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103.5.12 -
OXUM
Oxum é a força dos rios, que correm sempre adiante, levando e distribuindo
pelo mundo sua água que mata a sede, seus peixes que matam a fome, e o ouro
que eterniza as idéias dos homens nele materializadas. Como as águas das
rios, a força de Oxum vai a todos os cantos da terra. Ela dá de beber as
folhas de Ossain, aos animais e plantas de Oxóssi, esfria o aço forjado por
Ogum, lava as feridas de Obaluaiê, compõe a luz do arco-íris de Oxumarê.
Oxum é por isso associada à maternidade, da mesma maneira que Iemanjá. Por
sua doçura e feminilidade, por sua extrema voluptuosidade advinda da água,
Oxum é considerada a deusa do amor. A Vênus africana. Como acontece com as
águas, nunca se pode prever o estado em que encontraremos Oxum, e também não
podemos segura-la em nossas mãos. Assim, Oxum é o ardil feminino. A sedução.
A deusa que seduziu a todos os orixás masculinos.
Diz o mito que Oxum era a mais bela e amada filha de Oxalá. Dona de beleza e
meiguice sem iguais, a todos seduzia pela graça e inteligência. Oxum era
também extremamente curiosa e apaixonada. E quando certa vez se apaixonou
por um dos orixás, quis aprender com Orunmilá, o melhor amigo de seu pai, a
ver o futuro. Como o cargo de oluô (dono do segredo) não podia ser ocupado
por uma mulher, Orunmilá, já velho, recusou-se a ensinar o que sabia a Oxum.
Oxum então seduziu Exu, que não pôde resistir ai encanto de sua beleza e
pediu-lhe roubasse o jogo de ikin (cascas de coco de dendezeiro) de Orunmilá.
Para assegurar seu empreendimento Oxum partiu para a floresta em busca das
Iyami Oshorongá, as perigosas feiticeiras africanas, a fim pedir também a
elas que a ensinassem a ver o futuro. Como as Iyami desejavam provocar Exu
há tempos, não ensinaram Oxum a ver o futuro, pois sabiam que Exu já havia
roubado os segredos de Orunmilá, mas a fazer inúmeros feitiços em troca de
que a cada um deles elas recebessem sua parte.
Tendo Exu conseguido roubar os segredos de Orunmilá, o deus da adivinhação
se viu obrigado a partilhar com Oxum os segredos do oráculo e lhe entregou
os 16 búzios com que até hoje as mulheres jogam. Oxum representa, assim a
sabedoria e o poder feminino.
Em agradecimento a Exu, Oxum deu a Exu a honra de ser o primeiro orixá a ser
louvado no jogo de búzios, e entrega a eles suas palavras para que as traga
aos sacerdotes. Assim, Oxum é também a força da vidência feminina. Mais
tarde, Oxum encontrou Oxóssi na mata e apaixonou-se por ele. A água dos rios
e floresta tiveram então um filho, chamado Logun-Edé, a criança mais linda,
inteligente e rica que já existiu.
Apesar do seu amor por Oxossi, numa das longas ausências destes Oxum foi
seduzida pela beleza, os presentes (Oxum adora presentes) e o poder de
Xangô, irmão de Oxossi, rompendo sua união com o deus da floresta e da caça.
Como Xangô não aceitasse Logun-Edé em seu palácio, Oxum abandonou seu filho,
usando como pretexto a curiosidade do menino, que um dia foi vê-la banhar-se
no rio. Oxum pretendia abandoná-lo sozinho na floresta, mas o menino se
esconde sob a saia de Iansã a deusa dos raios que estava por perto. Oxum deu
então seu filho a Iansã e partiu com Xangô tornando-se, a partir de então,
sua esposa predileta e companheira cotidiana.
• Cor: amarelo-ouro
• Número: 5
• Dia da semana: Sábado
• Símbolo: abebê (espelho)
• Comida: Ipetê, Omolocum (feijão fradinho com camarão)
• Saudação: Ora ieieu, Oxum!
103.5.13 -
LOGUN-EDÉ
Logun-Edé, chamado geralmente apenas de Logun, é o ponto de encontro entre
os rios e florestas, as barrancas, beiras de rios, e também o vapor fino
sobre as lagoas, que se espalha nos dias quentes pelas florestas. Logun
representa o encontro de naturezas distintas sem que ambas percam suas
características. É filho de Oxóssi com Oxum, dos quais herdou as
características. Assim, tornou-se o amado, doce e respeitado príncipe das
matas e dos rios, e tudo que alimenta os homens, como as plantas, peixes e
outros animais, sendo considerado então o dono da riqueza e da beleza
masculina.
Tem a astúcia dos caçadores e a paciência dos pescadores como principais
virtudes.
Dizem os mitos que sendo Oxóssi e Oxum extremamente vaidosos, não puderam
viver juntos, pois competiam pelo prestigio e admiração das pessoas e
terminaram separando-se. Ficou combinado entre eles que Logun-Edé viveria
seis meses nas águas dos rios com Oxum e seis meses nas matas, com seu pai
Oxóssi. Ambos ensinariam a Logun a natureza dos seus domínios. Ele seria
poderoso e rico, além de belo.
No entanto, o hábito da espreita aprendido com seu pai, fez com que, um dia,
curioso a respeito da beleza do corpo de sua mãe, de que tanto se falava nos
reinos das águas, Logun-Edé vestindo-se de mulher fosse espiá-la no banho.
Como Oxum estivesse vivendo seu romance com Xangô, tio de Logun, e Xangô
tivesse exigido como condição do casamento que ela se livrasse de Logun,
Oxum aproveitou a oportunidade para punir Logun com sua transformação num
orixá meji (hermafrodita) e abandoná-lo na beira do rio. Iansã o encontra, e
fascinada pela beleza da criança leva Logun para casa onde, juntamente com
Ogum, passa a criá-lo e educa-lo.
