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Outro grande momento da Cabala foi o período de Ari, o rabi Yitzhak Luria.
Nascido em Jerusalém, mas criado no Egito, ele trabalhava com comércio, mas
devotou grande parte de seu tempo ao estudo da Cabala. Uma lenda conta que
ele passou sete anos isolado na ilha da Roda no Nilo, onde além do Zohar
estudou livros dos primeiros cabalistas e escritos de outro grande sábio de
sua geração, o Rabi Moshe Cordovero, o Ramak.
Em 1570 ele foi para Safed, em Israel. Bastaram somente dois anos, já que
ele morreu em 1572, aos 38, para que Luria tivesse sua grandiosidade
reconhecida a ponto de todos os estudiosos de Safed terem ido estudar com
ele. Exemplos de seus escritos famosos são "A Árvore da Vida", "O Portal das
Intenções", "O Portal da Reencarnação". Em seus estudos, Ari desenvolveu o
primeiro mito cabalista conhecido, que compreende o primeiro
auto-desenvolvimento de Deus, a criação do universo e da humanidade, as
origens do mal e, o mais importante, um método para reparar o mal (tikkun) e
restaurar a unidade original de Deus e da criação. No fim, ele instituiu um
sistema elaborado de meditação e práticas rituais para conectar a humanidade
com o divino. Alguns dos hinos e práticas da escola de Luria são usados até
hoje. Através da larga publicação do trabalho de seus discípulos, a Cabala
de Ari se espalhou por todo o mundo judaico, tornando-se não somente a forma
mais aceita da Cabala, mas de todo o Judaísmo, na medida em que isso é
possível.
"A religião judaica incorporou muito da parte mística", explica o rabino
Adrian Godfrid, da Comunidade Shalom, de São Paulo. Segundo ele, o serviço
de sexta-feira à noite, realizado em todas as sinagogas do mundo, o chamado
Kabbalah Shabat, foi instituído pelos místicos de Safed. Até mesmo um dos
hinos mais conhecidos deste ritual, o Leha Dodi, foi concebido por Shlomo
Alevi, um destes místicos, durante um transe.
No século XIII, foi a vez do movimento Hassídico inspirar nova vida no
misticismo judaico, tornando-o acessível para uma larga audiência. O
Hassidismo vem da palavra hebraica hasid, que quer dizer pio, e é baseado
nos ensinamentos do curandeiro judeu polonês Israel Bem Eliezer (1700-1760),
conhecido como Baal Shem Tov. Ele ganhou o respeito dos judeus pobres e
oprimidos socialmente por insistir que a melhor maneira de alcançar Deus não
era através do estudo avançado do Talmud ou das complicadas fórmulas de
meditação de Luria, mas pela prática simples e sincera da devoção na reza,
associada a alegres canções, danças e histórias. Embora ele não fosse
rabino, Shem Tov conseguiu atrair muitos rabinos para seu círculo. Após duas
gerações, centenas de rabinos elaboraram os ensinamentos de Shem Tov,
atraindo mais discípulos e fundando "dinastias" de sucessão, assim
promovendo o nascimento do movimento hassídico. Na época do auge deste
movimento, quase todo grande rabino era um cabalista. Com o passar dos anos,
o hassidismo foi se tornado exatamente o contrário, esquecendo-se de sua
fonte original e tornando-se praticamente indistinguível do judaísmo
tradicional. Junto a esta descaracterização da essência do hassidismo, a
crescente secularização do judaísmo contribuiu novamente para isolar o
misticismo judaico, cujo interesse veio a renascer novamente no final do
século XX.
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Quem pode estudar
Antigamente, havia o conceito de que as pessoas não poderiam estudar a
Cabala, de que era um segredo perigoso, e de que ela só poderia ser estudada
a partir dos 40 anos.
"A mística tem a ver com aspectos muito profundos da personalidade e esta
tradição de estudar a partir dos 40 anos existe porque teoricamente a pessoa
estará mais estruturada psicologicamente para poder entender outras coisas,
um pouco mais ocultas", explica o rabino Adrian Godfrid. O fundamental,
entretanto, para os estudiosos judeus, é que o interessado na Cabala tenha
passado por todos os outros níveis de leitura da Torá e todos os outros
clássicos do judaísmo como o Talmud. "Se subentende que a pessoa nesta idade
já passou muitos anos estudando os outros níveis, pois se você não passou
por isso, você não entende nada".
