como um novo fator de reintegração do homem no complexo da
evolução universal.
É evidente que ao considerar a sucessão
das gerações vegetais e animais não se leva em conta apenas o elemento
físico. Este é informado e impelido pelo elã vital de Bergson. Esse elã,
por sua vez, não é apenas vital, mas também anímico e mental, como as
primeiras experiências parapsicológicas já demonstraram, confirmando as
anteriores pesquisas espíritas e metapsíquicas. A palingenesia não é,
assim, apenas uma forma de conservação e renovação da matéria, mas um
processo de desenvolvimento das potencialidades anímicas das coisas e
dos seres – um avanço do inconsciente ao consciente – como Gustave Geley
demonstrou em sua obra famosa
Em seus estudos sobre as origens e a
história das religiões, John Murphy, da Universidade de Manchester,
adotou o método cultural que distingue os sucessivos horizontes
históricos da evolução religiosa. O primeiro horizonte é o primitivo; o
segundo, o anímico, o terceiro, o agrícola; o quarto, o do aparecimento
do espírito de civilização; e o quinto, que nos interessa neste
capítulo, é o horizonte profético. Nessa fase da evolução religiosa do
homem, acentua Murphy, um dos fatos característicos é o aparecimento das
grandes individualidades, como os profetas hebreus e os fundadores de
religiões. Podemos falar, assim, de um período histórico caracterizado
pelo desenvolvimento e a influência civilizadora da profecia. Murphy
assinala em seu estudo que: “O homem é o produto da evolução, tanto no
tocante ao corpo quanto ao espírito”.
A profecia aparece como uma conseqüência
da evolução humana e ao mesmo tempo como uma exigência e uma condição
dessa evolução. Estamos eqüidistantes das explicações, ambas simplistas,
da teologia e da psiquiatria. Embora Murphy não se interesse pela
profecia em si, ele a explica como o desenvolvimento do espírito de
civilização que liberta o homem das formas primárias de pensar,
ligadas aos horizontes primitivo e anímico e já modificadas na fase de
desenvolvimento agrícola. A maior capacidade de formar conceitos, de
elaborar uma concepção geral do mundo e da conduta humana, de formular
preceitos éticos e orientar as coletividades são para ele as condições
fundamentais da individualidade profética.
Embora o sentido etimológico de profecia
seja o anúncio do futuro, a tradição religiosa consagra-lhe outro. A
profecia, como se vê especificamente nos casos de Jesus e de Maomé, bem
como no tocante aos profetas bíblicos, é ao mesmo tempo a revelação de
ensinamentos divinos e de acontecimentos futuros. No Cristianismo a
profecia assume importância fundamental, pois é a pedra de toque da
legitimidade do Messias e a própria base da Revelação. A interpretação
teológica da profecia tirou-lhe a naturalidade, convertendo-a numa
manifestação mística de cunho sobrenatural. Se isso lhe deu, na
antigüidade e na fase medieval, extraordinário prestígio, serviu ao
mesmo tempo para desprestigiá-la na época moderna, com o desenvolvimento
do pensamento positivo. A profecia passou subitamente para a categoria
das superstições, e o que é pior, das manifestações de desequilíbrio ou
de perturbação psíquica. O profeta desceu da condição de individualidade
superior para a de louco. Daí os livros e as teses como a de Binet
Sanglé (La Folie de Jesus), interpretando o próprio Cristo como
um teomegalômano-histeróide.
Essa e outras teses são ainda do agrado de
intelectuais que se orgulham da firmeza e da clareza positivas de suas
convicções, relegando ao lixo do passado as grandes concepções
que representam a matriz histórica do espírito contemporâneo. Mas na
proporção em que este mesmo espírito se desenvolve, as interpretações do
tipo Binet Sanglé vão caindo no passado, para usarmos uma
expressão de René Hubert, e rapidamente se transformam em objetos de
museu. No caso particular da profecia temos agora a assinalar, além do
reconhecimento da sua importância no processo de evolução humana, o
reconhecimento científico da sua existência como uma faculdade humana
natural, suscetível de experimentação.
Já os Profs. Gustave Geley e Eugênio Osty
haviam verificado, através de numerosas experiências do Instituto de
Metapsíquica de Paris, na primeira metade do século, confirmando as
conclusões anteriores de Frederic Myers, William Crookes, Charles Richet
e outros, a possibilidade de comprovação científica da profecia. Agora
são as investigações rigorosamente científicas da Parapsicologia,
seguidas de experimentações minuciosas, que vêm dar à profecia o direito
à cidadania no mundo das Ciências. Com a designação técnica de
precognição, implicando a existência da cognição ou
percepção extra-sensorial, e ao mesmo tempo a existência da
retrocognição, também cientificamente comprovada, a profecia é
atualmente uma faculdade humana (e ao que parece também das espécies
animais) reconhecida e admitida pela investigação científica em plano
universitário e universal.
Chegamos assim, através do estudo de uma
faculdade mental ou psíquica (pois o psiquismo, neste caso, não se
conforma aos limites de uma definição mentalista) a uma convalidação da
hipótese da dialética palingenésica de que tratamos nos capítulos
anteriores. O próprio desenvolvimento histórico da profecia, nos termos
propostos por Murphy, implica essa dialética. Surgindo naturalmente do
processo evolutivo para firmar-se como a característica de uma fase
longa e decisiva da história humana, a profecia se revela como uma forma
de superação das limitações positivas de espaço e tempo.
A existência dessa faculdade no reino
animal, longe de prejudicar, reforça e confirma a natureza dialética do
seu desenvolvimento. Ela surge primeiramente como a tese do psiquismo
natural que se desenvolve na elaboração das categorias racionais da
mente, e por fim eclode na síntese da precognição. Com esta, o
homem supera o espaço e o tempo, o que vale dizer que supera a História,
revelando existir, em si mesmo e no Universo, um conteúdo que, segundo a
expressão do Professor Rhine, “transcende a Física”.
Murphy delimita o horizonte profético
no espaço e no tempo, dando-lhe, de acordo com os seus antecessores na
formulação do método cultural, uma posição concreta no processo
histórico. Esse horizonte está, segundo afirma, “quase inteiramente
limitado ao período que vai do século IX ao século III antes de Cristo,
e dentro do Fértil Crescente, como se chama às vezes o espaço que vai da
Grécia e do Egito, passando pela Palestina e Mesopotâmia, até à Índia e
à China”. Temos assim a geografia e a cronologia do desenvolvimento
profético. Mas geográfica e temporalmente localizada a profecia se
apresenta como um rompimento dos limites em que se desenvolve, exercendo
suas funções psi além do espaço e do tempo.
As experiências de precognição,
como as de telepatia, demonstram que não apenas o tempo, mas também o
espaço “nada representam para a percepção extra-sensorial”.
Quando propomos, portanto, a Palingenesia como uma síntese dialética do
processo histórico, não se pode levantar a objeção de que a Ciência não
vai além dos limites de espaço e tempo. Rhine responde que esses limites
pertencem à Física e que a Parapsicologia “é o primeiro novo mundo da
Ciência a transcendê-los”. Com a prova científica da profecia o homem
afirma a sua transcendência. O mundo em que ele se encontra já não se
limita ao aqui e ao agora, mas se abre indefinidamente
sobre o amanhã, essa categoria filosófica espiritual que se opõe
ao exclusivismo das categorias existenciais.
A precognição é uma das
perspectivas mais desnorteantes da Parapsicologia, porque a verificação
científica da sua realidade parece contradizer e invalidar toda a nossa
concepção atual do Homem e do Universo. Entretanto, quando a encaramos
como um simples aspecto da realidade transcendente que escapou ao
empirismo científico, compreendemos que ela não contradiz nem invalida,
mas amplia e enriquece a nossa cosmovisão. Se podemos profetizar é que
podemos ver no futuro. Isso demonstra que não estamos limitados ao
dia-a-dia, à rotina das contingências e das circunstâncias, mas que
podemos elevar-nos acima dela. Só o preconceito cultural do fisicismo
pode repelir essa nova perspectiva do Homem no Universo.
Ao colocar o problema da transcendência do
homem, ou melhor, da sua natureza transcendente, no capítulo anterior,
colocamos conseqüentemente o problema da transcendência dos fenômenos
psi. A ruptura das categorias de tempo e espaço, que verificamos nos
fenômenos de precognição, apresenta certas semelhanças com a
ruptura das leis físicas nos fenômenos de levitação de objetos à
distância, ectoplasmia fantasmal ou ideoplástica, voz direta ou
ruídos sem causa aparente. As primeiras objeções formuladas – não ao
estudo e à observação desses fenômenos objetivos, mas à sua própria
possibilidade de existência –, basearam-se no aspecto transcendente dos
mesmos.
Posteriormente as investigações de William
Crookes, Charles Richet e particularmente as de Richet e Imoda, na
Itália, e as de Crawford, na Irlanda, mostraram a natureza imanente
desses fenômenos. A teoria da alavanca psíquica, de Crawford,
comprovada por experiências e fotografias, revelou a existência de um
liame material entre o sensitivo e o objeto levitado, de maneira que a
lei de gravidade não foi sequer arranhada. Restaram, entretanto, as
questões de ordem fisiológica, até hoje não explicadas nem
suficientemente investigadas.
Verifica-se nos dois casos, mais uma vez,
aquilo que poderíamos chamar de condicionamento dialético. Tanto nos
fenômenos subjetivos, quanto nos objetivos, podemos ver nitidamente a
oposição dialética do imanente e do transcendente, que produz a síntese
fenomênica. No caso da ectoplasmia, por exemplo, a ação direta do
sensitivo através da emissão fisiológica da alavanca psíquica é
puramente mecânica. Foi providencial que os estudos e as experiências a
respeito tivessem sido feitas por um fisiologista como Richet e um
catedrático de mecânica aplicada como o Professor Crawford, da
Universidade de Belfast. Mas como explicar a emissão ectoplásmica, e
particularmente as causas psicofisiológicas desse processo? Gustave
Geley admitiu, o que fez também Crawford, a existência de
controladores espirituais, ou seja, de agentes extrafísicos. Não
aceitando essa explicação teríamos de procurar outra, e de qualquer
maneira chegaríamos, como aconteceu com Carl Jung, a uma conclusão
transcendente.
No caso particular da precognição,
de que tratamos no capítulo anterior, surgiu entre os parapsicólogos uma
curiosa controvérsia. Não se tratava de negar o fenômeno,
suficientemente demonstrado, mas de negar, através dele, a psicocinesia.
Esta, como já vimos, é a ação da mente sobre a matéria. Assim, quando as
experiências de Rhine provavam que a mente do sensitivo agia sobre os
dados lançados à mesa por uma máquina especial, alguns parapsicólogos
levantavam a hipótese, inicialmente formulada por Nash, de que o
sensitivo antevira pela precognição o resultado do jogo. O
curioso, neste caso, é a tentativa de negar o fenômeno objetivo para
ressalva das leis físicas, embora se fosse obrigado a admitir o fato
transcendente da precognição. Mais uma vez, como se vê, a
transcendência se impõe.
A intervenção de Carl Jung – se assim
podemos dizer – nos debates parapsicológicos, foi antes de natureza
filosófica do que psicológica. Não quis ele negar a validade das
pesquisas, mas a validade da interpretação. Jung entendeu que os
fenômenos psi, não estando sujeitos aos limites de tempo e
espaço, são de natureza transcendente, não comportando nenhum
enquadramento nas categorias lógicas de causa e efeito. Sua proposição é
a da existência de uma ordem não-causal no Universo, regida pela
sincronicidade. Uma volta ao problema colocado por David Hume, mas agora
em forma de transcendência, delimitando-se as áreas de causalidade de
sincronicidade nos planos da dicotomia platônica de sensível e
inteligível.
Todas essas discussões cabem apenas no
campo científico, que se apresenta, como sabemos, dividido segundo o
esquema platônico. As ciências se interessam pelo objetivo, mas
reconhecem, embora como epifenômeno, a existência do subjetivo em forma
psicológica e cultural. A própria natureza epifenomênica do subjetivo o
condena perante a investigação científica. É natural, portanto, que ao
encarar o problema da ação subjetiva nos fenômenos objetivos, apareça
logo a reserva e a repulsa ao transcendente. No campo filosófico,
entretanto, as perspectivas são outras.
Poderíamos começar por uma pergunta
ingênua: qual a natureza da vida? Se admitirmos a vida como epifenômeno
(posição típica do materialismo) ela nada mais será do que um efeito das
ações e reações íntimas da matéria. Mas, nesse caso, restará o problema
da causa dessas ações e reações. E se admitirmos a vida como o resultado
dialético da ação de um princípio não-físico sobre a matéria
(espiritualismo), reconheceremos a natureza vital, e portanto normal, do
paranormal. Quer dizer: a dualidade imanente-transcendente que
caracteriza os fenômenos psi não é propriamente uma
característica destes, mas de todos os fenômenos ou do universal.
Tendemos assim para a aceitação do númeno kantiano e fazemos a
eliminação espinosiana do sobrenatural para reconhecermos em tudo apenas
a Natureza.
De uma maneira ou de outra, com o
epifenômeno ou com o númeno, não conseguimos fugir ao
transcendente. Porque o próprio epifenômeno, como o indica a etimologia
do termo, é um processo de transcendência reconhecido na sociologia
marxista como superestrutura. Assim, ao contrário do que pretende o
próprio Professor Joseph Banks Rhine em suas digressões filosóficas e
políticas sobre as conseqüências da investigação parapsicológica, a
prova científica da existência de psi não nega a validade do
Materialismo Histórico, mas apenas delimita essa validade no plano do
imanente. Não sendo possível, nem mesmo para o materialismo científico e
filosófico, negar o transcendente, que sempre subsiste, será forçoso
reconhecer a sua presença e a sua importância no processo histórico.
Esse reconhecimento não invalida, mas amplia e enriquece as conclusões
da observação e da experimentação na matéria (Ciências físicas).
Reafirma-se, portanto, através desse
curioso problema do imanente e do transcendente nos fenômenos psi,
a tese da dialética-palingenésica. Transcendente e imanente mostram-se
de maneira clara, porque ainda não suficientemente fundidos, quando
estudamos a fase pré-histórica do Mitológico. Posteriormente, na
História, o imanente se sobrepõe ao transcendente na elaboração da
síntese. Esta, entretanto, só se verifica no plano da Palingenesia, no
momento em que o Mito e a História se fundem, para que imanente e
transcendente de novo transpareçam na Natureza através da Vida. E então,
só então, na realidade palingenésica, o agora existencial revela
o seu verdadeiro sentido, ou seja, como quer o relativismo-crítico, o
presente como síntese do passado e do futuro.