Com Ogum Logun-Edé aprendeu a arte da guerra e da forja e com Iansã o amor à
liberdade. Diz o mito que Logun tinha tudo, menos amor das mulheres, pois
mesmo Iansã, quando roubada de Ogun por Xangô, abandona Logun com seu tio,
criando assim um profundo antagonismo entre Xangô e Logun, já que por duas
vezes Xangô lhe tira a mãe.
Em outro episódio Logun vai brincar nas águas revoltas (a deusa Obá, também
esposa de Xangô) e esta tenta matá-lo como vingança contra Oxum que lhe
fizera uma enorme falsidade. Oxum, vendo em seu jogo de búzios o que estava
sucedendo com seu filho abandonado, pede a Orunmilá que o salve e este, que
sempre atendia às preces da filha de Oxalá, faz uma oferenda a Obá que
permite então que os pescadores salvem Logun-Edé, encarregando-o de
proteger, a partir daquele dia, os pescadores, as navegações pelos rios e
todos os que vivessem à beira das águas doces.
Logun nunca se casou , devido a seu caráter infantil e hermafrodita e sua
companhia predileta é Ewá, que também vive, como ele, solitária e no limite
de dois mundos diferentes.
• Cor: Azul e amarelo
• Número: 3
• Dia da semana: quinta-feira
• Comida: milho e coco, peixes
• Símbolo: ofá (arco e flecha) e abebê (espelho de mão)
• Saudação: Loci loci, Logun!
103.5.14 -
OBÁ

Obá representa as águas
revoltas dos rios. As pororocas, as águas fortes, o
lugar das quedas sao considerados domínios de Obá. Ela representa também o
aspecto masculino das mulheres (fisicamente) e a transformação dos alimentos
de crus em cozidos.
Por sua envergadura física e força, tornou-se uma guerreira, a única mulher
capaz de desafiar Ogum para uma luta, e por ser Obá extremamente forte e
destemida, Ogum se viu obrigado a usar de um truque contra ela, espalhando
quiabo amassado no chão, e atraindo Obá para aquele canto, onde a guerreira
escorregou e não apenas perdeu a luta como foi possuída à força por Ogum,
que se tornou seu inimigo.
Sendo uma cozinheira excelente foi escolhida para ser a terceira esposa de
Xangô, o deus trovão.
Sempre se sentindo menos desejada por seu amado que Oxum e Iansã, Obá se
esmerava em agradá-lo com seus pratos cada vez mais aprimorados. Mas Oxum
era sempre a preferida de Xangô.
Um dia Obá não se conteve e perguntou a Oxum qual o segredo de sua sedução.
Oxum, que vivia com a cabeça enrolada em turbantes maravilhosos, disse que
havia cortado a própria orelha esquerda e colocado no amalá (uma comida à
base de quiabo) de Xangô que, ao comê-lo, por ela se perdera de paixão para
sempre.
Obá então cortou a própria orelha e a colocou no amalá.
Ao ver Obá com um ferimento no lugar da orelha Xangô quis saber o que
houvera e Obá contou.
Neste momento Oxum tirou seu turbante e, mostrando as duas orelhas intactas
a Obá, desatou a rir.
Xangô, zangado com a insensatez de Obá e enojado por ver sua orelha na
comida, expulsou-a de seu palácio e Obá tanto chorou e teve raiva que se
transformou num rio revoltoso. Na África, no lugar onde se encontram os rios
Obá e Oxum o estouro das águas é extremamente violento.
• Cor: vermelho com amarelo
• Numero: 4
• Símbolo: Obé
• Comida: quiabo
• Dia da semana: Quarta-feira
• Saudação: Obá xirê!
103.5.15 -
EWÁ
Muito pouco se sabe atualmente sobre Ewá.
Ela é também filha de Nanã, e é vista como horizonte, o encontro do céu com
a terra, do céu com o mar. Ewá representa ainda outros horizontes, como a
interface onde se tocam a vida e a morte, o dia e a noite e outros. Assim,
todas as transformações, mudanças e adaptações sao regidas por ela.
Ewá é virgem, bela e iluminada. Apesar desta beleza e do assédio dos orixás
masculinos, nunca quis se casar, sendo uma moça quieta e isolada, voltada
para o conhecimento dos segredos das transformações.
Nanã, preocupada com sua filha, pediu a Orunmilá que lhe arranjasse um amor,
um casamento, mas Ewá desejava viver sozinha, dedicada à sua tarefa de fazer
cair a noite no horizonte, puxando o sol com seu arpão.
Como Nanã insistisse em seu casamento, Ewá pediu ajuda a seu irmão Oxumarê,
o arco-íris, que a escondeu no lugar onde ele se acaba, por trás do
horizonte, e Nanã não mais pôde alcançá-la.
Assim, os dois irmãos passaram a
viver juntos, para sempre inatingíveis. Ambos regem o intangível e Ewá
também é compreendida como a energia que torna possível o abandono do corpo
e a entrada do espírito numa nova dimensão.
No Brasil poucos candomblés cultuam Ewá, pois dizem que o conhecimento sobre
as folhas necessárias ao seu culto foi perdido durante o processo de
aculturação dos africanos escravos.
• Dia da semana: segunda-feira
• Cor: verde-mar e rosa (o tom é o rosa do cair da tarde)
• Símbolo: Arpão com uma serpente enrolada, por sua ligação com Oxumarê.
• Comida: batata doce.
• Saudação: Rirró!
103.5.16 -
NANÃ
Nanã é a lama primordial, o barro, a argila da qual sao feitos os homens.
Dela saem seres perfeitos e imperfeitos, modelados por Oxalá e cuja cabeça é
preparada pelo sensível Ajalá.