Para o rabino Yehuda Busquila, a Cabala deve ser estudada por todos aqueles
que tiverem condições de estudá-la. "Seus ensinamentos deveriam ser abertos
a todo mundo, porque eles encerram coisas que a gente não sabe e nos trazem
respostas que a gente não encontra no mundo lógico, no mundo da razão, pois
a Cabala é especulativa, não é normativa". Para ele, até se chegar à Cabala
o interessado também deve passar por algumas etapas. "É como dar alimento
para uma criança. Primeiro você dá a mama, depois mamadeira, sopinha, um
purezinho. Até ele mastigar um bife vai levar algum tempo. É a mesma coisa
com o estudo da Cabala".
Palavras e Números
Um interpretador cristão da Cabala, o português D. Francisco Manoel de
Mello, escreveu em seu "Tratado da Ciência da Cabala" que a língua hebraica
é de origem celeste, pois nela falou Deus aos Patriarcas e ela serviu de
instrumento aos divinos oráculos da antiguidade. Daí se infere que as
palavras, letras e números representativos dessa linguagem contêm virtudes
intrínsecas, próprias exclusivamente dela.
Na Cabala hebraica realmente promove-se a linguagem, de simples meio de
comunicação entre os homens, em instrumento essencial da cosmogonia: "Disse
Deus: haja luz - e houve luz", escreve o Gênesis. A criação, pois,
efetivou-se através do poder místico da palavra.
De acordo com o rabino Yehuda Busquila, para os cabalistas todos nós somos
números, já que todas as letras judaicas têm um correspondente numérico
"As letras do alfabeto
hebraico têm um valor numérico e todos nós temos um nome que é composto com
estas letras. Somos números e o nome que nos é atribuído, quando nascemos,
tem alguma coisa da essência divina, já que todas as letras fazem parte do
nome de Deus", diz Busquila. A numerologia da Cabala é baseada na
interpretação do significados dos nomes e como todas as criaturas têm nome,
e portanto são números, ela pode tratar de todos os fenômenos que existem no
universo.
Cada uma das 22 letras do alfabeto hebraico possui um valor numérico que
varia de 1 a 400. O cálculo da equivalência numérica das letras, palavras e
frases propicia a descoberta de inter-relações de diferentes conceitos e
exploração de inter-relacionamento entre palavras e idéias. Para a Cabala,
as equivalências numéricas não são coincidências. Desde que o mundo foi
criado através da "palavra" divina, cada letra representa uma diferente
força criativa. Portanto, a equivalência numérica de duas palavras revela
uma conexão interna entre o potencial criativo de cada uma.
Para o rabino Adrian Godfrid, a numerologia é um tipo de interpretação, "uma
ferramenta hermenêutica". Para ele, ela não é o centro e não pode ser vista
isolada do contexto judaico. "Faz sentido entender que o valor numérico das
letras fala alguma coisa no contexto judaico, mas quando você faz isso para
ver que número vai dar na Sena, aí você está fazendo um negócio que não tem
nada a ver com isso. O contexto foi violentado".
Sefirot - atributos,
virtudes, qualidades divinas
A Cabala trata dos nomes de Deus e da força inserida nas letras que o
compõem. Seu objetivo é elevar o ser humano espiritualmente para ele poder
entrar em conexão com Deus, e para isso ele deve ultrapassar algumas etapas,
as Sefirot, um diagrama que representa os atributos, as virtudes e
qualidades divinas e que pode ser entendido como um canal para o divino. De
acordo com Gershom Sholem, no "Livro da Criação", do qual foi originalmente
tomado, Sefirot simplesmente significava números, mas com o gradual
desenvolvimento da terminologia mística passou a ser traduzido
aproximadamente por "esferas" ou "regiões", mudando sua acepção até que
passou a significar a emergência de poderes, virtudes e emanações divinas.
Na Cabala, Deus é chamado de Ayin, que significa "Nada", em hebraico. Por
estar além da existência, Deus é o infinito, pois incorpora tudo que existe
e que existirá. Tudo que importa vem de Ayin Sof e volta no fim para ele que
é o nada absoluto. Apesar de Ayin Sof em si mesmo ser além de qualquer
compreensão, ele se faz conhecer através das dez Sefirot.
O
ato divino é visualizado simbolicamente com a idéia de que do Ayin Sof, ou
da Luz Infinita que envolve o vazio, emana um feixe de luz que penetra da
periferia em direção ao centro. Este feixe de vontade divina se manifesta em
dez etapas de emanação. Desde a Idade Média, estes dez estágios são chamados
de Sefirot e expressam os atributos divinos.