Cada vez que nos defrontamos com o
agora no processo palingenésico, estamos ao mesmo tempo diante do
ontem e do amanhã. No agora somos o resultado do que
éramos no ontem, realizamos a essência que, segundo Sartre, lá se
encontrava “em suspenso”. Mas, por outro lado, temos novamente “em
suspenso” a essência que realizaremos no amanhã. Isto está mais
de acordo com a concepção existencial do homem como projeto,
concepção que Sartre limitou ao transcurso de uma única existência, por
isso mesmo frustrada.
Assim, a frustração sartreana do homem,
“essa paixão inútil”, não é uma realidade objetiva nem subjetiva, mas
apenas uma limitação mental do filósofo. Numa perspectiva palingenésica,
Sartre poderia enxergar o futuro do homem dentro das próprias condições
dialéticas do Marxismo, dessa Filosofia que ele considera a única do
século, mas cujas raízes hegelianas autorizam a volta ao espírito.
A proposição da tese da
dialética-palingenésica pareceu precipitada a alguns estudiosos, que nos
advertiram quanto aos resultados ainda precários da investigação
parapsicológica. Podemos resumir assim os principais argumentos
contrários: se a Parapsicologia ainda não saiu da simples verificação de
alguns fenômenos mentais, não superou o campo da mente, não podemos
avançar, apoiados nos seus dados rudimentares e imprecisos, no campo das
vastas ilações históricas. Outros, ironicamente, perguntaram-nos: “Pode
o jogo de dados do Professor Rhine mudar a nossa concepção do mundo?”.
A resposta não nos parece difícil. Basta
formularmos outras perguntas, como estas, por exemplo: o jogo de objetos
de Galileu, na torre de Pisa, não mudou a antiga concepção? A dança das
rãs, de Galvani, não abriu novas perspectivas às Ciências? A chaleira de
Fulton não modificou a navegação mundial e os transportes terrestres?
Porque não poderiam o jogo de dados e mesmo o baralho do Professor Rhine
produzir efeitos semelhantes? Tanto mais que essas duas formas de jogo,
os dados e o baralho, têm o seu lugar de honra na história das grandes
concepções humanas.
Mas não nos percamos em divagações e
procuremos analisar essas objeções. O Professor Rhine partiu das
observações mais simples, utilizando-se de objetos comuns em respeito às
exigências de objetividade e clareza da metodologia científica. Para
verificar a existência ou não dos fenômenos de telepatia e submeter as
ocorrências ao controle estatístico recorreu às cartas de baralho. No
início as do baralho comum. Foi o seu colaborador, o Professor Karl
Zener, quem idealizou as cartas parapsicológicas que têm hoje o seu
nome: cartas Zener.
Tratando-se de apenas cinco figuras, cada
maço de baralhos com 25 cartas, uma vez embaralhado, apresenta com
absoluta segurança a margem de acaso ou azar na realização das
experiências. O Professor Soal, como já vimos, substituiu essas figuras
por animais: o elefante, a girafa, o leão, o pelicano e a zebra. Cada
uma dessas figuras tem a sua marca dramática e as letras iniciais dos
nomes são diversas, não permitindo confusões ou ambigüidades na
verificação experimental. Poderíamos também falar ironicamente no jogo
do bicho do Professor Soal. Mas esse jogo produziu os mais belos
resultados, provando cientificamente a existência da telepatia.
Quanto aos dados do Professor Rhine vimos
que eram a princípio os dados comuns de jogo. Posteriormente foram
aperfeiçoados com a finalidade de assegurar-se maior garantia na sua
livre queda. Também a maneira de atirá-los sobre a mesa evoluiu,
fabricando-se aparelhos especiais para evitar o contato das mãos. No
caso dos dados as cautelas deviam ser as mais rigorosas, pois tratava-se
de verificar a ação da mente sobre a matéria de maneira direta. Uma
função mental considerada absurda, e até mesmo intrinsecamente
impossível, não obstante a nossa própria existência nada mais seja
do que essa mesma ação mental sobre a matéria.
Rhine teve de partir de coisas simples e
concretas, seguindo as exigências de clareza e distinção do método
cartesiano, ainda imperantes na metodologia científica. E se a
Parapsicologia não conseguiu até o momento elevar-se das experiências
humildes até às grandes investigações da antiga Ciência psíquica inglesa
ou da Metapsíquica francesa, isso ainda se deve a esse mesmo respeito
pelas exigências das Ciências. Mas apesar de todas essas limitações
físicas impostas à investigação de fenômenos extrafísicos, a verdade é
que a Parapsicologia já avançou o suficiente para provar a existência,
como sustenta Rhine, de um universo não-físico. Embora obrigada a
rastejar na mesa de jogo, ela conseguiu arrancar a mente das limitações
sensoriais. Não é isso admirável?
Hoje, nos grandes centros universitários
da Europa, da Ásia e da América a Parapsicologia ê uma ciência que tem o
seu campo objetivo bem definido e permite o doutoramento na defesa de
suas teses. A telepatia, a clarividência e a precognição estão
provadas e comprovadas através de milhares de experiências e
investigações. E a psicocinesia ou ação direta da mente sobre objetos do
mundo exterior é também considerada como demonstrada, por cientistas da
envergadura de Rhine, de Soal e de Price, além de outros cuja citação
exigiria uma longa lista. E isso apesar de ser a psicocinesia o grupo
fenomênico menos estudado e investigado, em virtude da intensidade dos
preconceitos científicos referentes à possibilidade dos fenômenos
incluídos na sua denominação.
Assim, embora a Parapsicologia esteja
ainda na fase de descoberta de um novo mundo, as provas que já conseguiu
efetivar são suficientes para abalar a rigidez da concepção física ou
materialista que até agora imperou na Ciência moderna. Se juntarmos a
essas provas do campo psicológico as que nos são oferecidas no próprio
campo físico pelas descobertas da Física Nuclear – que assume dia a dia
as proporções de uma verdadeira parafísica – veremos que Pitirim Sorokin,
da Universidade de Harvard, tem razão ao acreditar que nos encontramos
numa fase de transição para nova forma de cultura.
Se até agora a nossa cultura se limitou
aos dados do campo sensorial – apesar das dúvidas de Descartes e das
experiências psicofísicas de Webber e Fechner sobre os limites das
sensações – é evidente que não podíamos conceber a dialética histórica
senão nas suas possibilidades concretas. Mas no momento em que rompemos
o arcabouço físico da nossa formação cultural, abrindo perspectivas
novas dentro da própria investigação científica da Natureza, seja no
plano subjetivo ou no objetivo, é evidente que a dialética histórica do
Marxismo se projeta de volta no rejeitado espiritualismo hegeliano.
Queiram ou não queiram os que, como Bertrand Russel, insistem na
sustentação da concepção materialista, a verdade é que a natureza
não-física do Universo se abre diante dos nossos sentidos atônitos como
uma vasta perspectiva.
Dessa maneira, não há nenhuma precipitação
na formulação de uma hipótese da dialética-palingenésica. Hipótese,
aliás, que não se apóia apenas nas investigações parapsicológicas e no
desenvolvimento extrafísico da própria Física, mas num poderoso, vasto e
profundo substrato histórico que desde a era tribal vem marcando a
presença do espírito nos acontecimentos humanos. Outra conseqüência
natural da Parapsicologia é esse descondicionar do pensamento que
representa a reintegração do homem na realidade natural. Rompendo o
condicionamento artificial da evolução científica, feita nos limites
estreitos do raciocínio fisicista, a Parapsicologia nos liga
novamente às raízes espirituais da espécie.
Dois fatos científicos de maior
importância apóiam a tese da dialética palingenésica: a descoberta da
antimatéria (que mostra a possibilidade de um antiuniverso) e a teoria
do Universo oscilante de Ernst Õpik, que restabelece a hipótese grega do
desaparecimento periódico do Universo e sua reconstrução cada trinta
milhões de anos. Hipótese, dirão. Sim, mas hipótese baseada em dados
rigorosos da investigação científica e aceita pelo mundo científico. O
Universo que se destrói e reconstrói é um Universo palingenésico.
A nova forma de cultura a que alude
Pitirim Sorokin não pode ser inteira ou absolutamente nova. Sua novidade
está na reformulação das bases atuais da Teoria Geral do Conhecimento.
Mas essa reformulação, por sua vez, será apoiada em elementos
fundamentais da cultura atual. Elementos que, como a pedra rejeitada da
parábola, vão agora servir para construção de um edifício amplo e mais
arejado, de um novo templo do saber, para usarmos essa expressão mística
bem adequada às fases de renovação.
Esses elementos são justamente aqueles que
foram postos de lado pelo desenvolvimento do racionalismo iluminista
como resíduos de um passado místico: os conceitos de uma realidade
não-física e da sobrevivência espiritual do homem. Aos dados que
apresentamos no capítulo anterior, justificando a tese da
dialética-palingenésica, podemos acrescentar os da doutrina
parapsicológica de Whately Carington, que realizou experiências de
importância substancial no Laboratório de Psicologia da Universidade de
Cambridge sobre a transmissão telepática de desenhos, como vimos
anteriormente.
Carington era desses parapsicólogos que
não têm medo de palavras. Para ele não havia palavras feias no
dicionário. Por isso não teve dúvidas em aceitar a dicotomia
espírito-matéria para tentar uma explicação dos fenômenos observados. E
graças a essa coragem ofereceu à Parapsicologia uma contribuição das
mais fecundas. Preocuparam-lhe sobretudo os desvios de percepção no
processo extra-sensorial. E a investigação nesse sentido revelou-lhe
coisas curiosas, induzindo-o a uma medida de economia de hipóteses: a
redução de toda a ESP (percepção extra-sensorial) a uma
forma única, a telepatia precognitiva.
O próprio Carington admitiu que “forçava a
mão” para fazer essa temerária redução. Mas partindo do princípio de que
é preferível trabalhar com firmeza em âmbito menor, atreveu-se a
realizá-la. Ao mesmo tempo, porém, que economizava em hipótese, quanto
às modalidades dos fenômenos, via-se obrigado a esbanjar no sentido
interpretativo. Essa contradição é plenamente justificável, pois se a
simples existência da telepatia já lhe acarretava tantas preocupações de
ordem qualitativa, que dizer da multiplicidade de ESP, que o
obrigaria a esforços muito maiores?
Carington verificou que o objeto
telepático em si, e portanto o objeto material, “nada tinha a ver com o
fenômeno”. Quer isso dizer que a transmissão telepática se efetuava de
mente a mente, sem qualquer relação com o mundo objetivo. Vejamos como
isso aconteceu. Carington abria um dicionário, tomava a primeira palavra
utilizável para o caso, fazia um desenho e o afixava em seu gabinete. O
sensitivo captava, à distância, não aquele desenho, mas o que seria
feito no dia seguinte. Entretanto, nem o próprio Carington sabia qual ia
ser esse novo desenho que dependia da palavra a lhe ser novamente
oferecida pelo dicionário. Era um caso típico de precognição.
A única maneira de explicar essa
ocorrência, encontrada por Carington, foi a hipótese do associacionismo
paranormal. Essa hipótese consistia na existência de um sistema de
relações inconscientes que permitia o processo telepático, não como
simples transmissão e recepção de mensagens, mas como uma forma de
comunhão mental. Assim, quando o percipiente se dispunha a receber as
mensagens de Carington, sua mente comungava com a do experimentador e
todas as ocorrências ligadas ou associadas à experimentação em marcha se
lhe tornavam acessíveis.
A conseqüência lógica dessa hipótese era a
admissão da existência de entidades psíquicas que Carington designou por
psícon e sensa. A mente, e portanto o espírito humano,
seriam uma estrutura de átomos extrafísicos: os sensa produzidos
sensorialmente pelo contato com o mundo exterior; e os psícon,
imagens sutis daqueles, de natureza puramente mental. O espírito voltava
a ser o feixe de imagens de Berkeley. Nada mais justo que esse feixe,
uma vez ocorrida a morte do indivíduo humano, subsistisse no plano
extrafísico. Desapareciam os sensa mas sobreviviam os psícon.
Partindo daí, Carington sustentou a
hipótese da sobrevivência da estrutura psicônica após a morte do
homem. E acrescentou que essa estrutura – o espírito liberto do corpo –
poderia entrar em relação com outras estruturas da mesma natureza e
conseqüentemente comunicar-se com os vivos através dos processos
mediúnicos. Analisando, por exemplo, o livro Raymond, de Sir
Oliver Lodge, declarou não haver nada de estranho em que o filho de
Lodge, morto na guerra de 1918, revelasse ao pai a existência de um
mundo extrafísico semelhante ao mundo físico. E isso porque os psícon
de Raymond haviam sido formados pelos sensa da sua vida física.
A doutrina de Carington, mesmo que
desprezemos as suas ilações metafísicas, contribuiu para abrir novas
perspectivas à investigação dos fenômenos psi. A rigidez
esquemática do processo de transmissão telepática, semelhante ao das
transmissões telegráficas, foi substituída pelo dinamismo da
associação do conhecimento paranormal. O processo de ESP se
revelou mais complexo do que parecia até então. As novas experiências,
que ainda agora se desenvolvem nessa orientação nova da hipótese de
Carington, poderão decidir por uma reformulação fecunda de muitos
aspectos da problemática parapsicológica.
Mas voltando à tese da
dialética-palingenésica, vemos que Carington contribuiu para a sua
formulação abrindo as perspectivas para a elaboração de uma verdadeira
Parassociologia. As entidades psíquicas de Carington, como estruturas
psicônicas, em inter-relações fora do plano material e ao mesmo
tempo com suas possibilidades de relações com as estruturas mergulhadas
neste plano – caso de Raymond, por exemplo – ampliam o campo sociológico
levando-nos de volta à cosmossociologia de que falava Durkheim a
respeito das cidades gregas, onde homens e deuses conviviam
naturalmente. Carington abriu, dessa maneira, na Parapsicologia, a
possibilidade de uma Parassociologia que virá fortalecer a tese da
dialética-palingenésica.