Dizem os mitos que antes de criar o homem do barro, Oxalá tentou criá-lo de
ar, de fogo, de água, pedra e madeira, mas em todos os casos havia
dificuldades. O homem de ar esvanecia; não adquiria forma. O de fogo,
consumia-se, o de pedra era inflexível e assim por diante. Foi então que
Nanã se ofereceu a Oxalá, para que com ela criasse os homens, impondo,
contudo, a condição de que quando estes morressem fossem devolvidos a ela.
Sendo o barro, Nana está sempre no principio de tudo, relacionada ao aspecto
da formação das questões humanas , de um indivíduo e sua essência.
Ela é relacionada também , freqüentemente, aos abismos, tomando então o
caráter do inconsciente, dos atavismos humanos. Nanã tanto pode trazer
riquezas como miséria. Está relacionada, ainda, ao uso das cerâmicas,
momento em que o homem começa a desenvolver cultura. Seja como for, Nanã é o
princípio do ser humano físico. E assim é considerada a mais velha das iabás
(orixás femininos).
Dizem os mitos que nunca foi bonita. Sempre ranzinza, instável, sua
aparência afastava os homens, que dela tinham medo.
Nanã, teve dois filhos com Oxalá: Obaluaiê e Oxumarê (a terra e o arco-íris)
e uma filha, Ewá, que teria nascido de uma relação entre Nanã e Oxóssi, ou
ainda, entre Nanã e Orunmilá, conforme o mito.
Como já vimos nos mitos de Obaluaiê e Oxumarê, ela os gerou defeituosos, por
ter quebrado uma interdição e mantido relações sexuais com Oxalá, marido de
Iemanjá. Abandonou a ambos, que foram criados por outros orixás, e acabou
sozinha quando Ewá, para fugir de um casamento que sua mãe lhe impingia,
fugiu de casa para morar no horizonte entre o céu e o mar.
Alguns mitos dizem que ela é também a mãe de Iansã, os ventos, e que foi
expulsa de casa para não matar sua mãe, a lama, ressecando-a.
Nanã sempre esteve em demanda com Ogum, que amava muito sua mãe Iemanjá,
tomando partido desta na disputa que se estabeleceu entre elas pelo amor de
Oxalá.
Ogum muitas vezes tentou se apoderar dos territórios lamacentos de Nanã sem,
no entanto, conseguir. Como diversão, Ogum gostava de provocar a orixá, que
exigia de Oxalá que este fosse castigado, sem nunca ter conseguido, pois
Ogum tinha fama de justo. Tantas vezes Ogum irritou Nanã que ela não recebe
nenhuma oferenda feita ou cortada com objetos de metal e mesmo o sacrifício
de animais feito em sua homenagem deve ser feito com faca de madeira ou
coberta por um pano.
• Cor : roxo ou lilás
• Número: 15
• Comida: mostarda
• Símbolo: ibiri (conhecido como " vassoura de Nanã, um instrumento de palha
com elementos mágicos dentro, semelhante ao usado por Obaluaiê, com a qual
Nana varre a terra)
• Dia da semana: segunda-feira
• Saudação: Saluba!
103.5.17 -
IROKO
Iroko representa o tempo. É a árvore primordial. A primeira dádiva da terra
(Oduduwa) aos homens. Existe desde o princípio dos tempos e a tudo assistiu,
a tudo resistiu, a tudo resistirá.
Iroko é a essência da vida reprodutiva. Do poder da terra. Alguns mitos
dizem que Iroko é o cajado de Oduduwa, a Terra, que através dele ensina aos
homens o sentido da vida.
É também a permanência dentro da impermanência e impermanência na
permanência. O ciclo vital, que não muda com o transcorrer da eternidade. A
infinita e generosa oferta que a natureza nos faz, desde que saibamos
reverencia-la e louvá-la. É também conhecido, nos candomblés como "Tempo",
embora esta seja uma designação própria do rito angola. Diz o mito que no
princípio de tudo, a primeira árvore nascida, foi Iroco. Iroko era capaz de
muita magia, tanto para o bem quanto para o mal, e se divertia atirando
frutos aos pés das pessoas q passavam.
Quando não tinha o que fazer, brincava com as pedras que guardava nos ocos
de seu tronco. Um dia, as mulheres de uma aldeia próxima ficaram todas
estéreis, por ação das Iyami. Então elas foram Iroko e pediram fertilidade.
Iroko, contudo, exigiu dádivas em troca, pois é preciso abrir espaço para
receber dons, como é preciso perder as flores para receber os frutos. As
mulheres concordaram e prometeram muitos presentes. Uma delas, contudo,
tendo como única riqueza seu filho, prometeu dar a Iroko esta criança.
Quando engravidaram, as mulheres foram a Iroko e fizeram as oferendas. Menos
a que prometera a criança, pois ela amava muito o filhinho.
Iroko ficou muito zangado. E aguardou o dia em que a criança brincava ao
redor dele e a raptou. Quando a mãe foi buscar a criança, Iroko lembrou a
mulher de sua promessa, ameaçando matar o outro filho que lhe dera caso ela
retirasse "sua" criança dali. Então a mulher, desesperada, procurou o
babalaô, que jogando os búzios sugeriu que ela mandasse fazer um boneco de
madeira com as feições de uma criança, banhasse com determinadas ervas e
quando Iroko estivesse dormindo, substituísse a criança pelo boneco. E assim
ela fez. Até hoje pode-se ver, nas gameleiras brancas o bebe de Iroko,
repousando deitado em seus galhos.
Em sua copa vivem também as Iyami Oshorongá, as ajés (feiticeiras) da
floresta.
• Numero: 11
• Símbolo: grelha (representando as direções do tempo)
• Cor: verde/marrom
• Dia da semana: Quinta-Feira
• Comida: inhame, carneiro
103.5.18 -
IBEJI
Os Ibejis representam a solidariedade, a gemelaridade (qualidade das coisas
gêmeas, compostas de dois inseparáveis, e assim do próprio processo de
conhecimento humano, composto de pares inseparáveis de oposições).