A estrutura do diagrama da Sefirot, que algumas interpretações chamam de
Árvore da Vida, contém todas as leis que governam a existência, porque
revela o processo universal de equilíbrio entre o alto e o baixo, os
princípios ativos (direita) e os passivos (esquerda). O influxo divino pode
ser traçado em detalhes ao longo dos caminhos entre as Sefirot (designados
pelas 22 letras do alfabeto judaico) e através das tríades que os ligam uns
aos outros. As cores aqui distinguem entre as tríades funcionais ou laterais
(vermelho ativo e azul passivo) e as tríades centrais, que denotam níveis de
consciência e vontade (verde, violeta, e amarelo).
Os quatro grandes círculos representam os níveis dentro de uma única Árvore,
que corresponde às quatro dimensões da realidade ou simbolicamente à raiz,
tronco, galhos e frutos ou às quatro letras do mais especial nome de Deus,
YHVH. Estes círculos também foram vistos como níveis ou degraus. O primeiro,
associado com o fogo, está perto da Coroa (Keter) e é visto como pura
Vontade (chamado de Deus). O segundo, associado com o ar, simboliza o
Intelecto (a criação Divina). O terceiro nível, associado com a água, é
visto como uma expressão da Emoção (a formação Divina). O quarto e último,
associado com a Terra, fala da ação, das implementações práticas de tudo que
houve antes (ação Divina). Apesar de ser altamente complexa, a Árvore da
Vida é uma imagem da Unidade Divina.
Para a Cabala, o fluxo divino através das Sefirot para os quatro mundos da
humanidade não é o único caminho. Ou seja, não são somente as ações divinas
que têm impacto sobre nós; nossas ações individuais também repercutem
cosmicamente e ajudam na reparação do Universo, pois Deus precisa do
universo e da humanidade para ser verdadeiramente Deus, para alcançar todo
seu potencial divino. Se Deus não tivesse necessidade do universo, porque
ele o teria criado? - perguntam os cabalistas.
Fonte:
http://www.terra.com.br/planetanaweb/flash/transcendendo/religiao/cabala.htm |
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PODER DA CABALA
Gilberto
Schoereder - Revista Sexto Sentido nº 22
A sabedoria
milenar da Cabala — inicialmente transmitida apenas de forma oral e a
pouquíssimas pessoas — apresenta uma forma de interpretar as Sagradas
Escrituras de forma a revelar conhecimentos ocultos nas palavras e que não
podem ser compreendidos a partir de uma interpretação literal dos textos.
Desta maneira, o Velho Testamento não é entendido simplesmente como um
relato de acontecimentos ocorridos há milhares de anos, mas como uma das
formas mais bem elaboradas e herméticas de transmissão de informações, que
podem estar ao alcance daqueles que estudarem a decodificação dos símbolos.
Já houve épocas em que o estudo da Cabala era bastante restrito, o que está
mudando um pouco nos tempos recentes. Para falar mais sobre esse
conhecimento, a Sexto Sentido entrevistou o professor Shmuel Lemle,
tradutor do livro O Poder da Cabala, e responsável pelo Centro de
Cabala do Rio de Janeiro.
O senhor pode nos dizer o que é a Cabala?
A Cabala é uma antiga sabedoria espiritual baseada num livro chamado Zohar.
A sabedoria do Zohar é universal — provê conhecimento e ferramentas para
toda a humanidade, que são tão úteis hoje como eram há milhares de anos.
Esse conhecimento e essas ferramentas podem ser aplicados por pessoas de
todas as religiões e práticas espirituais. A Cabala proporciona a
metodologia, instruções e ferramentas para ajudar as pessoas a alcançarem a
auto-realização, a plenitude espiritual, e um fim para o sofrimento e o
caos. O Zohar, escrito há 2 mil anos, explica os mistérios da vida e os
códigos secretos da Bíblia.
Qual a relação — se é que existe — entre a Cabala,
a religião judaica e as religiões que dela derivaram, como a católica?
O Zohar é um guia para a Bíblia que foi dada a Moisés no Monte Sinai, quando
ele recebeu os Dez Mandamentos e a Torá. A Cabala explica os segredos e o
verdadeiro significado das histórias da Bíblia, revelando sua sabedoria e
espiritualidade, e sua intenção é ajudar a acabar com o caos que assola a
humanidade. A Cabala era uma tradição oral originalmente estudada apenas por
rabinos, mas seus ensinamentos, derivados do Zohar, eram para toda a
humanidade, não importando a origem religiosa ou espiritual. Na verdade a
Cabala nos ensina todos os porquês por trás da prática religiosa.