Na verdade essa Parassociologia já é, há
muito tempo, uma realidade social desconhecida pelas Ciências. No mundo
inteiro os homens vivem em permanente relação com criaturas espirituais.
O próprio Positivismo não pôde escapar ao reconhecimento de que os
mortos governam os vivos, embora apenas através da dinâmica
cultural. Carington, à maneira de Rhine, nada mais faz que dar forma
científica a uma realidade natural e universalmente reconhecida. Essa
realidade só é nova para as Ciências.
Há alguns anos, o sociólogo Gilberto
Freyre propunha, em artigo na revista O Cruzeiro, a criação de
uma sociologia do sobrenatural para explicar relações extra-humanas.
Alegava que mesmo admitindo-se apenas a existência imaginária de
entidades espirituais não se podiam negar as suas relações com os homens
e a sua influência na vida social. Essa tese das relações imaginárias
lembra a influência mitológica na dinâmica social. A teoria de Carington
oferece a essas relações a possibilidade de uma efetivação no plano da
realidade pesquisada e demonstrada pelas Ciências.
As proposições de Carington estabelecem
teoricamente, no campo da Parapsicologia, o problema das relações
metafísicas. Trata-se de um velho problema que nada tem de
extraordinário, pois desde todos os tempos os homens se viram
embaraçados com ele. Mas Carington tem a vantagem de colocar esse
problema em termos de hipótese científica, tomando-se a palavra
hipótese no seu verdadeiro sentido científico, ou seja, o de
orientação de pesquisa. Parapsicologicamente dispomos, assim, de uma
possibilidade de investigar as relações sociais paranormais, que se
manifestam de maneira mais evidente no campo das manifestações
espiríticas e espiritóides. Por este último termo entendamos os
fenômenos anímicos e fisiológicos que podem ser confundidos com
manifestações psicônicas, segundo a proposição de Carington.
Mesmo, porém, que deixemos de lado esse
problema das relações de entidades extrafísicas com as criaturas
humanas, no sentido de uma parassociologia de natureza mediúnica,
teríamos ainda pela frente o problema das implicações sociológicas das
funções psi. Não podemos ignorar no contexto social a existência
dessas funções e o papel que elas exercem. A Sociologia, portanto, vê-se
obrigada a desbordar dos seus limites atuais ao impacto das comprovações
efetuadas pela investigação parapsicológica. Imaginemos o que isso
provocaria no espírito positivo de Comte ou Spencer e compreenderemos a
reação dos sociólogos atuais a uma proposição dessa espécie. Não
obstante, à semelhança da Física, que avança dia a dia e inelutavelmente
nos rumos da Parafísica, a Sociologia já não mais poderá ignorar os
problemas levantados pela constatação da existência das funções psi.
Na vida normal as manifestações psi
ocorrem numa verdadeira gama que vai do simples pressentimento até os
casos de telepatia, clarividência e precognição. No plano das
ocorrências patológicas, como o demonstrou Ehrenwald, essas
manifestações adquirem vigorosa significação, pois tanto podem ocasionar
desequilíbrios quanto, devidamente estudadas, prevenir e corrigir os
estados psíquicos anormais. Carl Wickland, da Faculdade de Medicina de
Chicago, publicou há tempos um curioso livro sobre o assunto. Trata-se
de um relato de suas experiências na clínica psiquiátrica. Experiências
de ordem espirítica, mas que nem por isso deixam de contribuir para o
esclarecimento das implicações sociológicas das funções psi. Seu
livro tem o título, não raro considerado sensacionalista, mas na verdade
apenas explicativo de sua posição: Trinta Anos entre os Mortos.
No capítulo final desse livro diz Wickland:
“É imprescindível que as investigações psíquicas sejam realizadas por
homens de Ciência, que dela se encarreguem homens dispostos a pôr de
lado todos os preconceitos, livres de qualquer prevenção, a fim de
poderem sopesar todas as provas e classificar os descobrimentos que se
venham a fazer”. Esse trecho nos mostra que a posição de Wickland não é
espirítica no sentido místico, mas na linha do esclarecimento científico
do problema, por ele não apenas investigado mas sobretudo vivido.
Casos como este do psiquiatra Wickland e
os de William Crookes, Charles Richet, Gustave Geley, William Crawford e
mais recentemente os de Rhine, Soal, Price, Björkheim e tantos outros
mostram-nos que as funções psi, no presente como no passado,
influem até mesmo nos problemas da Sociologia da Cultura. Poderíamos
ainda evocar os casos clássicos de Sócrates, Plotino, Descartes e Joana
D'Arc para acentuar a importância dessa influência no processo cultural.
Isso sem contar as múltiplas ocorrências de intuições e revelações de
tipo iluminista verificadas com cientistas, artistas, escritores, poetas
e músicos por toda parte e em todas as épocas.
Quando falamos, pois, de uma
Parassociologia, podemos considerar a proposição em dois planos: no
referente às implicações de psi na vida normal ou cotidiana e no
referente às ocorrências paranormais, que tanto podem ser as
manifestações ostensivas de faculdades extrafísicas quanto os problemas
do misticismo e da psiquiatria. As investigações parapsicológicas
modificam a posição desses problemas, obrigando-nos a encará-los com
mais vasta compreensão. A complexidade do aqui e do agora
existenciais se mostra mais profunda e mais exigente diante dos dados
dessas investigações.
Por outro lado há a considerar todo o rol
de conseqüências sociais das diversas formas de manifestação das
funções psi. Declarou recentemente uma ilustre psiquiatra paulista,
a Dra. Maria de Lourdes Pedroso, em entrevista à imprensa, que toda a
civilização ocidental, como o demonstra a sua denominação específica de
“civilização cristã”, provém da ocorrência de manifestações metergéticas
na Palestina. Abstraindo-nos do sentido espiritual do Cristianismo e
encarando-o apenas na sua significação sociológica, principalmente nos
quadros da Sociologia Cultural, teremos de dar razão à psiquiatra. As
funções psi, não apenas do homem que produziu a revolução cristã,
mas de todos os que foram partícipes desse movimento de importância
fundamental para aquilo que o padre Chardin denomina fenômeno humano,
foram realmente responsáveis pela transformação do mundo.
O fenômeno humano, portanto,
implica aspectos fundamentais que foram até agora negligenciados na sua
avaliação científica. A negligência decorria de fatores conhecidos: de
um lado a posição retrógrada do misticismo religioso impedindo o acesso
ao conhecimento do paranormal; de outro lado a barreira levantada pelo
ceticismo dos que pretendiam reduzir a Ciência aos objetivos materiais.
A investigação parapsicológica, como bem o afirmou o Professor Rhine,
vem arrancar o pensamento atual desse dilema desesperante ao provar-lhe
cientificamente a existência de um Universo extrafísico. Liberto assim
do peso do objetivo, que o próprio desenvolvimento das Ciências físicas
já superou, o pensamento atual está em condições de alargar as suas
perspectivas no plano do subjetivo. E é na amplitude dessas perspectivas
que podemos falar das possibilidades evidentes da Parassociologia,
decorrentes do avanço já realizado em todo o mundo pela investigação
parapsicológica.
Alfred Still reconhece em seu livro Nas
Fronteiras da Ciência e da Parapsicologia que as provas científicas
da materialização de espíritos são realmente sérias, embora não seja
necessário admitirmos que se trata de espíritos. Se a questão de
rótulo é assim tão importante chamemos a essas entidades de
estruturas psicônicas. A teoria de Carington poderá servir de
salvo-conduto aos fantasmas de Crookes e Richet para entrarem no
mundo científico das interpretações sociais. Tanto mais que na realidade
social natural há muito eles já se acomodaram.
Os homens mais ilustres, dizia Kardec, são
às vezes tão fúteis que se arreceiam de palavras. Não permitamos que as
palavras sirvam de barreira aos que desejam tomar conhecimento das novas
dimensões da Sociologia. A expressão criada por Carington agrada mais
aos que se interessam pelas novidades da terminologia científica. Ao
invés dos fantasmas dos mortos, que dão calafrios a muitos
espíritos positivos, deixemos que as estruturas psicônicas
passeiem livremente pelo mundo dos vivos, enriquecendo com seus
psícons as nossas relações sociais.
Procuremos examinar a dualidade
sociológica das implicações de psi a que já nos referimos. De um
lado temos as implicações na vida normal ou cotidiana. À primeira vista
são ocorrências de segunda importância, sem maiores conseqüências para a
vida social. Na verdade elas não somente influem na conduta dos
indivíduos e dos grupos, mas determinam essa conduta. Os arquétipos
coletivos de Jung, os instintos do eu de Freud; a vontade
de poder de Nietzche; a compensação de Adler e outras
hipóteses do gênero bastariam para mostrar a importância da percepção
extra-sensorial na conduta. Aliás, toda a Psicologia moderna e o
desenvolvimento da Psicologia Social são suficientes para advertir-nos
quanto à necessidade de uma investigação a respeito dessas influências.
Não queremos substituir as hipóteses
psicológicas acima mencionadas pelas hipóteses parapsicológicas. Pelo
contrário, servimo-nos delas para exemplificar as implicações de psi
na conduta. Toda a História se apresenta repleta de episódios nesse
sentido. Das profecias trágicas de Cassandra, em Tróia, aos augúrios
oraculares da Grécia e Roma, até às vozes de Joana D'Arc, as intuições
de Napoleão e as previsões de Lenin, há toda uma seqüência de fatos
paranormais balizando o processo histórico. O mesmo se dá no plano
individual. O homem que pressente a queda de um avião e troca a sua
passagem no aeroporto, movido por um impulso do qual a seguir se
arrepende, mas graças ao qual salva a sua vida, há de compreender que
psi foi de importância fundamental para a sua conduta num momento
decisivo.
Tanto no plano da Psicologia Individual
quanto no plano da Psicologia Coletiva ou de grupo e no plano mais vasto
da Psicologia Social as implicações de psi não são apenas
admissíveis, mas sobretudo evidentes e altamente significativas. O
chamado momento psicológico nada mais é que o deflagrar de um
processo coletivo de psi. Isto é mais fácil de compreender quando
nos lembramos que as investigações parapsicológicas não se restringem ao
psiquismo humano, tendo demonstrado como os grupos animais se conduzem
através de suas funções psi. A percepção extra-sensorial,
como um radar orgânico individual, produz a conjugação necessária no
plano coletivo para que um grande conjunto se forme, em termos
gestálticos, orientando a conduta de toda uma coletividade e
decidindo os rumos da História. Humberto Mariotti lembra, a propósito,
as fases culminantes da Revolução Francesa e da Revolução Russa, mas
podemos lembrar também as proposições teóricas de Kurt Lewin sobre a
conduta de grupos em momentos de tensão coletiva. Nesses momentos,
poderíamos dizer com Carington, entidades psicônicas individuais
se agrupam formando entidades sociais.
Voltando aos arquétipos coletivos
de Jung, devemos lembrar o estudo clássico de Mannheim em Ideologia e
Utopia. As aspirações ideológicas têm o seu momento de deflagrar,
que tanto pode ser favorável como negativo. Nos dois casos acima
citados, o da Revolução Francesa e o da Revolução Russa, o momento de
deflagrar foi positivo. Os materialistas atribuem o sucesso às condições
objetivas, mas dificilmente poderiam mostrar como e porque essas
condições se formaram e chegaram a um ponto favorável. Mannheim acentua:
“O aparecimento e o desaparecimento de problemas em nosso horizonte
intelectual são governados por um princípio ainda obscuro. A própria
ascensão e o desaparecimento de sistemas completos de conhecimento podem
ser reduzidos, em última análise, a determinados fatores, tornando-se,
assim, explicáveis. (...) Da mesma forma, deveria a Sociologia do
Conhecimento procurar investigar as condições em que problemas e
disciplinas se formam e desaparecem”.
O reconhecimento da existência das
funções psi em âmbito individual e coletivo desloca o problema das
transformações sociais do plano das simples condições materiais para o
das condições psíquicas ou psicossociais. Compreendemos então que há
algum motivo não descoberto, não percebido, para que, em dado momento, a
revolução social se alastre e chegue a triunfar “no elo mais fraco da
cadeia imperialista”, enquanto nos elos mais fortes se torna impossível.
Compreendemos que as condições econômicas e sociais não são suficientes
por si mesmas, pois as transformações só se realizam, de maneira
pacífica ou violenta, nos momentos em que as funções psi
atingiram uma fase culminante de percepção da nova realidade que se
aproxima. Trata-se de um caso de precognição coletiva.
Tudo isso ocorre, como vemos, no plano da
vida normal, no processo natural do desenvolvimento de fatos sociais.
Até aqui não intervêm as hipóteses de Carington sobre a existência de
uma parassociologia do intermúndio, ou seja, de um processo de relações
extrafísicas entre entidades psicônicas sobreviventes à morte do
corpo e as criaturas humanas. Ao admitirmos, porém, esse processo
mediúnico de relações passamos a outra série de conseqüências. As
funções psi assumem, nesse caso, importância muito maior, nos termos
da proposição de Mariotti sobre a dialética palingenésica. A
sobrevivência do espírito na forma de entidades psicônicas
proposta por Carington ou na forma mentalista de Price e outros, esta
simples sobrevivência implica novos e muito mais vastos processos de
relação social através do tempo. E a hipótese palingenésica,
conseqüência lógica da hipótese de Carington, oferece-nos então a
perspectiva de uma continuidade histórica que podemos chamar de
conseqüente.
Vejamos as decorrências disso. Se
admitimos, como explicava Ernesto Bozzano, a existência no homem de uma
percepção extra-sensorial e de uma possibilidade, também, de ação
extrafísica, é evidente que admitimos a sua natureza transcendente.
Rompemos a concepção organocêntrica a que continuamos apegados após o
rompimento da concepção geocêntrica. De certa maneira a tendência
centralizadora do pensamento, que foi superada pelo heliocentrismo no
plano cósmico, refugiou-se no organocentrismo biológico, ou seja,
expulso da Astronomia, escondeu-se na Biologia. A descoberta científica
das funções psi vem atacar essa tendência no seu último reduto,
revelando a possibilidade de vida e de atividades vitais fora dos
organismos físicos. O homem transcende a si mesmo, projeta-se fora das
suas condições imediatas de vida. As estruturas psicônicas vivem
e agem independentemente de seus antigos organismos físicos.