Representam ainda os irmãos, a infância, o inicio da vida, momento em que a
dependência da solidariedade é maior.
Um dos mitos diz que os orixás crianças, os gêmeos Ibejis, eram companheiros
de brincadeira de Logun-Edé e de Ewá, sendo filhos de Iemanjá. Um dia,
enquanto brincavam numa cachoeira, um deles acabou se afogando.
O Ibeji que ficou, começou então a se tornar a cada dia menos forte, mais
melancólico e sem interesse pela vida.
Foi então a Orunmilá e suplicou que este lhe trouxesse seu irmão de volta.
Não podendo fazer tal coisa, Orunmilá transformou a ambos em imagens de
madeira, e os deu de presente a Oxum, para q deles cuidasse e para que
pudessem ficar juntos para sempre.
• Cor: Rosa e Azul
• Numero 2
• Comida: caruru
• Dia da Semana: Sábado
• Saudação: Ere wa!
103.5.19 -
IYAMI OSHORONGÁ
Iyami Oshorongá é o termo que designa as terríveis ajés, feiticeiras
africanas, uma vez que ninguém as conhece por seus nomes. As Iyami
representam o aspecto sombrio das coisas: a inveja, o ciúme, o poder pelo
poder, a ambição, a fome, o caos o descontrole. No entanto, elas são capazes
de realizar grandes feitos quando devidamente agradadas. Pode-se usar os
ciúmes e a ambição das Iyami em favor próprio, embora não seja recomendável
lidar com elas.
O poder de Iyami é atribuído às mulheres velhas, mas pensa-se que, em certos
casos, ele pode pertencer igualmente a moças muito jovens, que o recebem
como herança de sua mãe ou uma de suas avós.
Uma mulher de qualquer idade poderia também adquiri-lo, voluntariamente ou
sem que o saiba, depois de um trabalho feito por alguma Iyami empenhada em
fazer proselitismo.
Existem também feiticeiros entre os homens, os oxô, porém seriam
infinitamente menos virulentos e cruéis que as ajé (feiticeiras).
Ao que se diz, ambos são capazes de matar, mas os primeiros jamais atacam
membros de sua família, enquanto as segundas não hesitam em matar seus
próprios filhos. As Iyami sao tenazes, vingativas e atacam em segredo. Dizer
seu nome em voz alta é perigoso, pois elas ouvem e se aproximam pra ver quem
fala delas, trazendo sua influência.
Iyami é freqüentemente denominada eleyé, dona do pássaro. O pássaro é o
poder da feiticeira; é recebendo-o que ela se torna ajé. É ao mesmo tempo o
espírito e o pássaro que vão fazer os trabalhos maléficos.
Durante as expedições do pássaro, o corpo da feiticeira permanece em casa,
inerte na cama até o momento do retorno da ave. Para combater uma ajé,
bastaria, ao que se diz, esfregar pimenta vermelha no corpo deitado e
indefeso. Quando o espírito voltasse não poderia mais ocupar o corpo
maculado por seu interdito.
Iyami possui uma cabaça e um pássaro. A coruja é um de seus pássaros. É este
pássaro quem leva os feitiços até seus destinos. Ele é pássaro bonito e
elegante, pousa suavemente nos tetos das casas, e é silencioso.
"Se ela diz que é pra matar, eles matam, se ela diz pra levar os intestinos
de alguém, levarão".
Ela envia pesadelos, fraqueza nos corpos, doenças, dor de barriga, levam
embora os olhos e os pulmões das pessoas, dá dores de cabeça e febre, não
deixa que as mulheres engravidem e não deixa as grávidas darem à luz.
As Iyami costumam se reunir e beber juntas o sangue de suas vítimas. Toda
Iyami deve levar uma vítima ou o sangue de uma pessoa à reunião das
feiticeiras. Mas elas têm seus protegidos, e uma Iyami não pode atacar os
protegidos de outra Iyami.
Iyami Oshorongá está sempre encolerizada e sempre pronta a desencadear sua
ira contra os seres humanos. Está sempre irritada, seja ou não maltratada,
esteja em companhia numerosa ou solitária, quer se fale bem ou mal dela, ou
até mesmo que não se fale, deixando-a assim num esquecimento desprovido de
glória. Tudo é pretexto para que Iyami se sinta ofendida.
Iyami é muito astuciosa; para justificar sua cólera, ela institui
proibições. Não as dá a conhecer voluntariamente, pois assim poderá alegar
que os homens as transgridem e poderá punir com rigor, mesmo que as
proibições não sejam violadas. Iyami fica ofendida se alguém leva uma vida
muito virtuosa, se alguém é muito feliz nos negócios e junta uma fortuna
honesta, se uma pessoa é por demais bela ou agradável, se goza de muito boa
saúde, se tem muitos filhos, e se essa pessoa não pensa em acalmar os
sentimentos de ciúme dela com oferendas em segredo. É preciso muito cuidado
com elas. E só Orunmilá consegue acalmá-la.
Fonte: As Senhoras do Pássaro da Noite
103.5.20 -
ORUNMILÁ
Orunmilá, também conhecido como Ifá, é o princípio da intuição, da
premonição, os sentidos do espírito, o olhar que conhece o futuro. É o deus
invocado no jogo de búzios, pois é ele quem conhece todos os destinos (odus),
cabeças (oris) e caminhos. Ele diz a Exu que movimente suas palavras até os
búzios, indicando que orixá esta regendo uma pessoa, porque, com q destino.
É considerado um avatar de Oxalá, pois ele estava no começo do mundo.
Olodumare (o universo) Obatalá (o principio), Oxalá (a criação), Oxaguiã (o
conflito), Orunmilá (intuição), Oduduwa (o planeta terra), Ajalá (o oleiro q
molda os oris - cabeças)e Fururu (o sopro de vida) são considerados Oxalá
todos eles. O começo de tudo. O princípio dividido em oito, o infinito.