Como se chega ao estudo da Cabala? Como a pessoa se
inicia?
O Centro de Cabala oferece cursos desde o nível iniciante até níveis mais
avançados de estudo. O curso para iniciantes, chamado Introdução à Cabala 1,
cobre assuntos como as origens do universo, o sentido da vida, e como
transformar nossos hábitos negativos, reativos, em comportamento proativo.
Os cursos mais avançados penetram nos estudos da vida após a morte,
relacionamentos, desenvolvimento pessoal e crescimento espiritual. Outros
cursos são dados sobre saúde e cura, como criar milagres na vida, oração e
meditação, e a ciência da astrologia cabalística.
Antigamente se dizia que mulheres não podiam
estudar a Cabala, e que quem estudasse antes dos 40 anos ficaria louco. O
que o senhor tem a dizer sobre isso?
Se tentássemos explicar a uma pessoa que vivesse na Idade Média a idéia de
um aparelho de fax, um telefone celular, ou mesmo da Internet, seriamos
rotulados de místicos ou loucos. Hoje, todos nós temos acesso a esses
avanços tecnológicos. As idéias da Cabala só podem ser transmitidas para
todos agora, porque os avanços da ciência e da consciência nos proporcionam
uma linguagem que torna os conceitos espirituais compreensíveis. Podemos
falar de interconexão, porque a própria física quântica explica que todos os
eventos estão interconectados. Antes não existia uma linguagem para falar
sobre esses conceitos, por isso, a Cabala ficava limitada a poucos sábios
por geração. Mas o próprio Rabi Isaac Luria, o Ari, que viveu há 500 anos,
um dos maiores cabalistas que da História — a Cabala estudada hoje se chama
Cabala Luriânica em sua homenagem — deixou este mundo com 38 anos. E no
Zohar está escrito que na nossa época — a Era Messiânica, Era de Aquário,
Nova Era, chame como quiser — até crianças de 6 anos devem aprender Cabala.
Agora estamos prontos para receber a sabedoria cósmica do universo.
Existe mais de um tipo de Cabala, ou mais de um
tipo de interpretação e aproximação à Cabala?
Existem algumas variações nas interpretações, mas basicamente toda Cabala
estudada hoje vem do Ari, Rabi Isaac Luria, e se chama Cabala Luriânica.
Existem também níveis de estudo da Cabala. O primeiro nível se chama Taamei
Torá — o sabor da Torá — que é o que estudamos, e que pode e deve ser
estudado até por crianças. O segundo nível é Sitrei Torá — a parte oculta.
Para atingir esse nível o estudante precisa estar imbuído de um desejo tão
grande de aprender que recebe uma revelação direta. Esse nível não pode ser
ensinado diretamente, a pessoa tem que chegar no nível de receber a
revelação.
Qual a relação entre Cabala e magia?
Algumas pessoas utilizam a Cabala como magia — isto se chama Cabala Maassit,
Cabala prática. No Centro de Cabala não estudamos de jeito nenhum esse tipo
de Cabala. É muito perigoso mexer com forças espirituais sem saber direito
os efeitos colaterais que isso pode causar.
Como se desenvolve a compreensão do cabalista sobre
Deus?
O cabalista fala na Luz Infinita. A Luz Infinita não é Deus, mas uma Energia
Infinita que emana de Deus. O próprio Deus, segundo os cabalistas, nós não
temos capacidade de compreender. A Luz é a Sua emanação, e é este nível que
podemos atingir. Os diferentes nomes de Deus que aparecem na Bíblia, segundo
os cabalistas, são denominações de diferentes níveis dessa emanação luminosa
— as Sefirot. Cada nome está ligado a uma determinada Sefirá — ou um
determinado nível de emanação da Luz. Quer dizer, os nomes não indicam o
próprio Criador, que é totalmente inatingível, mas diferentes níveis de Suas
emanações.
Existe alguma escritura sagrada da Cabala além das
antigas escrituras? O estudo da Cabala é centrado em alguma escritura em
particular ou em toda a Torá?
Como já dissemos, o principal livro de Cabala é o Zohar, escrito por Rabi
Shimon Bar Yohai há 2 mil anos, decifrando os segredos e códigos da Torá. O
Zohar foi escrito originalmente em aramaico, e o fundador do Centro de
Cabala, Rabi Yehuda Ashlag, traduziu o Zohar por completo para hebraico
moderno. Pela primeira vez, está sendo disponibilizada uma tradução completa
do Zohar para o inglês. Em português ainda não existe uma versão do Zohar.