É claro que dessa simples projeção
resultam conseqüências numerosas e da mais elevada significação. Se a
vida humana, como a de todos os outros organismos, não se extingue com a
perda do instrumento orgânico, e se a concepção palingenésica admite a
volta das entidades psicônicas à vida orgânica, desaparece a
solução de continuidade do processo histórico, tanto para os indivíduos
que dele participam quanto para as coletividades. O agora
existencial tem importância não apenas agora e não somente para este
indivíduo que o vive, mas também no futuro e para aquele indivíduo que
lá se apresentará, embora noutra forma e noutras condições. Refletindo
sobre isto percebemos o mundo novo de responsabilidades e esperanças que
a dialética palingenésica nos descortina.
O “princípio ainda obscuro” a que se
refere Mannhein torna-se claro diante dos resultados ainda incipientes
da investigação parapsicológica. As relações sociais formam um contexto
muito mais amplo do que o visível no plano material. A Sociologia do
Conhecimento só poderá penetrar além do contexto visível quando levar em
consideração a existência das relações psi e o fato da sua
importância básica para o desenvolvimento da cultura. As transformações
sociais e culturais mostram-se regidas, à luz da Parapsicologia, por
leis psíquicas ainda desconhecidas, mas que já se tornaram acessíveis à
pesquisa cientifica. Psi pode encerrar o segredo dos fatores
obscuros que precipitam as revoluções culturais e políticas.
Compreendemos melhor esse problema quando
nos lembramos da tese gestáltica de que não vivemos na realidade
concreta, mas numa realidade psíquica. O nosso mundo – o mundo humano
das relações sociais – não coincide com o mundo físico. Todos os
psiquiatras e psicoterapeutas sabem quanto têm de lutar para integrar
seus clientes até mesmo na factícia realidade social, que na verdade é
psicológica.
Vivemos no mundo dos nossos anseios, das
nossas ilusões, das nossas esperanças e dos nossos desesperos muitas
vezes sem razão. Essa imensa rede psíquica estendida sobre a realidade
física é regida por suas próprias leis que, em geral, independem das
leis físicas no processo da dinâmica social.
Rompida com a prova científica da
existência das funções psi a concepção organocêntrica da vida, a
tendência egocentrista do homem sofre a sua última derrota no campo da
Filosofia e da Ciência. O orgulho humano, que na sua futilidade fizera
do nosso planeta o centro do cosmos, e posteriormente da nossa forma
animal de vida o centro do psiquismo, a única possibilidade de
manifestações vitais inteligentes, foi abatido no seu último reduto.
Psi abre as portas do mundo extrafísico, segundo afirmou Rhine, e
completa a revolução da Física Nuclear revelando a outra face do cosmos,
até agora apenas vislumbrada pela intuição filosófica, artística e
religiosa.
Ao fazer isso psi transfere o
problema humano do temporal para o atemporal, para a duração. O conceito
estático de eternidade não seria admissível, a menos que aceitássemos a
imobilidade aristotélica. Na duração o dinamismo psíquico se apresenta
em sua plenitude, como o revelam as experiências parapsicológicas,
superando todas as barreiras conceptuais de espaço e tempo. Temos então,
aquele universo pleno de deuses de que falava Tales, não no
sentido greco-mitológico mas no sentido psi, ou seja, da
existência de entidades psíquicas além de todas as nossas possíveis
barreiras. É claro que essa conseqüência lógica de psi não poderá
ser cientificamente demonstrada senão no futuro, com o avanço da
investigação além das próprias barreiras físicas do método quantitativo.
Mas teoricamente ela se impõe desde já, desde o momento em que, como num
passe de mágica, dentro das próprias condições rigorosas da investigação
de laboratório, as cartas Zener e os dados de Rhine abriram a
primeira brecha na concepção física do Universo.
Colocados, assim, diante daquela realidade
extrafísica que Carl Du Frei chamava outro lado da vida,
verificamos imediatamente algumas conseqüências para as relações
sociais, da mais alta importância filosófica, política e econômica. Na
primeira dessas ordens, a filosófica, temos a reafirmação prática do
princípio teórico da liberdade. Os experimentos de precognição
parecem contrariar esta dedução, revelando uma estrutura determinista do
processo existencial. Essa primeira impressão decorre da nossa prisão
conceptual, nos limites de tempo e espaço. A precognição, se de
um lado revela a existência de um determinismo na seqüência dos eventos,
de outro lado demonstra a possibilidade de penetração da mente nesse
determinismo e conseqüentemente a sua possibilidade de ação sobre ele. A
mente não é apenas espectadora passiva dos acontecimentos, mas a
modeladora e condutora destes. Esse fato se patenteia particularmente
nas experiências de telepatia precognitiva, onde se verifica, como nas
observações de Carington, que o pensamento deflagra uma ordem causal ou
sincrônica de eventos. É o caso das estruturas psicônicas ou das
estruturas mentais, em que o percipiente consegue penetrar descobrindo
os elementos não-revelados que constituem todo um plano de
experimentação.
O princípio de liberdade, tão limitado no
plano existencial, mas que assim mesmo serviu para a definição sartreana
da essência do homem como sendo a própria liberdade, reafirma-se e
amplia-se nessa outra face do existencial que é a existência extrafísica,
em termos de psi. Domínio do espaço e do tempo, ação da mente
sobre a matéria e sobre a estrutura determinista dos eventos
extrafísicos: são estas as características da liberdade psíquica muito
mais ampla e fecunda que a liberdade humana do plano temporal. A mente é
livre de penetrar o espaço e o tempo em todos os sentidos – do que
podemos ter a nossa experiência comum através do pensamento – e livre
para se determinar a si mesma e determinar a cadeia de eventos que lhe
convém ou não desencadear. Não temos apenas a reafirmação, mas também a
ampliação do princípio de liberdade.
A seguir, na ordem política – que também
se abre para as perspectivas místicas da polis celeste – temos a
reafirmação e a ampliação do princípio de igualdade. Os homens já não
são iguais somente perante a lei, no plano dos direitos convencionais,
mas também e sobretudo perante a sua funcionalidade, a sua função na
ordem cósmica. A igualdade humana rompe as comportas do
convencionalismo, supera os conflitos do organocentrismo – provenientes
da extrema variabilidade orgânica no plano étnico – e projeta-se como
realidade extrafísica, superando o existencial (que no caso se apresenta
simplesmente como o circunstancial) para afirmar-se como essencial. Os
homens são essencialmente iguais, como o comprova a observação de suas
possibilidades mentais, intelectuais e emocionais (ou estéticas) na
própria observação comum. A natureza mesma das funções psi, como
manifestações de um psiquismo primitivo comum aos animais e ao homem,
revelando apenas graduações evolutivas, demonstra a igualdade psíquica
fundamental como potencialidade sujeita às mesmas leis e aos mesmos
processos de atualização, de maneira universal.
Assim como no plano biológico o recém
nascido é potencialmente igual ao adulto, no plano psíquico a igualdade
potencial se apresenta válida, e ainda mais, enriquecida pela
irredutibilidade e a irreversibilidade do psiquismo. As experiências de
psi com retardados mentais demonstrou que a atrofia psíquica é
apenas decorrente das deficiências orgânicas do plano físico, podendo os
retardados, como os psicopatas em geral, exercer suas funções psi
tão bem ou melhor que os indivíduos normais.
No tocante à economia, psi nos
arranca da infra-estrutura material como o mineiro que arrancasse
minérios das entranhas da terra para convertê-los em utilidades da
superestrutura cultural. A economia de psi não é simplesmente
econômica, mas ético-econômica. Nesse novo plano da ético-economia
nossos conceitos se elevam acima da matéria e da energia, para
atingirem, além do que conhecemos comumente por psiquismo, a área de
psi propriamente dita. Nessa área temos uma superestrutura de
funções psíquicas onde a fraternidade se apresenta como lei. As
experiências parapsicológicas revelam a inviabilidade de psi
entre pessoas que não se estimam. A simpatia é condição básica para a
sintonia mental e psíquica que produz os resultados significativos na
experimentação de laboratório. Simpatia, sintonia, harmonia, eis os
termos que nos podem abrir as portas da concepção ético-econômica do
Universo, reafirmando e ampliando o princípio da fraternidade.
Dessa maneira vemos que psi nos
aparece como a seqüência lógica do processo histórico do Cristianismo. A
revolução cristã, que minou a estrutura de injustiças do mundo clássico
e preparou o advento do mundo contemporâneo através do Renascimento e da
Revolução Francesa, renova-se e amplia-se na conquista desta nova
concepção do homem e do mundo que a Parapsicologia nos propõe. Não nos
esqueçamos de que, segundo Wilhelm Dilthey e Whitehead, o milênio
medieval não foi mais do que a preparação do Renascimento, predispondo o
homem para a volta à cultura clássica, mas através do enriquecimento
conceptual do Cristianismo. Psi prossegue essa revolução ao
provar cientificamente a transcendência do homem.
Estamos no fim de outra fase de preparação
histórica. O processo dialético se evidencia novamente: à fase teológica
do medievalismo (com acentuação metafísica) sucede a fase positiva da
era científica. Aquela preparou o advento da razão, esta prepara o
advento da intuição. Às formas fragmentárias – porque racionais,
analíticas, da percepção e do conhecimento – sucedem-se as formas
gestálticas da percepção intuitiva que proporcionam o conhecimento
global. Passamos da tese teológico-metafísica à antítese
científico-positiva, e desta à síntese psicológica que se inicia com as
investigações da Parapsicologia. Aos três estados da lei positivista de
Augusto Comte o Professor Rhine acrescenta o estado psicológico,
com a descoberta científica das funções psi, repetindo o gesto de
Kardec em abril de 1868, como se pode ver na Revue Spirite.
O Cristianismo é uma revolução em marcha.
Sua finalidade é instituir na Terra o Reino de Deus. O manifesto do
Reino é o Sermão da Montanha. Mas como chegar à realização desse
manifesto na ordem social, quando nos afastamos do seu princípio básico
que é a natureza espiritual do homem? A partir da pregação de Jesus a
revolução cristã se desencadeou. Não demorou muito e punha abaixo o
mundo clássico greco-romano para iniciar uma nova ordem. Essa nova ordem
começava por um longo processo histórico de fusão conceptual. Daí o
caldeirão medieval de que fala Dilthey, em que a concepção
greco-romana do mundo se fundiu lentamente com a concepção judeu-cristã.
Arnold Toynbee coloca o problema em termos de física ondulatória: fusão
da onda grega com a onda siríaca.
Victor Hugo já o dissera, no prefácio de
Cromwell: “Uma religião espiritual, suplantando o paganismo
material e exterior, se infiltra no coração da sociedade antiga, mata-a
e sobre o cadáver de uma civilização decrépita depõe o germe da
civilização moderna”. Nada mais claro e mais preciso. O Cristianismo se
infiltra na velha estrutura minando-lhe os alicerces. Quando sopra a
tempestade bárbara o Império não resiste. Mas em meio à ruína total
alguma coisa se mantém firme e vai dirigir o caos; é a estrutura
político-religiosa da Igreja, que se apresenta como síntese formidável
das conquistas do passado. Encarna a estrutura imperial romana, o
monoteísmo judaico e o politeísmo mitológico, a dogmática do mosaísmo e
o racionalismo grego, o direito romano e a mística evangélica.
Delta histórico em que deságuam e se
misturam os rios das diversas civilizações, o Cristianismo é o momento
de sístole da evolução humana. Por isso mesmo se apresenta terrível e
contraditório. É o point d'optique da expressão hugoana, em que
“tudo o que existe no mundo, na história, na vida, no homem, tudo pode e
deve ali se refletir, mas sob a vara mágica da arte”. O desespero
judaico e o trágico grego se misturam à esperança cristã da salvação, e
dolorosamente se funde a concepção romântica do mundo que florescerá na
galanteria cavalheiresca e eclodirá em frutos no Renascimento. A Reforma
e a Contra-Reforma assinalam o momento da diástole histórica do
Cristianismo, o conflito fecundo em que o germe se rompe para que a
germinação se realize. Morre o grão de trigo, segundo a expressão
evangélica, para multiplicar-se na colheita futura.
A civilização contemporânea é ainda um
momento da diástole. Mas os sinais da sístole já são visíveis. Na
diástole o Cristianismo alienou-se, fragmentou-se e perdeu-se no mundo.
Mas o fez para conquistá-lo. Na verdade ele apenas continuou a
infiltrar-se nas estruturas arcaicas, mas agora para apossar-se delas,
dominá-las e fundi-las preparando o Reino de Deus. O racionalismo nos
deu as Ciências, que superaram as superstições mitológicas e quiseram
reduzir o mundo a uma equação matemática. O homem se transformou em
número – não o fecundo número pitagórico, mas a fria e estéril cifra do
economismo utilitarista – e esse número passou a existir em termos de
soma, multiplicação, subtração e divisão. A qualidade desapareceu
alienada na quantidade. Mas como a qualidade é substância e a quantidade
é apenas atributo, a primeira voltará a se impor.
A sístole cristã é o momento de volta à
qualidade, à essência, ao Ser, ao homem como homem e não como número, ao
homem como espírito e não como acidente biológico. O racionalismo se
salva da alienação quantitativa superando suas próprias limitações
através do avanço científico. É por isso que o rompimento da concepção
física do mundo se verifica no próprio campo da Física: os números se
opõem ao homem e o definem como o antinúmero, da mesma maneira por que o
mundo, na concepção sartreana, se opõe à consciência e a define como
não-mundo. Nas ciências psicológicas esse fato se patenteia de maneira
dramática através das experiências quantitativas da Parapsicologia. O
método fragmentário conduz à reunificação do objeto, as provas
quantitativas reafirmam a qualidade una do psiquismo. Isso é o que
permite a Rhine proclamar que a Parapsicologia devolve à Psicologia o
seu objeto perdido.
É assim que vemos o retorno do homem a si
mesmo através da descoberta parapsicológica de suas funções psi.
Torna-se agora possível, não apenas em sentido individual, mas no
sentido coletivo, obedecer à ordem do Oráculo de Delfos – ”conhece-te a
ti mesmo”. Psi, essa espécie de mistério moderno, racionalmente
definido por uma letra grega, surge como nova esfinge no caminho de
Édipo. Por isso muitos a temem, outros zombam dela, outros querem
negá-la, outros reduzir a sua significação ao mínimo possível e outros,
ainda, simplesmente desviá-la do caminho. Mas eis que ela está aqui,
diante de nós, irremediável e irrevogavelmente. Não há como escapar ao
seu fascínio. Denis de Rougemont disse que o Cristianismo primitivo
aprendeu a falar grego para cumprir sua missão universal. O mundo
moderno será espiritualmente alfabetizado por uma letra grega.