Diz o mito que Obatalá havia reunido todos os materiais necessários à
criação do mundo e que mandou a Estrela da Manhã convocar todos os orixás a
fim de começar o trabalho com sua ajuda. Mas na hora marcada, apenas
Orunmilá apareceu. Obatalá gostou muito da atitude de Orunmilá e o
recompensou, ordenando à Estrela da Manhã que revelasse a Orunmilá todos os
segredos da criação e do porvir. E ela entregou a Orunmilá todos os segredos
e materiais que compõem a vida humana, e que estavam escondidos há muito
tempo dentro de uma concha de caramujo guardada num vaso que ficava entre as
pernas de Obatalá. Orunmilá tornou-se, desde este dia, o dono dos segredos,
das magias, das fórmulas dos ebós, dos rituais, de tudo quanto envolvia o
conhecimento da alma humana e de seu destino. Ele conhece a vontade dos
orixás e sabe com que matéria foi feito cada homem.
Outro mito narra que Orunmilá/Ifá é filho dos dois princípios mágicos. Que
nasceu mudo e não disse uma só palavra até a adolescência, quando seu pai
lhe bateu com um bastão. E neste dia ele disse : "Gbê-medji", palavra que
ninguém compreendia. Quando apanhou de novo, tempos depois, disse: "Yeku-medji".
E assim, em diversas ocasiões, ele foi dizendo palavras, as 16 palavras q
compõem o opelê-ifá. Depois, disse a seu pai que se apanhasse mais poderia
dizer muito mais que uma só palavra. O pai então bateu muito em Orunmilá,
que disse então que ele não ficaria na terra, mas que entregaria a seu pai
uma herança que serviria eternamente para todos os deuses de Oxalá. E
explicou que os 16 nomes que havia dito eram os nomes de seus futuros filhos
e que cada um deles tinha um conhecimento. Que se transformaria numa
palmeira e que com os caroços de seus frutos (seus filhos) se faria o jogo
de Ifá, que poderia ser consultado quando se quisesse saber o futuro ou como
resolver problemas.
• Cor: verde/amarelo
• Comida: banana com sal.
• Número: 16
• Símbolo: iruke (um bastão de madeira, curvo)
• Dia da semana: sexta-feira
103.5.21 -
ORI
Ori é o deus portador da individualidade de cada ser humano. Representa o
mais íntimo de cada um, o inconsciente, o próprio sopro de vida em sua
particularização para cada pessoa. Ori mora dentro das cabeças humanas,
tornando cada um aquilo que é.
Como ao morrer, a cabeça de uma pessoa não é separada para o enterro, Ori é
conhecido como aquele q pode fazer a grande viagem sem retorno, pois os
outros orixás, mesmo quando morrem seus filhos, sao libertados da cabeça (Ori)
e retornam ao Orun (céu, ou mundo exterior).
Durante o processo iniciático a primeira entidade a ser equilibrada é
justamente o ori, a individualidade pessoal, para que a pessoa não se
transforme em um mero espelho do orixá. À cerimônia de equilíbrio do Ori
dá-se o nome de Bori (bo = comer, ori = cabeça => dar comida para a cabeça,
fortalece-la). Um dos mitos sobre Ori diz que ele pode depois de enterrado
voltar ao orum, levado por Nanã ou Ewá.
Diz este mito q um dia Ori percebeu q era o momento de nascer outra vez e
foi falar com Olorum, o Universo, solicitando permissão para nascer na mesma
família em que havia nascido antes. Olorum permitiu, com a condição de q
apenas ele, Olorum, pudesse conhecer o dia de sua morte, sem que Ori pudesse
opinar sobre esta questão. E que o destino de Ori só pudesse ser mudado
quando Ifá fosse consultado" . Este orixá não tem características estéticas
pois não incorpora. Apenas é cultuado juntamente com os orixás, possuindo um
número no jogo de búzios onde "fala".
A quizila de Ori é a mentira
103.5.22 -
AJALÁ
Ajalá é o oleiro primordial. A parte de Oxalá responsável pela criação
física dos homens, por seu corpo, sua cabeça (onde vive Ori). Ele representa
o aspecto mais orgânico do ser humano; o tipo de barro, de maior ou menor
qualidade, mais ou menos cozido (o que implica maior ou menor numero de
problemas), mais claro ou escuro. Ajalá mistura ao barro folhas, frutas,
minérios, sangues e uma série de materiais que determinam como será aquela
pessoa, como Ori poderá agir nela. Estes ingredientes, com o tempo perdem o
axé (energia) e precisam ser, de vez em quando, repostos, o que é feito nos
rituais do candomblé, entre eles a iniciação. Diz um dos mitos que Ajalá foi
incumbido de moldar as cabeças dos homens com a lama do fundo dos rios e
outros elementos da natureza. Ele moldava as cabeças e as punha para assar
em seu forno.
Ajalá tinha, contudo, o hábito de embriagar-se enquanto cozia o barro e
criou muitas cabeças defeituosas, queimando algumas e deixando outras com o
barro cru. A causa dos problemas que muitas pessoas apresentam antes de
serem iniciadas viria exatamente de um ori cru, ou queimado, ou mal
proporcionado feito durante alguma bebedeira de Ajalá. Como os orixás não
gostam de cabeças ruins, a pessoa ficaria desprotegida, sem a energia do
orixá. Depois que Ajalá terminava de fazer os oris (cabeças) Obatalá soprava
nelas e lhes dava eni, a vida.
Ajalá é considerado avatar de Oxalá, mantendo as mesmas características. Não
é cultuado. Apenas louvado.
103.5.23 -
OXAGUIÃ
Oxaguiã, também conhecido como Ajagunã, é o conflito que antecede a paz; a
revolução que antecede as transformações profundas; a instabilidade
necessária ao dinamismo da vida e da sociedade e a busca do conhecimento.