Mas o primeiro livro de Cabala é ainda anterior à própria Torá. É o Livro da
Formação — Sefer Yetzirá — de autoria do Patriarca Abraão. Em forma de
código, este livro contém todos os segredos do universo e da Criação. Entre
outras coisas, fala de astrologia e do poder energético das letras
hebraicas.
O Zohar vai de acordo com a Torá e segue todo o Antigo Testamento,
explicando o verdadeiro sentido de cada passagem. Mais tarde, há 500 anos,
veio o Rabi Isaac Luria, o Ari, que trouxe uma metodologia mais
compreensível para os ensinamentos do Zohar. Seus ensinamentos foram
passados para a forma escrita por seu principal aluno, Rabi Chaim Vital, e
pelo filho deste, Rabi Shmuel Vital, e se chama Kitvei Ari, os Escritos do
Ari.
No século XX, o grande cabalista Rabi Yehuda Ashlag trouxe os ensinamentos
do Ari para uma forma ainda mais próxima de nós, pessoas leigas, no Estudo
das Dez Emanações Luminosas. Rabi Ashlag, fundador do Centro de Cabala,
completou também uma tradução do Zohar do original em aramaico para hebraico
moderno.
Os alunos de Cabala aprendem que a presença do Zohar em suas casas
proporciona proteção espiritual. O simples fato de ler algumas linhas do
Zohar produz um sentido de propósito e paz.
A Torá é o centro de todo o ensinamento. Mas o cabalista frisa o fato de que
a Torá é um código. Não pode ser lida de forma literal, pois isto oferece
uma compreensão completamente equivocada e contraditória. O trabalho do
cabalista é decifrar o código por trás da Torá. O Zohar enfatiza uma crença
fundamental da Cabala de que é uma obrigação analisar e questionar as
histórias da Bíblia. Com a instrução do Zohar, os segredos dessas histórias
são revelados e sua sabedoria pode ser usada para melhorar as vidas de
todos.
Como o estudo da Cabala afeta o homem moderno?
Os estudantes aprendem respostas para como vencer o jogo da vida. Utilizando
as ferramentas poderosas fornecidas pelo Zohar, o homem pode controlar o
caos em sua vida e atingir a plenitude duradoura. Uma vez postos em prática
os ensinamentos, os estudantes passam por mudanças positivas em suas vidas.
Qual a relação entre Cabala e ciência?
O cabalista Rav Berg, atual diretor do Centro de Cabala, costuma dizer que a
ciência finalmente está alcançando a Cabala. De fato, é impressionante como
os últimos avanços da física e da biologia se assemelham aos antigos
ensinamentos dos cabalistas. Em busca de uma teoria que unifique a
Relatividade de Einstein, que funciona para sistemas macroscópicos, e a
Teoria Quântica, que se aplica ao mundo subatômico, a física moderna chegou
à Teoria das Supercordas (Superstrings, em inglês). Sem entrar em detalhes,
de acordo com essa teoria o universo tem dez dimensões, mas no momento do
Big Bang seis delas se compactaram em uma, por isso, só percebemos quatro
dimensões (três espaciais e o tempo). É exatamente o que ensina a antiga
Cabala. Da mesma forma, a teoria genética, junto com a idéia do DNA, já era
explicada de forma bem mais profunda pelos cabalistas. O Rav Berg costuma
dizer que a Cabala é a ciência do século 25.
Qual o verdadeiro significado da Árvore da Vida
segundo a Cabala?
A Cabala explica que há dois universos paralelos, duas realidades existindo
lado a lado. A primeira é a realidade onde o caos predomina, onde existe a
lei de Murphy, que diz “tudo que pode dar errado dará errado”. É o mundo dos
altos e baixos, onde hoje está tudo bem, mas há completa incerteza quanto ao
amanhã. Esta realidade é codificada na Bíblia como “A Árvore do Conhecimento
do Bem e do Mal”. Hoje está bem, amanhã está mal, e assim por diante. A
segunda realidade é a Árvore da Vida. Neste nível da realidade, o caos não
existe, a própria morte foi cancelada. É a realidade da nossa alma, da Luz
plena, da plenitude total, da satisfação completa, da imortalidade. O que
determina com qual das duas realidades nos conectamos é a nossa consciência.