A importância de psi, como se vê, é
fundamental para o momento de transição que estamos vivendo. A
demonstração científica da natureza espiritual do homem, ainda apenas em
início, mas já suficientemente realizada pela investigação
parapsicológica, abre a possibilidade de interpretação cientifica dos
princípios evangélicos. Surge, não somente no plano da cogitação
filosófica, mas na polaridade teórico-prática das ciências modernas – a
hipótese parapsíquica como potência atualizada na experimentação – a
possibilidade de construção de uma civilização do espírito que superará
as limitações da civilização materialista do presente. O homem-cósmico
da astronáutica é também o homem-psíquico das funções psi. E é
graças a essa verdadeira ação de pinça – o ataque sincrônico através da
Física e da Psicologia – que o arcabouço materialista cederá mais rápido
do que o supõem os seus defensores.
O mundo consciencial ou a República dos
Espíritos que René Hubert proclama, na corrente neokantiana do
relativismo-crítico, já não se assemelha à República de Platão mas a um
resultado fatal do processo dialético hegeliano. Este processo, por sua
vez, revela a sua mola oculta, que o Marxismo e o Existencialismo
sartreano ignoraram: é o elã vital bergsoniano em trânsito psíquico
através das formas orgânicas. A Parapsicologia animal revela a
identidade psíquica do reino biológico, quebrando mais uma vez a
aparente dicotomia cartesiana. As funções psi dos animais se
elevam no plano hominal, onde a conquista e a elaboração da razão as
enriquecem, predispondo-as à criação do novo tipo de racionalismo com
que precognitivamente sonharam os escolásticos: o
racionalismo-fideísta, signo sob o qual se desenvolverá a
civilização do espírito.
Mas o que podemos entender por esse tipo
de civilização? O racionalismo-fideísta é a síntese da razão e da fé, a
unificação do espírito. O homem dividido reencontra a sua metade
perdida, segundo o mito platônico. O amor então se realiza na plenitude
do espírito. Se o homem racional era incerteza e desespero, conquista e
ganância, em oposição ao homem de fé, que era acomodação e espera,
mortificação e medo, o novo homem espiritual será compreensão e
esperança, na percepção intuitiva das suas potencialidades, o que vale
dizer da sua perfectibilidade. O desabrochar das funções psi o
terá sobrelevado às contradições da dialética evolutiva.
Não se trata de um simples sonho, pois são
as próprias investigações científicas que abrem essas perspectivas para
o nosso século. Estamos no limiar de um mundo renovado pelo poder do
espírito, que é o construtor das civilizações.
A investigação das funções psi tem
as conseqüências inevitáveis de um mergulho nas profundezas do
psiquismo. Alguns parapsicólogos de tipo fanaticamente científico não
querem reconhecer esse fato e protestam contra as ilações de Rhine no
campo das conseqüências morais, sociais, políticas e ideológicas da
Parapsicologia. Mas o que mais valoriza o trabalho de Rhine e seu grupo
é exatamente a amplitude de vistas que o caracteriza. Rhine não é apenas
um pesquisador, é também um pensador. E um pensador capaz de tratar os
resultados de suas experiências não apenas de maneira matemática e
lógica, mas também emocional.
É precisamente nesse ponto que o carro
pega, segundo alegam os seus adversários. Porque um cientista deve ser
frio, racional e não emotivo. Deve ser sobretudo positivo, não passar
além daquilo que os dados da experiência objetivamente oferecem ao seu
exame. Essa é a mentalidade típica do mecanicismo. O cientista
apresentado como uma espécie de robô, de homem metálico que
abdica da parte fundamental de sua natureza humana para funcionar como
diafragma de máquina fotográfica. Rhine não é assim nem deseja parecer
assim. Como Einstein, tem a coragem de sentir febre diante das
conclusões da sua pesquisa.
Em seu livro The Reach of the Mind,
apresentando os resultados de mais de quinze anos de investigação,
começa por colocar o que chama, com muita razão, “o problema central do
homem”. Sua primeira frase é socrática: “Vós e eu, os seres humanos, o
que somos?” E ele mesmo responde: “Ninguém o sabe”. A seguir exclama: “É
quase incrível essa ignorância do conhecedor a respeito dele mesmo!”
Sim, porque o homem é um conhecedor insaciável que estende a sua
curiosidade em todas as direções, que tudo conquista e domina, menos a
si mesmo. O que leva Rhine a advertir: “Os historiadores do século XXI
ficarão assombrados ao constatarem que o homem demorou tanto em
concentrar as suas investigações sobre o problema da sua própria
essência”.
Mais assombrados ficarão ao se lembrarem
de que Sócrates já proclamava a necessidade do conhecer-se a si mesmo
antes do conhecer o mundo. A pesquisa científica de psi
não pode, por isso, limitar-se à zona periférica das percepções. Deve
aprofundar-se, como o faz Rhine, em termos de estrutura e essência.
Inútil criticá-lo por isso. O processo de investigações psi, uma
vez desencadeado, terá forçosamente de prosseguir até às suas últimas
conseqüências. E as últimas conseqüências, tanto na prática científica
quanto na cogitação filosófica, tanto na experiência quanto no
pensamento – na ordem empírica e na racional – são sempre de sentido
moral.
Rhine acentua este aspecto contraditório
do nosso tempo: enquanto nas Faculdades de Teologia preparam-se jovens
pregadores instruídos em velhos princípios de fé, nas Faculdades de
Medicina, a poucos metros de distância das primeiras, formam-se jovens
médicos instruídos nos princípios da descrença. E ambos, o sacerdote e o
médico vão operar no meio social, muitas vezes encontrando-se aos pés do
mesmo leito, cada um com sua verdade particular, oposta e irredutível à
verdade do outro. O mesmo enfermo, entretanto, aceita e ajusta as duas
verdades diante dos dois perigos que enfrenta: o da morte e o da
sobrevivência.
A incapacidade da Ciência para provar que
o homem é apenas corpo só encontra equivalente na incapacidade da
Religião para provar que o homem é espírito. Nada mais justo que nessa
situação de conflito insanável o Existencialismo sartreano nos proponha
a moral da ambigüidade. Moral, aliás, que antes de sua formulação por
Simone de Beauvoir já superava na prática os antigos padrões morais
derruídos ao impacto das transformações sociais e culturais. Acusado de
espiritualismo, no sentido de preconceito prejudicial à investigação
científica, Rhine responde com a colocação das cartas na mesa. Literal e
efetivamente é essa a sua atitude. As cartas e os dados sobre a mesa
para que o problema seja solucionado nos termos da evidência cartesiana.
No final de The Reach of the Mind
declara serenamente: “Se as futuras descobertas excluírem toda
possibilidade de aceitação da hipótese da sobrevivência podemos
antecipar, com segurança, que o desaparecimento das teorias de toda a
espécie sobre a ressurreição não seria mais lamentável que o da
existência dos antigos anjos alados, ou o da velha doutrina do enxofre
entre os intelectuais das escolas teológicas de hoje”. As conseqüências
morais que Rhine pretende tirar da investigação de psi não são de
ordem espiritualista ou materialista, mas de ordem real ou verídica. O
que importa não é a posição mental diante dos fatos, mas a realidade das
comprovações. Porque tanto é prejudicial, do ponto de vista científico,
o preconceito espiritualista quanto o materialista. Ambos, como assinala
Ernst Cassirer, acabam por fazer os fatos empíricos deitarem no leito de
Procusto das simples teorias.
A verdade, portanto, e não as suposições –
a verdade que ressalte dos fatos – eis o que importa. E essa verdade,
como o demonstra Rhine, já não admite contradições no estado atual das
investigações parapsicológicas. Quando publicou o livro a que aludimos,
as investigações ainda não haviam atingido o desenvolvimento de hoje.
Mas assim mesmo Rhine podia afirmar que “as experiências de ESP e
Pk demonstram que a mente está livre das leis físicas”. E
acrescentava: “Estas investigações oferecem a única comprovação
indiscutível que pode contribuir para a solução do problema da liberdade
moral”.
A conclusão de Rhine é um anúncio dos
novos tempos. É um programa do Reino, que renova em bases científicas o
manifesto do Sermão da Montanha. A descoberta das funções psi e
de seu alcance oferece bases experimentais para a formulação de uma nova
moral. Não a moral ambígua destes tempos de incertezas e de
contradições, mas a moral positiva dos tempos que já se abrem diante de
nós, a moral apoiada no conhecimento da natureza extrafísica do homem.
Uma coisa é a crença nessa natureza, outra coisa, e bem diversa, é a
certeza científica. Como dizia Denis Bradley: “Afirmar eu creio
não é o mesmo que afirmar eu sei”. Por isso psi se
apresenta no quadro científico do nosso tempo como o resgate moral da
Ciência e, portanto, da razão. A malsinada razão atinge em psi o
momento de afirmar a sua vitória decisiva, superando a si mesma. Dessa
vitória e dessa superação resulta a moral psi que, na
precognição de Rhine, estruturará o novo mundo.
Muitos perguntam o que entendemos por uma
razão que supera a si mesma. Basta olhar para a graduação do processo
racional em nosso mundo para ter a resposta. Vamos da razão da
ignorância à razão da astúcia (a chamada razão diabólica), até à razão
do sábio. Mas acima desta existe a razão do sábio-santo, que é o
verdadeiro sábio, a razão iluminada pela intuição e a fé.
Porque a razão é a experiência vital
dinamizada no espírito em forma de categorias mentais. Essa experiência
e suas categorias dinâmicas se elevam ao plano da intuição e com ela se
fundem na visão global e endopática do todo. A razão que supera a si
mesma é a que rompe os limites sensoriais e se eleva além do tempo e do
espaço nas asas de psi.
Ao estudar as relações de psi com o
problema da crença tocamos inevitavelmente na velha questão da origem
das religiões. O que são as religiões primitivas, senão simples crenças?
Mas de onde provêm essas formas de crença, tão difundidas que tanto as
encontramos nas regiões polares quanto nas zonas tropicais, nas épocas
remotas, reveladas pela paleontologia, quanto na atualidade? Como
sabemos, a tese da chamada antropologia inglesa, a partir de Tylor e
Spencer, é a da excitação da imaginação primitiva pelo mistério do
mundo. Mas há uma tese contrária, além da teológica. É a dos
antropólogos espiritualistas como André Lang, Max Freedom Long, Cesare
de Vesme e Ernesto Bozzano, que situam no plano da fenomenologia
supranormal o problema da crença na sobrevivência.
Particularmente importante, para o estudo
do caso, é o livro de Bozzano, Popoli Primitivi e Manifestazioni
Supernormali, que ainda em 1946 foi reeditado por Edizioni Europa,
de Verona, com introdução de Gastone de Boni. Importante porque Bozzano
apresenta uma sinopse do problema, acrescentando informações valiosas
sobre as investigações de Freedom Long entre as tribos da Polinésia e
enriquecendo o volume com numerosos casos que equivalem a demonstrações
positivas de suas próprias conclusões. Discípulo de Spencer, a quem
presta homenagem no texto, Bozzano chega mesmo a propor uma extensão da
teoria spenceriana, de maneira curiosa mas rigorosamente lógica,
ampliando as proposições sensoriais do mestre no plano da percepção
extra-sensorial.
A unanimidade esmagadora da crença na
sobrevivência por todos os povos do mundo, em todas as fases da
História, bastaria para nos indicar a origem natural dessa crença. A
tese teológica, endossada pela proposição cartesiana da idéia inata de
Deus, não tem condições para enfrentar as exigências científicas
modernas. Mas a tese paranormal ou supranormal de Bozzano enquadra-se
nessas exigências, encontrando possibilidades de comprovação
experimental no campo das atuais investigações parapsicológicas.
Consideradas as funções psi como naturais, como faculdades comuns
da espécie humana, compreende-se que as suas manifestações nos povos
primitivos dessem motivo à crença na sobrevivência. Essa crença, como o
afirma Bozzano, não teve a sua possível origem na simples imaginação –
tanto mais que a imaginação primitiva não parece susceptível de ilações
abstratas dessa natureza – mas na realidade objetiva dos fatos, dos
fenômenos paranormais.
Richet propôs no Traité de
Metapsychique a teoria do condicionamento da percepção
extra-sensorial, à crença. Soal comprovou em experiências de voz
direta, realizadas em Cambridge, a importância desse possível
condicionamento. Mas o fato de haver a sujeição de determinados
fenômenos psi à crença dos sensitivos não nega a validade dos
mesmos. Pelo contrário, esse fato coloca imediatamente o problema da
origem da crença, mostrando a relação direta desta com as funções psi.
O sensitivo católico, por exemplo, que ao perceber uma visão extrafísica
luminosa empresta-lhe as características do santo de sua devoção, ou o
sensitivo espírita que lhe dá a forma de um espírito de pessoa sua
conhecida estão condicionados pela crença. Mas essa crença, por sua vez,
tem um condicionamento de origem, pois surgiu no passado em virtude da
existência dos fenômenos psi e posteriormente se desenvolveu no
processo natural de racionalização das experiências.
Não estamos, é evidente, diante de uma
nova questão de prioridade, semelhante à do ovo e da galinha, porque
neste caso a crença requer um motivo para formar-se. Ao mesmo tempo o
motivo está suficientemente demonstrado na própria investigação
histórica, uma vez que a manifestação do paranormal é um fato histórico
inegável. Assim as funções psi, agora cientificamente
demonstradas, como manifestações de faculdades naturais do homem (e até
mesmo dos animais) modificam a nossa posição diante do problema da
origem das religiões. Essa modificação é de tal importância que vale,
como o demonstrou Bozzano, por uma revisão da escola antropológica
inglesa à luz das novas conquistas da Ciência.