Por isso é compreendido como Oxalá moço, enquanto a paz, a tranqüilidade, a
estabilidade, a sabedoria sao compreendidos como Oxalá velho, Oxalufã. Ele é
também guerreiro, e sente prazer em destruir para q o novo se estabeleça.
Um dos mitos diz que Oxaguiã nasceu apenas de Obatalá. Não teve mãe. Nasceu
dentro de uma concha de caramujo. E quando nasceu, não tinha cabeça, por
isso perambulava pelo mundo, sem sentido. Um dia encontrou Ori numa estrada
e este lhe deu uma cabeça feita de inhame pilado, branca. Apesar de feliz
com sua cabeça. ela esquentava muito, e quando esquentava Oxaguiã criava
mais conflitos. E sofria muito. Foi quando um dia encontrou a morte (iku),
que lhe ofereceu uma cabeça fria. Apesar do medo que sentia, o calor era
insuportável, e ele acabou aceitando a cabeça preta que a morte lhe deu. Mas
essa cabeça era dolorida e fria demais. Oxaguiã ficou triste, porque a morte
com sua frieza estava o tempo todo acompanhando o orixá. Foi então que Ogum
apareceu e deu sua espada para Oxaguiã, que espantou Iku. Ogum também tentou
arrancar a cabeça preta de cima da cabeça de inhame, mas tanto apertou que
as duas se fundiram e Oxaguiã ficou com a cabeça azul, agora equilibrada e
sem problemas.
A partir deste dia ele e Ogum andam juntos transformando o mundo. Oxaguiã
depositando o conflito de idéias e valores que mudam o mundo e Ogum
fornecendo os meios para a transformação, seja a tecnologia ou a guerra.
• Cor: Branca e azul
• Numero 4
• Comida: Inhame pilado
• Dia da semana: sexta-feira
• Saudação: Exeuê, babá!, Epa Babá!
103.5.24 -
OXALUFÃ
Oxalufã é o princípio da criação, o vazio, o branco, a luz, o espaço onde
tudo pode ser criado, e também a paz, a harmonia, a sabedoria que vem depois
do conflito (Oxaguiã). O fim do círculo e o recomeço. Oxalufã é o compasso
do terra, Oduduwa. Caminha apoiado em seu cajado cerimonial, que é o também
o símbolo da ligação que ele estabeleceu entre o Orun (o céu) e o Ayê (a
terra). O grande pai ioruba, considerado a bondade masculina.
São muitos os mitos que falam de Oxalá, mas o mais conhecido nos candomblés
é o que conta que Oxalá sentia muitas saudades de seu filho Xangô, e
resolveu visitá-lo.
Para saber se a longa viagem lhe seria propícia, foi consultar Orunmilá o
deus adivinho, seu grande amigo. Este jogou os ikins (casca de caroços de
dendezeiro) divinatórios e lhe disse que a viagem não se encontrava sob bons
auspícios. E que se ele desejasse que tudo corresse bem deveria se vestir
inteiramente de branco e não sujar suas roupas até chegar ao palácio,
devendo também manter silêncio absoluto até o momento em que encontrasse seu
filho.
E assim fez Oxalá.
Exu, contudo, que adorava atormentar Oxalá, disfarçou-se de mendigo e
apareceu no caminho deste, pedindo a ajuda para levantar um pesado saco de
carvão que se encontrava no chão. Sem poder responder nada e sendo piedoso,
Oxalá levanta o saco de carvão para Exu, mas estando este saco com o fundo
rasgado, abre-se e cai sobre Oxalá sujando sua roupa branca. Exu ri
loucamente e se vai..
Prevenido como sempre fora, Oxalá toma banho num rio e veste roupas brancas
novamente. E segue seu caminho. Novamente Exu se disfarça e pede ajuda ao
viajante, dessa vez para entornar um barril de óleo num tacho.
Sem poder responder para explicar e tendo boa vontade em ajudar, Oxalá
levanta o barril e Exu o derrama sobre suas roupas, que desta vez não podiam
mais ser trocadas, pois eram as últimas roupas limpas que Oxalá tinha para
trocar.
Sujo e cansado, Oxalá vai seguindo seu caminho quando vê o exército de Xangô
se aproximar dele, sinal de que estava bem perto de seu destino. Este,
contudo, prende Oxalá, confundindo-o com um procurado ladrão. Como não podia
falar, Oxalá nada diz e acaba jogado numa prisão durante sete anos.
Neste meio tempo o reino de Xangô entra em decadência: suas terras não
produzem alimentos, os animais morrem, o povo fica doente.
Desesperado, Xangô chama um babalaô que ao jogar o ikin lhe diz que todo o
mal do reino advém do fato de haver injustiça na terra do senhor da justiça.
Xangô vai então averiguar pessoalmente todos os presos de seu reino e
descobre Oxalá pai na prisão. Desolado, coloca o velho pai sobre suas
próprias costas e o carrega para o palácio, onde se encarrega de banha-lo e
vesti-lo com sua alvas roupas, realizando a seguir uma grande festa.
A cerimônia do candomblé chamada "Águas de Oxalá" rememora este episódio.
Cor: branco
Dia da semana: sexta-feira
Numero 16 e 8
Comida: canjica
Saudação: Epa, Babá! Exeuê, Babá |
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103.5.25 -
A estruturação do Batuque:
No
estado do Rio Grande do Sul deu-se no inicio do século XIX, entre os anos de
1833 e 1859 (Correa, 1988 a:69). Tudo indica que os primeiros terreiros
foram fundados na região de Rio Grande e Pelotas. Tem-se notícias, em
jornais desta região, matérias sobre cultos de origem africana datadas de
abril de 1878, (jornal do comércio, Pelotas). Já em Porto Alegre, as
noticias relativas ao Batuque, datam da segunda metade do século XIX, quando
ocorreu a migração de escravos e ex-escravos da região de pelotas e Rio
Grande para Capital.