Seria temerário afirmarmos, segundo o
argumento ontológico, que a idéia de Deus nos prova a sua existência
porque corresponde a uma percepção extra-sensorial do Ser
Supremo. Não se pode dizer que psi confirma a Teologia, o que
seria absurdo. Mas é evidente que psi confirma a origem empírica
da crença e conseqüentemente a origem natural da religião. As
conseqüências deste fato são de tal alcance que bastariam para
justificar a investigação dos fenômenos psi. Diante da realidade
extrafísica demonstrada pela Parapsicologia, a posição do homem no
Universo modifica-se fundamentalmente. Já não podemos pensar na vida
humana como uma ocorrência efêmera e sem sentido na ordem natural, uma
vez que ela revela possuir um substrato de natureza transcendente, ou em
última instância ser esse próprio substrato. Assim as aspirações
universais de transcendência do homem impõem-se ao nosso raciocínio com
a força das constatações objetivas.
Este problema nos leva a considerar em
maior amplitude a tese de Rhine referente à polaridade dos fenômenos
psi. Se a percepção extra-sensorial é o pólo subjetivo desses
fenômenos e a psicocinesia é o seu pólo objetivo, então o problema da
crença deixa de ser apenas subjetivo. A posição individual do homem
diante da possibilidade de existência de formas de vida superiores, não
materiais, passa imediatamente para o plano das experiências coletivas.
Explica-se dessa maneira a passagem
histórica da crença, como fenômeno individual, de ordem psicológica,
para o plano social e, portanto, para a ordem lógica. Noutras palavras:
a crença deixa de ser uma posição pessoal da mente diante da experiência
individual para se transformar no processo de racionalização religiosa,
consubstanciando-se nos dogmas de fé. Temos assim a polaridade de Rhine
no plano histórico: a crença como o pólo subjetivo da percepção do
Universo extrafísico e a religião como o seu pólo objetivo, aquele em
que a realidade abstrata se concretiza no plano social.
Lembremos um exemplo. Tales de Mileto
afirmava: “O mundo é pleno de deuses”, ou seja, é cheio de deuses. A
afirmação decorria de uma crença ou de uma visão paranormal? Tales via
os deuses ou apenas aceitava a tradição mitológica? (Deuses eram todas
as entidades espirituais, pois sua condição era divina, superava a
condição humana.) Pelo que sabemos dele, não era um homem de crenças.
Sócrates ouvia o seu daemon ou gênio e contradizia as crenças do
seu tempo. Ambos estavam diante de fatos positivos, de realidades
transcendentes mas objetivas (como são objetivos os elementos abstratos
da Matemática e da Lógica) e revelavam o que percebiam pelos seus
próprios sentidos físicos, os olhos de um e os ouvidos do outro.
Dessa experiência sensorial (pois o
extra-sensório se traduzia em percepções sensoriais) ambos, Tales e
Sócrates, elaboraram novas crenças. A percepção do Universo extrafísico
se traduziu, para ambos, nas formas subjetivas da crença. Mas quando
Tales e Sócrates quiseram concretizar suas crenças no plano social, em
forma de novas religiões, tiveram de enfrentar a reação da religião
dominante.
O problema da polaridade de psi se
torna bem claro nesse exemplo: a crença é o pólo subjetivo do fenômeno
religioso e a religião (como estrutura social) o seu pólo objetivo.
O estudo que procuramos fazer, no capítulo
anterior, das relações de psi com a crença, levou-nos
naturalmente a outro tipo de relações: as de psi como realismo.
Não obstante a ambigüidade do termo, sua origem literária o tem definido
ultimamente como uma posição existencial. O real aparece em nossa
atitude diante do mundo como o aqui e o agora, o presente,
e conseqüentemente o dado imediato ou o amanual de Heidegger.
Assim, realismo é a nossa integração no real, a nossa vivência das
coisas como elas são dadas ao nosso aqui e ao nosso agora,
no espaço e no tempo. Humberto Mariotti, que já citamos várias vezes, ao
colocar o problema das relações entre a Parapsicologia e o Materialismo
Histórico, indica a necessidade de um “realismo espiritual”, que supere
o “realismo marxista”. Este é o problema fundamental do momento e não
pode ser resolvido apenas no campo religioso ou filosófico: terá de
sê-lo no campo científico.
O materialismo marxista não é outra coisa
senão uma atitude realista. Mas qual a realidade encarada pelo Marxismo?
A realidade do dado imediato, mas um dado submetido à elaboração
ideológica, um dado convertido em esquema. A realidade marxista é a da
coisa no seu sentido existencial; a realidade linear de Zola ou o
realismo do objeto, levado à tela pelo cinema italiano. A força desse
realismo está precisamente no seu imediatismo. Contra ele ergue-se o
idealismo religioso e filosófico – essa dupla forma de fuga para
Passárgada – que só pode interessar aos que amam a ilusão e buscam a
utopia, segundo afirmam os chamados espíritos positivos.
Mariotti encara o problema e adverte: “Se
o realismo marxista não for superado por um realismo espiritual que o
supere em tudo, a consciência materialista continuará a se impor, e vãos
serão os protestos dos idealistas e religiosos. As realidades
espirituais, se de fato existem, deverão ser expostas ao homem moderno
com a mesma objetividade dos fenômenos físicos e sociais”. A esta
posição de Mariotti só temos a opor uma objeção: a de que não podemos
dividir a realidade e criar outra forma de realismo esquemático, a
título de espiritualismo. Elaborar um “realismo espiritual” seria opor
um esquema a outro, pura e simplesmente.
Ao provar, como afirma Rhine, a existência
de um universo extrafísico, a Parapsicologia não nos oferece uma nova
realidade mutilada, mas, pelo contrário, propõe-nos o restabelecimento
da realidade total. No campo da Física e da Biologia abrem-se novas
perspectivas para esse restabelecimento, com os progressos da Física
Nuclear, o desenvolvimento da Biônica e da Cibernética. Mas, enquanto
essas novas direções mergulham no imediato, perfurando sem querer o poço
do futuro, emaranhadas na velha concepção materialista, a
Parapsicologia, pelo contrário, rasga deliberada e corajosamente o véu
conceptual do organocentrismo para mostrar o reverso da medalha. Com
isso nos coloca num imediato de duas faces, oferecendo-nos um
novo tipo de realismo com a inevitável polaridade físico-psíquica. É uma
felicidade que na própria União Soviética o Professor Vassiliev, por
exemplo, tenha preferido o estudo das funções psi ao exame das
simples estruturas orgânicas da vida.
As relações de psi com o realismo
foram evidenciadas quando tratamos do problema da origem das religiões.
Do meio-realismo de Spencer vimos Bozzano partir para o realismo total
de Lang e Freedom Long, distendendo as perspectivas teóricas do
organicismo spenceriano na direção do extra-sensorial. Temos aí um
exemplo claro do que psi pode oferecer-nos, no tocante à
superação do realismo marxista. Embora essa superação esteja sendo
feita, como já vimos, de maneira histórica e, portanto, irreversível, em
todas as zonas ontológicas do objeto, pelas várias Ciências que alargam
as suas possibilidades de investigação, somente a Parapsicologia realiza
o avanço conceptual necessário.
Podemos dizer que de certa maneira a
natureza analítica das Ciências continua fiel a si mesma nesta hora de
transição cultural. As Ciências procedem por unidades, partindo da
análise do átomo para a análise das moléculas e das células, nesse
esmiuçamento típico da experimentação materialista, da investigação
sensorial. A Física descobre o reverso do átomo; a Biologia, a
contraparte da célula; a Química, a face oculta da molécula. Mas a
Psicologia, ampliando-se nas áreas marginais da investigação
parapsíquica, retorna inevitavelmente à sua natureza filosófica ao
defrontar-se com a realidade de psi e constatar a impossibilidade
de seccionar novamente o imediato. Essa exigência lógica de
enfrentar o todo de maneira gestáltica faz da Parapsicologia uma
espécie de Renascença Psicológica. Como acentua Rhine, a Psicologia
volta ao seu objeto perdido – a alma – e o faz da mesma maneira por que
o Quatrocento italiano voltou à cultura clássica, ou seja,
procurando compreendê-la de novo em maior profundidade.
O realismo de psi não é nem pode
ser apenas psi. Felizmente isso parece bem compreendido pelos
principais parapsicólogos que não pretendem fazer das suas investigações
o abre-te sésamo do conhecimento total, mas pretendem apenas
conquistar o terreno esquecido, a terra de ninguém que se estende aos
lados do nosso saber científico. O simples fato de considerar-se a
Parapsicologia como disciplina complementar, de natureza efêmera,
destinada a sondar as áreas paralelas ao campo da Psicologia, revela a
sua humildade. A importância das pesquisas parapsíquicas não está na
teoria ou no ato em si das pesquisas, mas nas conseqüências que delas
advêm.
Opor, não ao realismo marxista, mas a
este, ao positivismo, ao materialismo e ao existencialismo sartreano uma
forma nova de realismo é a missão da Parapsicologia. Para tão grande
feito não necessita ela de se transformar numa ciência autônoma, nem de
gerar uma nova filosofia. Basta-lhe a glória humilde de provar, como o
está fazendo, através dos próprios métodos de investigação do
materialismo, a existência de outro componente da realidade,
negligenciado pelo imediatismo. Quando essa tarefa estiver cumprida as
pretensões atuais da Biônica e da Cibernética, que se desenvolvem nos
rumos de uma concepção mecanicista da vida, tendente a fazer do homem
uma espécie de robô cósmico, estarão frustradas naturalmente. Mas
a contribuição de ambas para o aclaramento dos problemas científicos
será tão importante, na medida dos respectivos limites, quanto a da
Parapsicologia.
Ao integrar o realismo ou a concepção
realista do mundo na sua totalidade, com a junção do psíquico ao físico,
como duas faces de um mesmo rosto, psi terá aberto as portas de
um novo mundo. O real não será mais o simples imediato e o objeto
apresentará, na sua perspectiva ontológica, a dupla realidade de que se
constitui. Psi nos dará o realismo total da conjugação
espírito-matéria, essa polaridade universal a que o realismo imediatista
do século procura fugir.
Porque é em vão que o homem se esquiva à
realidade ontológica do seu próprio existir. A sua realidade não
está na existência, mas no ser que gera e determina o existir.
Heidegger, que considera o problema do ser como o único problema
realmente filosófico, só tratou da existência como um meio de atingir a
realidade ontológica e mergulhar na verdade ôntica. A pesquisa
parapsicológica tem um procedimento heideggeriano: a finalidade do
seu método quantitativo é a qualidade. Os signos das cartas Zener e
os números dos dados de Rhine são instrumentos de manifestação do poder
do espírito no plano material da pesquisa científica. A captação
quantitativa desse poder, fragmentariamente manifestado nos processos de
investigação, conduz ao realismo ontológico em que o conhecimento se
integra na plenitude da realidade vivencial, constituída pela polaridade
espírito-matéria.
Interessam os fenômenos psi, e mais
particularmente as funções psi, ao estudo da Medicina e ao
preparo dos médicos? Jan Ehrenwald, em artigos publicados na revista
American Journal for Psychoterapy, em outras publicações
especializadas e por último no seu livro New Dimensions of Deep
Analysis, acentua o seguinte: “As implicações de psi, como
revelação de um novo aspecto da mente humana, têm tamanho alcance que
reclamam a revisão e a recolocação de numerosos pressupostos teóricos
relativos à estrutura da personalidade, às relações psicossoma, à
localização cerebral e à natureza do nosso mundo perceptivo em geral”.
Nesse curioso livro Novas Dimensões da
Análise Profunda, Ehrenwald coloca os problemas de psi no
quadro de suas observações e experiências da clínica psiquiátrica,
relatando casos e revelando as relações de psi com as estâncias
psicanalíticas da personalidade. Esses estudos são revalidados pelas
experiências e pesquisas de Eisenbud, Paderson-Krag, Ullman, Fodor,
Joost Merlok, Gillespie e outros. O Professor Rhine, em O Novo Mundo
da Mente, dedica um capítulo ao estudo das relações entre a Biologia
e a Parapsicologia, advertindo: “Seria difícil medir a importância das
conseqüências de psi num campo tão vasto como o da Biologia”.
Noutro trecho, Rhine acentua: “As investigações parapsicológicas,
através de seus métodos experimentais, penetrou no nível inconsciente da
personalidade, muito além da profundidade atingida pelas explorações
clínicas da Psiquiatria”.
As investigações de psi no mundo
animal e as relações de psi com o estado e as funções
fisiológicas de organismos animais e humanos são outros campos de
investigação que, devidamente aprofundados, desembocam no delta das
Ciências Médicas. Robert Amadou, em seu livro La Parapsychologie,
ensaio histórico e crítico sobre as investigações de psi,
declara: “A tendência contemporânea da Medicina de considerar o homem em
sua totalidade e não descuidar, nem no diagnóstico nem na terapêutica,
nenhum de seus elementos constitutivos, não lhe permite descartar-se dos
fenômenos psi. A Medicina psicossomática ou córtico-visceral terá
de utilizar o conhecimento dos fenômenos parapsicológicos tanto na
etiologia das enfermidades como nas relações entre o médico e o
enfermo”.
Os dados mais recentes da investigação de
psi nos Estados Unidos, na Europa, na Rússia e mesmo na Argentina
mostram cada vez mais a importância da Parapsicologia como vigorosa
contribuição científica ao esclarecimento dos problemas médicos. As
experiências de Vassiliev em Leningrado, em posição contrária à de Rhine
na Duke University quanto à interpretação ideológica, não
obstante confirmam e ampliam as perspectivas de psi no campo das
relações psicossomáticas. A afirmação corajosa de Rhine de que psi
demonstra a existência de um elemento não-físico no ser vivo serviu em
parte para afastar da Parapsicologia os materialistas, mas as
conseqüências de seus trabalhos práticos fizeram o contrário. As
investigações da telepatia à distância, que obtiveram êxito, levaram os
cientistas americanos e russos, empenhados na conquista do Espaço, a se
interessarem seriamente pelas possibilidades cósmicas de psi, por
suas possíveis aplicações na aludida conquista.
A própria Medicina espacial está hoje
vivamente interessada nas investigações parapsicológicas. Diante dessa
situação geral assume a importância de uma atualização do ensino médico
no Brasil o projeto de lei encaminhado pelo deputado Campos Vergal, na
Câmara Federal, instituindo cátedras de Parapsicologia em nossas
Faculdades de Medicina. Consideramos que o projeto necessita de várias
adaptações e correções, mas não há dúvida que representa um passo
concreto no sentido de fazer-se alguma coisa de prático nessa direção.
Ao que parece a proposição foi encarada como de segunda importância e
até mesmo como simples tentativa de interferência de um mundo estranho –
o mundo das crenças espiritualistas – no campo fechado das Ciências
positivas. Nada mais justifica essa posição retrógrada diante de um
problema científico que se encontra na maior evidência em todo o mundo
civilizado. Os grandes centros universitários mundiais estão hoje
empenhados no estudo e na investigação dos fenômenos psi, e isso
nas duas áreas em que se divide o nosso mundo em conflito, a capitalista
e a socialista.
Tivemos ocasião de abordar o problema das
implicações de psi na Medicina em palestras pronunciadas em
centros acadêmicos de nossas Faculdades de Medicina. Os debates que
seguiram às palestras revelaram, ao mesmo tempo, o inteiro
desconhecimento do problema pela maioria dos estudantes e a hostilidade
da maioria dos médicos presentes à interpretação parapsicológica de
fenômenos paranormais indiscutivelmente entranhados no campo da
Medicina, como os do caso Arigó. A posição geral de médicos e estudantes
não revelava uma atitude científica, mas uma atitude determinada por
velhos preconceitos e conseqüentemente defensiva, como se a
Parapsicologia constituísse uma espécie de ameaça à integridade das
Ciências Médicas da atualidade.
Não obstante, o simples fato de ter havido
convites para as palestras, a manifestação interessada de numerosos
estudantes e de alguns médicos presentes revelam que nem mesmo a citação
enfática do caso Arigó consegue criar uma barreira intransponível. Isso
demonstra que há uma área favorável ao exame do problema. Aliás, após a
publicação da primeira edição deste livro três cursos de Introdução à
Parapsicologia foram dados pelo Instituto Paulista de Parapsicologia nas
três Faculdades de Medicina existentes em São Paulo (capital), por
iniciativa dos respectivos Centros Acadêmicos.
Nunca será bastante insistir neste
assunto. Porque é evidente que estamos num momento decisivo da História
em que a mente humana, através das concepções científicas inclusive no
campo até há pouco irredutível da própria Física, depara com novas
perspectivas para a compreensão do mundo e do homem. Não devemos
permitir que num terreno da mais alta importância como o da Medicina
essas perspectivas sejam afastadas, com inegáveis prejuízos para o nosso
avanço cultural e a nossa atualização científica. Psi, como
afirmou Amadou, não pode mais ser ignorada ou subestimada pelas
Faculdades de Medicina.
O campo da Psicoterapia, em todas as suas
variantes, é amplamente iluminado pelas pesquisas parapsicológicas. Não
se pode mais admitir, como afirmam Rhine e Pratt (Parapsychology,
1962) qualquer confusão entre estados psicopatológicos e manifestações
paranormais. O médico de hoje deve saber distinguir com precisão entre
uma coisa e outra ou estará irrevogavelmente atrasado no campo de sua
profissão.
Além da importância já proclamada dos
fenômenos psigama na Psicoterapia em geral, Rhine e Pratt
acentuam, face às últimas observações de médicos-parapsicólogos, a
significação de psikapa (fenômenos físicos) na Biologia e na
Medicina. Os casos de Medicina popular paranormal, como o de Arigó,
encarados sumária e preconceituosamente pela maioria dos médicos,
revelam, em nosso país e nos demais (Veja-se o caso Edgard Cayce nos
Estados Unidos) a necessidade urgente do ensino da Parapsicologia em
Medicina.
Os domínios da Parapsicologia são um
enclave no vasto império do Espiritismo: um pequeno território autônomo,
recortado pelos cientistas no campo da imensa fenomenologia espirítica.
Os livros de Parapsicologia, por isso mesmo, costumam citar o
Espiritismo e os fenômenos espíritas como antecedentes dessa nova
Ciência. Um exemplo típico desse procedimento é o livro do Professor
Ricardo Musso, do Instituto Argentino de Parapsicologia, que traz o
expressivo título: En los limites de la Psicologia, mas seguido
de um subtítulo bastante significativo: Desde el Espiritismo hasta la
Parapsicologia.
Para os psicólogos que, tendo à frente o
Professor Joseph Banks Rhine, da Universidade de Duke, reiniciaram as
pesquisas metapsíquicas neste século, dando-lhes nova orientação sob
esse novo nome, o Espiritismo representa uma fase antiga e superada do
trato com o paranormal. É o passado. E com ele a Metapsíquica, cujas
experiências e investigações estão sendo submetidas a rigorosa e penosa
revisão. As relações entre o Espiritismo e a Parapsicologia não são,
portanto, amistosas, como pensam geralmente espíritas e não-espíritas.
Pelo contrário, têm sido até bastante ásperas, pois os parapsicólogos
não desejam qualquer confusão entre os dois campos. O enclave
científico, orgulhoso como um Principado de Mônaco, retém ciosamente
o que conseguiu conquistar do vasto império que o rodeia e ameaça
desmantelá-lo por completo no futuro, se os espíritos puderem ser
eliminados.
A tese parapsicológica é a seguinte: O
Espiritismo surgiu em virtude de interpretações apressadas de fenômenos
desconhecidos. Escapando ao controle das Ciências, esses fenômenos
ofereceram larga margem à crendice humana. Depois surgiu a Metapsíquica,
pretendendo colocar o problema nos devidos termos. Mas essa Ciência
também se perdeu no emaranhado dos fenômenos paranormais, avançando
demasiado rapidamente nas suas investigações. Agora a Parapsicologia tem
de repor tudo novamente em seus lugares. E isso sem pressa, sem
precipitar conclusões, avançando devagar e com a mais absoluta
segurança, que o terreno é traiçoeiro.
A tese espírita é bem outra. Tentemos
resumi-la: A Metapsíquica e a Parapsicologia representam esforços
científicos para a explicação dos fenômenos espíritas. Louváveis
esforços que farão os homens de ciência compreenderem a verdade do
Espiritismo, dando-lhes uma visão mais ampla e mais bela da vida
universal. Não importa que a Parapsicologia rejeite o Espiritismo e até
mesmo o despreze. O que importa é que ela prossiga nas suas
investigações, pois estas a levarão fatalmente ao reconhecimento da
realidade espiritual. Como o Espiritismo não quer outra coisa para todos
os homens, a existência desse pequeno e orgulhoso enclave científico, no
seu território, longe de incomodá-lo, só pode dar-lhe satisfações.
Mas nem todos os espíritas entendem essa
tese. Alguns pensam que a Parapsicologia é apenas uma nova denominação –
orgulhosamente dada pelos cientistas, com o fim exclusivo de fugirem à
verdade – ao vasto império do Espiritismo. Outros chegam a temer que os
espíritas, fascinados pelo brilho aparente e a prosperidade desse
Principado de Mônaco, acabem se perdendo no pano verde das suas cartas
de baralho e dos seus jogos de dados. Ficam indignados quando vêem
espíritas militantes entregarem-se a atividades parapsicológicas. E
outros, ainda, certamente os mais felizes e ingênuos – que ganharão o
Reino dos Céus – entendem que todo parapsicólogo é um espírita
disfarçado de cientista para minar e sabotar o edifício das ciências
materiais.
Como vimos no confronto das duas teses, a
aspereza existente nas relações entre o Espiritismo e a Parapsicologia
decorre apenas da falta de compreensão. Se os parapsicólogos abdicassem
dos seus preconceitos positivistas ou pragmatistas, e se os espíritas,
por sua vez, abdicassem dos resíduos de dogmatismo que ainda alimentam,
essas relações seriam as mais amistosas e compreensivas. É o que,
felizmente, já vem ocorrendo em várias áreas. Na Alemanha, na
Inglaterra, nos Estados Unidos e aqui mesmo, no Brasil, alguns
parapsicólogos e espíritas já aprenderam a dar-se as mãos, jogando fora
os seus preconceitos e os seus possíveis temores.
Tanto a Parapsicologia quanto o
Espiritismo objetivam exclusivamente a descoberta da verdade sobre a
natureza humana. Aquela realiza o seu trabalho no campo das Ciências
positivas, servindo-se dos métodos a elas inerentes; este o faz no campo
das Ciências culturais, servindo-se também da metodologia específica. O
Espiritismo surgiu de um processo de síntese do conhecimento: a
conjugação das experiências científicas e religiosas do homem, num
momento exato de fusão, permitiu o aparecimento de uma concepção nova,
de natureza global, para o estudo dos problemas humanos. Por isso,
Kardec afirma que o Espiritismo é uma Ciência, mas que trata
especificamente do elemento inteligente do Universo, ou seja, uma
Ciência espiritual. Não se pode confundi-lo com as Ciências chamadas
positivas que tratam do elemento material do Universo. Mas é evidente
que as duas formas de Ciência devem conjugar-se para abrangerem todos os
aspectos do Universo. A Parapsicologia surgiu das pesquisas
psicológicas, perfeitamente integrada nos quadros e nas exigências das
Ciências positivas. Podem e devem, portanto, marchar lado a lado na
conquista do objetivo comum.
Para esclarecer melhor o que acima
dissemos basta lembrar que o Espiritismo não trata apenas do exame dos
fenômenos paranormais. Ao examinar esses fenômenos ele toma uma posição
analítico-sintética e não somente analítica. Não vê os fenômenos em
si, como o faz a Parapsicologia mas os fenômenos em si ligados a um
contexto. Por isso o seu método é cultural e não apenas científico.
As Ciências materiais são fragmentárias e esmiúçam os fenômenos. O
Espiritismo é global e entrosa os fenômenos em si mesmos e no contexto a
que pertencem. Psicologicamente podemos dizer que o procedimento do
Espiritismo é gestáltico, ou seja: ele se preocupa com a forma global e
não com os detalhes.
Os parapsicólogos entendem que essa
posição do Espiritismo é arcaica, pertence ao passado místico da
Humanidade. Para eles a verdade só pode ser descoberta pela análise,
pelo esmiuçamento dos problemas, isolados e submetidos ao processo
cartesiano de divisão. Mas o Espiritismo não despreza a análise. Procura
apenas colocá-la no devido lugar, como uma simples fase do processo do
conhecimento. Aliás, o próprio desenvolvimento das Ciências positivas
está sendo feito nesse sentido. O método gestáltico em psicologia
e a teoria da relatividade na física são exemplos disso. O que nos
mostra que o Espiritismo está bem firmado na sua posição, que não é
arcaica mas adiantada, representando uma antecipação no campo do
conhecimento. Enganam-se os parapsicólogos que desprezam o Espiritismo.
E mais ainda se enganam os espíritas que, empolgados pelo
desenvolvimento atual das Ciências positivas, entendem que a
Parapsicologia vai realmente tomar o lugar do Espiritismo e arquivá-lo
nas estantes empoeiradas do passado.
Para maior clareza podemos dizer que os
parapsicólogos são como os mineiros que cavam no escuro, arrancando os
minérios da terra. Os espíritas são como os pedreiros que constroem à
luz do sol, sobre a terra. É evidente que o trabalho dos parapsicólogos
interessa de perto aos pedreiros do Espiritismo. E não há razão nenhuma
para os pedreiros se assustarem com o trabalho penoso dos mineiros. Os
espíritas, portanto, não devem menosprezar nem superestimar os domínios
da Parapsicologia, que na verdade estão encravados – na exata expressão
da palavra francesa enclave – nos próprios domínios do
Espiritismo.
A investigação parapsicológica já venceu a
sua primeira fase – a da constatação da existência do extrafísico no
Homem e no Universo – e está avançando para a demonstração da
supervivência do homem após a morte. Rhine dedica-se, no momento, à
elaboração de metodologia especial necessária a essa comprovação
científica que vai aos poucos realizando, no exame dos fenômenos teta,
de manifestação de entidades espirituais. Enquanto isso podemos
assinalar a área da concepção espírita já plenamente confirmada pela
pesquisa parapsicológica.
Ao afirmar que as funções psi são
comuns a toda a espécie humana a Parapsicologia confirma a tese espírita
da mediunidade generalizada. Reconhecendo a diversificação dessas
funções em dois campos, o subjetivo e o objetivo, endossa a divisão
espírita das manifestações inteligentes e dos fenômenos físicos.
Sustentando a independência da mente, que percebe e age sem se servir
dos órgãos corporais, restabelece a dualidade relativa de corpo e
espírito. Provando a ação psicocinética, confirma a tese espírita das
relações alma-corpo. E, por fim, reconhecendo a existência de fenômenos
mentais possivelmente produzidos por mentes desencarnadas
confirma a divisão espírita dos fenômenos mediúnicos em dois campos: os
anímicos (produzidos pela própria alma do médium) e os espíritas
(produzidos por espíritos desencarnados). O campo de psigama está
hoje dividido em duas áreas – a de ESP (percepção
extra-sensorial), e a de Teta, manifestações de espíritos.
Além disso, ao tratar da existência de pseudofenômenos paranormais a
Parapsicologia endossa as explicações espíritas a respeito da existência
dos chamados fenômenos espiritóides.
Assim, as novidades parapsicológicas, que
deviam “aturdir os ingênuos espiritistas” nada mais fazem do que
reafirmar tardiamente as teorias espíritas, já confirmadas pelas
experiências do Espiritismo há mais de um século. Não é de admirar que
os adversários do Espiritismo queiram reduzir a Parapsicologia à triste
condição de um pavlovismo ou um behaviorismo paranormal. É
o único recurso que lhes resta diante do avanço das Ciências na
comprovação progressiva das pesquisas e teorias espíritas.
A posição de Rhine no tocante à questão da
sobrevivência é declarada nos seus últimos livros e artigos. O Professor
Jorge Ayala, da Universidade do México, declarou-nos pessoalmente: Rhine
segue por etapas – a primeira foi a prova de que os fenômenos existem; a
segunda, a prova de que a mente não é física; a terceira será a da
sobrevivência espiritual do homem. A equipe de Puharich, que realizou
pesquisas com Arigó e outros médiuns, tem o mesmo objetivo.
É importante assinalar que até agora as
pesquisas parapsicológicas não provaram nada contra o Espiritismo. Pelo
contrário, só têm confirmado, passo a passo, a doutrina espírita em seu
aspecto científico.