Os
rituais do Batuque seguem fundamentos, principalmente das raízes da nação
Ijexá, proveniente da Nigéria, e dá lastro as outras nações como o Jêje do
Daomé, hoje Benim, Cabinda (enclave Angolano) e Oyó, também, da região da
Nigéria.
O Batuque surgiu como diversas religiões afro-brasileiras
praticadas no Brasil, tem as suas raízes na África, tendo sido criado e
adaptado pelos negros no tempo da escravidão. Um dos principais fundadores
do Batuque foi o Príncipe Custódio de Xapanã. O nome batuque era dado pelos
brancos, sendo que os negros o chamavam de Pará.
É da Junção de todas estas
nações que se originou esta cultura conhecida como Batuque, e os nomes mais
expressivos da antiguidade, que de uma maneira ou de outra contribuíram para
a continuidade dos rituais foram:
103.5.26 -
Cantando para os Orixás:
As entidades cultuadas são as mesmas em quase todos terreiros, os
assentamentos tem rituais e rezas muito parecidos, as diferenças entre as
nações é basicamente em respeito as tradições próprias de cada raiz
ancestral, como no preparo de alimentos e oferendas sagradas. O Ijexá é
atualmente a nação predominante, encontra-se associado aos rituais de todas
nações.
103.5.27 -
Crenças
Filhos de santo. O batuque é uma religião onde se cultuam vários Orixás,
oriundos de várias partes da África, e suas forças estão em parte dentro dos
terreiros, onde permanecem seus assentamentos e na maior parte na natureza:
rios, lagos, matas, mar, pedreiras, cachoeiras etc., onde também invocamos
as vibrações de nossos Orixás.
Todo ser humano nasce sob a influencia de um Orixá, e em sua vida terá as
vibrações e a proteção deste Orixá que está naturalmente vinculado e rege
seu destino, com características individuais, em que o Orixá exige sua
dedicação, onde este poderá ser um simples colaborador nos cultos, ou até
mesmo se tornar um Babalorixá ou Iyalorixá.
Há
uma questão de ordem etmológica no Termo Pará, onde afirma-se ser este o
outro nome pelo qual é conhecido o Batuque, ora sabe-se que todo
frequentador de Terreiros chama na verdade o Peji ou quarto-de-santo de Pará
e não o ritual sagrado dos Orixás, este sim o Batuque. Esta questão já está
dimensionada desde os anos 50, nas pesquisas etnográficas de Roger Bastide
sobre a Religião Africana no Rio Grande do Sul.
São consideradas Religiões
Afro-Brasileiras:
Todas as religiões que tiveram origem nas religiões
africanas, que foram trazidas para o Brasil pelos escravos.
Batuque, Candomblé, Catimbó, Culto aos Egungun Culto de Ifá Jurema sagrada
Quibanda Macumba Tambor-de-Mina Umbanda Xangô do Nordeste Xambá As Religiões
Afro-Brasileiras são relacionadas com a Religião Yorubá e outras Religiões
africanas, e diferentes das Religiões Afro-Caribenhas como a Santeria e o
Vodu
No Rio grande do Sul a área de conservação das religiões africanas vai de
Viamão à fronteira do Uruguai, com os dois grandes centros de Pelotas e de
Porto Alegre.
O
estado do Rio Grande do Sul foi o maior responsável pela exportação dos
rituais africanos para outros países da América do Sul, entre eles Uruguai e
Argentina, que também procuram seguir a maneira de cultuar os Orixás; e a
construção dos templos seguem exemplos dos seus sacerdotes.
Dono do Terreiro:
No batuque, os templos terreiros são quase que em sua totalidade vinculados
as casas de moradia. É destinado um cômodo, geralmente na parte da frente da
construção onde são colocados os assentamentos dos Orixás. Neste local são
feitos todos os fundamentos de matanças e trabalhos determinados, oferendas
para os Orixás, e o local é considerado sagrado, pessoas vestidas de preto,
mulheres em dias de menstruação não entram. Junto à esta parte da casa,
chamada de quarto de Santo ou Peji, há o salão onde são realizadas as festas
para os orixás.
Todos os Orixás são montados com ferramentas, Okutás (pedras) etc. e
permanecem dentro da mesma casa, com exceção do Bará Lodê e do Ogum Avagãn,
que tem seus assentamentos numa casa separada, ficando à frente do templo
onde recebem suas oferendas e sacrifícios. A casa dos Eguns também tem lugar
definido, é uma construção separada da casa principal, na parte dos fundos
do terreiro, onde são feitos diversos rituais.
Em
caso de falecimento do Babalorixá ou Yalorixá, dono do terreiro, fica a
critério da família o destino do templo, geralmente não tendo um familiar
que possa suceder o morto o templo é fechado. Na maioria dos casos na morte
de um sacerdote, todas as obrigações são despachadas num ritual especifico
chamado de Erissum (Axexê), por este motivo é muito difícil encontrar ilês
com mais de 60 anos, são muito poucos os sacerdotes que destinam seus axés à
um sucessor, para dar prosseguimento à raiz
Os
rituais são próprios e originais e embora tenha alguma semelhança com o
"Xangô de Pernambuco", é muito diferente do Candomblé da Bahia.
Os
rituais de Jêje tem suas rezas próprias (fon), e ainda se vê este belo
ritual em dois grandes terreiros na cidade de Porto Alegre, as danças são
executadas de par, um de frente para o outro. Há também muitas casas que
seguem os fundamentos da nação Oyó que se aproxima muito do ijexá, já que,
estas duas provem de regiões próximas na Nigéria.
A
principal característica do ritual do Batuque é o fato do iniciado não poder
saber em hipótese alguma que foi possuído pelo seu Orixa, sob pena de ficar
louco.