O desinteresse dos meios universitários e
das instituições científicas no Brasil pelo desenvolvimento mundial da
Parapsicologia deixou-nos expostos à invasão da charlatanice. É uma lei
do progresso cultural, já bastante conhecida. Em todos os campos em que
a Ciência se recusou a entrar com a sua frágil mas eficiente lanterna,
surgiram os charlatães de tocha em punho. Os fenômenos paranormais
ocorrem entre nós, tanto como entre todos os povos. Mas devem haver
algumas circunstâncias que nos favorecem nesse terreno. Possuímos,
talvez, maior número de médiuns que qualquer outro país. Muitos deles se
transformaram em charlatães porque não encontraram amparo e orientação e
nem mesmo a mais leve atenção de parte das organizações científicas, a
não ser para persegui-los e processá-los.
O caso Arigó teria sofrido essa
metamorfose, não fosse a simplicidade rústica e a honestidade natural do
médium. Os nossos meios científicos tudo fizeram para converter Arigó
num charlatão e depois metê-lo na cadeia. Como a transformação foi
impossível, insistiram até os seus últimos dias em prendê-lo mesmo
assim. Parodiando conhecido ditado popular, pensam os nossos homens de
Ciência que mais vale um médium na cadeia do que mil em liberdade. Mas
por mais que fizeram, Arigó resistiu. Foi uma rocha de inabalável
minério. E além disso os médiuns em liberdade se multiplicam por toda
parte. A ciência indígena se desespera e pede ajuda à religião. Já que
não é possível acabar com os médiuns, que pelo menos possamos
exorcizá-los. É aí que entram em cena os padres mágicos.
Louis Pawels e Jacques Bergier entendem
que estamos no momento do despertar dos mágicos. O livro de ambos,
traduzido e publicado no Brasil, não fez o sucesso esperado. Porque
entre nós os mágicos já haviam despertado antes. E o fizeram da maneira
mais apropriada, respeitando a mais antiga tradição espiritual: no meio
sacerdotal. Num ambiente cultural subdividido por numerosos conflitos,
os padres mágicos surgiram sob aplausos. Vinham explicar aquilo mesmo
que Pawels e Bergier explicavam em seu livro: que o fantástico é uma
realidade natural, acessível aos que não dormem o sono intelectual. E o
faziam de maneira muito mais simples, através de cursos populares
ilustrados por exibições hipnóticas e mágicas de teatro.
De um momento para outro vimos surgirem
algumas figuras curiosas que ensinavam a doutos e incultos, a cientes e
incientes, várias ciências novas. Frei Boaventura Klopemburg, por
exemplo, e Irmão Vitrício, “introdutor da letargia no Brasil”, que se
esparramou em espetáculos de teatro e televisão, “provando” que os
fenômenos mediúnicos nada mais eram do que encenações letárgicas. Até
hoje ninguém conseguiu uma prova de que a letargia seja uma ciência
diferente da hipnologia. Mas para que provas, quando temos as exibições
teatrais? O Padre jesuíta Oscar Gonzalez Quevedo invadiu escolas
superiores, estações de televisão, auditórios e páginas de jornais e
revistas para ensinar uma nova parapsicologia “made in Madri”
que fez furor em todos os setores. O iluminado sacerdote dava cursos
sobre comunicações de além-túmulo e provava que médiuns e estudiosos do
Espiritismo não passavam de beócios e ingênuos. A verdade escorria dos
dedos do padre como chuva de verão, fácil e passageira: O
inconsciente é um gênio desconhecido; quem faz tudo isso é o
inconsciente.
Simpático, sorridente, estribado numa
auto-suficiência de espantar mouros da costa, o P. Quevedo distribuiu os
seus cursos pelo meio universitário, concedeu entrevistas farfalhantes a
jornais, revistas ilustradas e estações de televisão e acabou publicando
um calhamaço que reúne a sua profunda sabedoria: A Face Oculta da
Mente. O que há de oculto nesse grosso volume foi revelado pelo
conhecido estudioso do assunto, o metapsiquista e espírita Carlos
Imbassahy, com seu livro A Farsa Escura da Mente. Basta
confrontar os dois volumes para se ver a que despropósitos chegou a
ciência infusa do P. Quevedo, no seu afã de provar a genialidade do
inconsciente.
No fundo, as conclusões do padre são mais
otimistas que as do famoso doutor Pangloss. Não existem fenômenos
espíritas, mas, em compensação, todos nós somos geniais. Que
importa se não podemos provar a sobrevivência do homem após a morte?
Temos uma prova muito mais valiosa: a de que cada um de nós carrega
um gênio oculto no inconsciente. É verdade que, conscientemente,
podemos ser uns pobres diabos. Mas isso é passageiro. Lá dentro, nas
criptas e furnas secretas do inconsciente, que o pobre Dr. Freud não foi
capaz de penetrar, dorme sempre o gênio desconhecido. O P. Quevedo
penetra nas furnas, sacode o dorminhoco, desperta-o, admira-se ele mesmo
da sua façanha e exclama, como na conhecida anedota: “Che vedo!”.
Somos uns gênios incubados. Talvez a morte
nos desperte para a genialidade inconsciente. Não basta isso? Não, o P.
Quevedo ainda não se contenta com isso. Seu otimismo encontra apoio nas
teorias do maravilhoso Dr. Giuseppe Galigaris: Podemos refletir o
Universo na pele! Seria possível maior maravilha? Que campo novo
para os dermatologistas! Antigamente podíamos ter o diabo na pele. Hoje,
podemos ter o Universo. O P. Quevedo explica a razão dessas coisas
espantosas: “... a manifestação das faculdades paranormais é o
resíduo do extraordinário poder que possuía a natureza humana quando foi
criada, poder que desfrutaria num paraíso terrestre” (A Face
Oculta da Mente, pág. 329). Dessa maneira, o padre nos revela uma
herança que desconhecíamos. Até agora, só nos haviam ensinado que
herdamos o pecado. O padre descobre e nos conta que herdamos também os
poderes celestes de nosso pai Adão, o pecador. Podemos recuperar um
pouco do paraíso perdido através das mágicas geniais do nosso
inconsciente.
Na verdade, as mágicas não são do
inconsciente, são do padre. Ou melhor, dos padres mágicos que andam
fazendo exibições de palco e televisão, no afã de negar a possibilidade
de comunicação espiritual com os que partiram da Terra. Curiosas
contradições humanas! Quem diria que justamente os sacerdotes,
incumbidos de lembrar aos homens a sua natureza imortal, iriam voltar-se
contra as provas da sobrevivência e apelar até mesmo para os truques de
magia e os passes hipnóticos a fim de provarem que os fenômenos
espíritas não existem? Pois é o que temos aí, aos nossos olhos. Padres e
frades faquirizando contra o Espiritismo, organizando grupos de
sensitivos previamente treinados para exibições teatrais, fazendo artes
em público e afirmando que somos herdeiros de poderes paradisíacos,
puramente materiais.
Mas surgem, às vezes, coisas inesperadas.
O P. Quevedo declarou insistentemente que entendia de magia teatral. Mas
como afirmou, muitas vezes mais, que pelo poder da mente dominava o
corpo, impedia o fluxo sangüíneo nos ferimentos e suprimia a dor,
ninguém pensou nos seus poderes mágicos. Até que alguns mágicos de
verdade, mágicos profissionais, que trabalham em palcos e circos,
ganhando honestamente a vida na prática de uma velha arte, tão nobre
como qualquer outra – sem jamais enganarem a ninguém, pois todos sabem
que se trata de uma arte e não de poderes estranhos – resolveram
assistir os cursos do padre. Assistiram, viram tudo e ficaram
indignados. Sim, porque o padre fazia mágicas e dizia que estava fazendo
ciência! Então, modestamente, os mágicos de verdade resolveram
protestar. E o fizeram com o maior respeito pela genialidade
inconsciente dos ilustres reverendos.
A revista “Miríade Mágica”, órgão do
Núcleo Mágico de Niterói, resolveu tratar do assunto em seus números 9 e
10, de abril-maio de 1965. Num artigo sério, intitulado A propaganda
e seus Efeitos, os mágicos aplaudem as habilidades do padre mas
discordam de certos exageros. Vejamos um trecho, com a devida vênia:
“Ainda agora, com o objetivo de
adquirirmos alguns conhecimentos, para melhoria de nossos trabalhos,
freqüentamos as conferências proferidas pelo ilustre professor de
parapsicologia P. Oscar Gonçalves Quevedo, S. J., no curso intensivo
dessa ciência, e ficamos convencidos de que se deve apoiar e colaborar
no sentido de combater as superstições e crendices que levam a
humanidade a inferiorizar-se, acreditando em fraudes conscientes e
inconscientes”.
Até aqui, como se vê, a maior boa vontade,
a intenção de aprender e o evidente respeito para com o ilustre
professor. Mas, a seguir, os mágicos reagem na defesa da profissão e
também na defesa da lealdade mágica, como se vê neste trecho:
“... embora reservemo-nos o direito de
discordar de certas afirmativas do reverendo professor, como a de que o
ilusionismo frauda, principalmente pela sua declaração de ser cultor de
nossa Arte e havê-lo demonstrado efetivamente, em todas as ilustrações
do curso, como sejam: visão paraótica, estrada hipnótica, visão através
dos corpos opacos, baralho-rosário, pantominesia, mnemotecnia,
adivinhação extra-sensorial, cumberlandismo ou crime simulado, hipnose
teatral e um pouco de faquirismo, espetando um estilete no braço”.
Está aí o rol de mágicas que o P. Quevedo
oferece aos seus alunos de parapsicologia. No curso acima referido,
segundo o articulista, o padre declarou “alto e bom som” que se tratava
de experiências científicas entre aspas. Na maioria dos cursos, e mesmo
em programas de televisão, não apareceram essas aspas. Pelo contrário,
tivemos a oportunidade de ver apenas as aspas do touro da verdade
vacilando ante as negaças do toureiro espanhol. Mas voltemos aos
mágicos. Ouçamo-los:
“... em o Jornal do Brasil vimos uma sua
fotografia com o estilete espetado no braço, e no histórico a afirmativa
de que ficara um buraco de cinco milímetros de diâmetro, sem sangrar e
sem que o paciente sofresse qualquer dor. Ora, embora não pratiquemos
esta faceta do ilusionismo, sabemos como é praticada, por havermos
auxiliado a apresentá-la e conhecermos os seus truques ‘científicos’.
Acreditamos que a alegação (mentirosa) do buraco, pode gerar crendice
até em pessoa ilustrada. Quanto à dor, a letargia apresentada entre nós
pelo Irmão Vitrício já a explicou suficientemente (para empregarmos um
termo também bastante pretensioso), além de devermos considerar que o
maior dorimento é o da periferia, e, por isso mesmo, o estilete é
biselado (o truque)”.
A seguir, o articulista explica que o
ilusionista não pretende fraudar, iludir ou enganar, mas apenas
ilusionar. E acentua: ilusionista que não ilusiona comete fraude.
Assinala ainda que o ilusionismo não pretende atacar nenhuma religião,
nenhuma crença. É apenas uma arte. Todos os que vão assistir a um
espetáculo sabem que estão vendo artifícios e não fenômenos de qualquer
espécie. Que bonita lição de honestidade profissional nos dão os
mágicos, em sua modesta revista! Ouçamo-los ainda:
“Se alguém faz a levitação sem truques (os
corpos celestes aí estão para o comprovar) não se depreende daí que o
contestemos. Apenas declaramos que usamos truques para simularmos o que
é, ou o que asseveram ser real”.
Para encerrar o artigo, que se refere
especialmente ao problema da publicidade, o articulista de “Miríade
Mágica” exclama, certamente aturdido com as “maravilhas” que havia
presenciado: “Cuidado pois com a publicidade! Não permitamos os
exageros que nos poderão prejudicar”. E nada mais foi dito. Mas
significativamente recebemos um exemplar desse número da revista, cuja
distribuição é feita apenas entre os mágicos profissionais. Esperamos
que o remetente não se aborreça com a publicidade eventual que estamos
fazendo da sua revista e da sua profissão. Não temos outra intenção
senão aquela mesma que o orientou: a de mostrar aos homens de boa-fé
que, segundo a lição evangélica, devemos ser mansos como as pombas mas
não podemos esquecer a prudência das serpentes.
De tudo quanto aí fica, tire o leitor as
suas conclusões. Os padres mágicos constituem um dos capítulos mais
curiosos da história da Parapsicologia no Brasil. Não podíamos deixar de
registrá-lo neste volume, como uma contribuição para os futuros
historiadores. E também (porque não?) como uma justa homenagem à
habilidade dos padres mágicos, que têm dominado platéias numerosas e
conquistado auditórios ilustres. Aliás, o Livro de Atos refere-se
a alguns mágicos da era apostólica, como o caso de Elymas, o
encantador (13:6-12), a quem Paulo advertiu que não continuasse a
perturbar os retos caminhos do Senhor, e o tão conhecido caso de Simão,
o mago (8:9-24), a quem Pedro repreendeu, por não ter o coração reto
diante do Senhor.
Novo livro do P. Quevedo foi publicado
recentemente, em dois volumes, com o título de As Forças Físicas da
Mente. Afirma o autor que existem duas forças nos fenômenos
paranormais: “... umas vezes há exteriorização de força material, outras
vezes de força espiritual”. Isto é o que se chama descobrir a pólvora,
pois tanto no Espiritismo, quanto na Metapsíquica e na Parapsicologia
todos os autores sabem disso. Os dois volumes do padre não vão além do
emaranhado de contradições de seu livro anterior: A Face Oculta da
Mente. Sua finalidade é apenas combater o Espiritismo.
O curioso é um padre publicar dois volumes
para contradizer a principal descoberta científica do século, feita e
proclamada pela escola de Rhine: a de que a mente não é física. A
mente, pois, não possui forças físicas, e como ensina Rhine, age “por
vias não físicas sobre a matéria”. Nos fenômenos físicos paranormais
exteriorizam-se forças físicas do médium sob a ação das forças mentais
ou espirituais do próprio médium ou dos espíritos. Essa interação
mente-corpo é princípio básico bastante estudado e confirma
cientificamente a relação alma-corpo que é fundamento das
religiões. Gustave Geley explicou a emissão do ectoplasma como o
resultado da ação de “controladores espirituais” sobre os médiuns. Este
problema só continua a ser problema para os materialistas.
Índice
Bibliográfico:
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WILKINS, Hubert, e Sherman,
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ZOLLNER, J. F. – Física Transcendental,
edição brasileira: Provas Científicas da Sobrevivência, Edicel, São
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