Cada Babalorixá ou Iyalorixá tem autonomia na prática de seus rituais, não
existem nomenclaturas de cargos como tem no Candomblé, exercem plenos
poderes em seus ilês. Os filhos de santo se revezam nos cumprimentos das
obrigações.
No
mínimo uma vez por ano são feitos homenagens com toques para os Orixás, mas
as festas grandes são de quatro em quatro anos. Chamamos de festa grande a
obrigação que tem ebó, ou seja quando há sacrifícios de animais de quatro
patas aos Orixás, cabritos, cabras, carneiros, porcos, ovelhas, acompanhados
de aves como galos, galinhas e pombos.
Oferendas e
Sacrifícios de Animais:
Esta obrigação serve para homenagear o Orixá "dono da casa" e dos filhos que
ainda não possuem seu próprio templo. A data é geralmente a mesma que aquele
sacerdote teve assentado seu Orixá, a data de sua feitura. As festas têm um
ciclo ritual longo, que antigamente duravam 32 dias de obrigações, hoje
diante das dificuldades duram no máximo 16. O começo de tudo são as limpezas
de corpo e da casa, para descarregar totalmente o ambiente e as pessoas, de
toda e qualquer negatividade; em seguida são preparados as oferendas e
sacrifícios ao Bará.
A partir deste momento, os iniciados já ficam
confinados ao templo, esquecendo então o cotidiano e passam a viver para os
Orixás por inteiro até o final dos rituais. No dia do serão (dia da
obrigação de matança), todos Orixás recebem sacrifícios de animais.
Os
cabritos e aves são preparados com diversos temperos e servidos a todos que
participarem dos rituais, tudo é aproveitado, inclusive o couro dos animais,
que sevem para fazer os tambores usados nos dias de toques.
No
dia da festa o salão é enfeitado com as cores dos Orixás homenageados. A
abertura se dá com a chamada (invocação aos Orixás), feita pelo sacerdote em
frente ao peji (quarto de santo), usando a sineta (adjá), saudando todos
Orixás. Ao som dos tambores, as pessoas formam uma roda de dança em louvor
aos Orixás, a cada um com coreografias especiais de acordo com suas
características.
No
final das cerimônias são distribuídos os mercados, (bandejas contendo todo
tipo de culinária dos Orixás como: acarajé, axoxó (milho cozido e fatias de
coco), farofa de aves, carnes de cabritos (cozidas ou assadas), frutas,
fatias de bolos etc.), alguns consomem ali mesmo, outros levam para comer em
casa.
Durante a semana são feitos outros rituais de fundamentos para os Orixás,
inclusive a matança de peixe, que para os batuqueiros significa fartura e
prosperidade, os peixes oferecidos são da qualidade Jundiá e Pintado; estes
são trazidos vivos do cais do porto ou do mercado público, onde o comércio
de artigos religiosos é intenso.
No
sábado seguinte é feito o encerramento das obrigações, com mesa de Ibejes e
toque, novamente em homenagem aos Orixás, neste dia são distribuídos
mercados com iguarias e o peixe frito, significando a divisão da fartura e
prosperidade com os participantes das homenagens aos Orixás. Após o
encerramento, o sacerdote leva os filhos que estavam de obrigações ao rio, à
igreja, ao mercado público e à casa de alguns sacerdotes, que fazem parte da
família religiosa, para baterem cabeça em sinal de respeito e agradecimento;
este passeio faz parte do cumprimento dos rituais. Após o passeio todos
estão liberados para seguirem normalmente o cotidiano de suas vidas
Culto ao Eguns (Espiritos
dos Mortos):
No
Batuque também temos a parte dos rituais destinados ao culto dos Eguns. Este
é um ritual cheio de magia e segredos onde poucos sacerdotes têm o completo
domínio.
A
casa dos Eguns (espíritos dos mortos) fica numa construção separada da casa
principal, nos fundos do terreno, onde são feitos diversas obrigações em
determinadas datas e quando morre alguém ligado ao terreiro; este local é
denominado Balê.
Aos Eguns também são oferecidos sacrifícios de animais, e comidas diversas
que fazem parte somente deste ritual, não podendo ser usados em outras
ocasiões.
Os
Eguns, assim como os Orixás, tem suas rezas (cânticos) próprias, feitos na
linguagem yorubá, e em dias de obrigações recebem toques ao som de tambores
frouxos e sem o acompanhamento de agê (instrumento feito com uma cabaça
inteira trançada com cordão e contas diversas).
Cada nação tem rituais diferentes para este tipo de obrigação.
Os sacerdotes:
O babalorixá ou
Iyalorixá tem a responsabilidade de formar novos sacerdotes,
que darão continuidade aos rituais. Para isto é preciso preparar novos
filhos de santo, que durante um certo período de tempo aprenderão todos os
rituais para preservação dos cultos.
O
sacerdote chefe deve passar aos futuros Pais ou Mães de Santo, todos os
segredos referente aos rituais tais como: uso das folhas (folhas sagradas),
execução de trabalhos e oferendas, interpretação do jogo de búzios, e até
mesmo como preparar um novo sacerdote.
Geralmente o futuro sacerdote já nasce no meio religioso, onde conviverá
acompanhando todos os diversos rituais que darão suporte a seus afazeres
dentro do culto, e terá pleno conhecimento de todos os tipos de situações
que enfrentará em seu futuro templo.
O
tempo de aprendizado é longo, não se forma um verdadeiro sacerdote de Orixás
com menos de sete anos de feitura, e os ensinamentos são passados de acordo
com a evolução da capacidade de aprendizado que o noviço tem, já que os
ensinamentos são feitos oralmente, não há livros para ensinar os rituais, a
melhor maneira de aprender tudo é conviver desde cedo dentro dos terreiros.
A
partir do momento que um noviço se torna um sacerdote de Orixá, terá as
mesmas responsabilidades daquele que lhe passou os ensinamentos
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