Dentro de um entendimento mais profundo da Árvore da Vida, compreendemos que
para a Luz Infinita poder se revelar num mundo finito, nos proporcionando o
livre arbítrio, era preciso que existissem diferentes níveis de ocultação da
Luz, desde um nível em que a Luz está totalmente revelada até o nosso nível
físico, em que a Luz está oculta. Existem então dez níveis de revelação ou
ocultação da Luz, que são as Dez Sefirot, formando a estrutura conhecida
como a Árvore da Vida.
Segundo a Cabala, quais as funções espirituais do
homem e da mulher?
A energia masculina é a energia de compartilhar. A energia feminina é a
energia de receber. Tudo no universo tem essas duas forças, dar e receber,
Luz e receptor. Quando um professor dá uma aula, está compartilhando com os
alunos seu conhecimento. Neste caso, o professor é a Luz e os alunos são o
receptor. O professor representa a energia masculina e os alunos, a energia
feminina. Quando falamos, estamos revelando nosso pensamento. A fala é o
receptor para o pensamento. Sem a fala o pensamento não poderia se
expressar. Neste caso, o pensamento é a Luz, a energia masculina, e a fala é
o receptor, a energia feminina. Tanto homem quanto mulher são formados pelas
duas energias, masculina e feminina. Mas o papel do homem é mais de
compartilhar e o da mulher é mais de receber e manifestar a Luz. O homem
planta a semente dentro da mulher, que a alimenta e guarda, para fazer a
gestação de uma nova vida. As duas energias se complementam, uma precisa da
outra. A semente não se manifesta sem a Mãe-Terra. E a Terra não pode
cumprir sua função de gerar vida sem a semente. Nenhuma energia é melhor ou
pior, superior ou inferior que a outra, mas certamente as energias são
diferentes, bem como suas funções.
Aplicação Prática:
Apesar do interesse mágico não constituir o centro dos estudos cabalísticos,
a utilização da Cabala na magia despertou imenso interesse nos eruditos
europeus, especialmente a partir do século XV. Nessa época surgiram muitas
obras sobre o tema e também inúmeros cabalistas cristãos, como Pico della
Mirandola, Johan Reuchlin, João Pistorius, Cornélio Agrippa e outros.
Muitos preferiram seguir pelo caminho da Cabala prática, a partir da
concepção de que as letras e números em que estão escritos os textos
sagrados não são apenas signos inventados pelo homem para registrar fatos e
pensamentos, mas formas que contêm o poder divino — conforme explica o
historiador Kurt Seligmann em seu livro A História da Magia. Assim, a
compreensão da Cabala também se firmou como uma forma de exercer as artes
mágicas, reconhecendo o poder das palavras.
Segundo Seligmann,
o que ocorreu é que enquanto um bom número de eruditos cristãos se dedicavam
à especulação metafísica, seguindo os passos dos letrados judeus, outros se
sentiram mais atraídos pela aplicação prática dos conhecimentos apresentados
nos livros cabalísticos.
É provável que o relato mais fantástico de uma aplicação prática esteja
representado pela história do Golem, um ser artificial que teria sido criado
em alguns momentos da história a partir do conhecimento cabalístico. A idéia
básica é que, assim como Deus tinha criado através da palavra, também se
poderia criar um ser artificial dessa maneira. No século XII, conta-se que a
seita dos Chassidim elaborou 221 combinações diferentes utilizando as letras
do alfabeto e, amassando uma quantidade de barro, tornou possível a criação
de um homem, desde que a combinação exata de palavras fosse pronunciada.
Para desfazer a criatura, bastava pronunciar as combinações invertidas. Um
dos problemas do Golem era que ele crescia muito rapidamente, assumindo
proporções de um gigante. Outra aproximação da lenda afirma que ele trazia a
palavra emeth (verdade) escrita na testa, e para fazer com que a criatura
deixasse de existir era só apagar a primeira letra, transformando a palavra
em meth (morte).
As histórias também dizem que Elias de Chelm criou um Golem no século XVI, e
que o ser começou a viver quando ele escreveu o nome secreto de deus em sua
testa. Outro rabino, que também teria feito um Golem, foi Judah Löw bem
Bezalel, de Praga, que o destruiu quando percebeu que ele não parava de
crescer.
Algumas versões da lenda afirmam que o Golem era utilizado para realizar
serviços domésticos; em outras, suas funções não eram tão superficiais, e o
ser andava pelo mundo realizando façanhas e ajudando o povo judeu quando
este se encontrava em dificuldades. A versão mais conhecida da lenda é a
escrita em forma de ficção por Gustav Meyrink (O Golem, publicado no Brasil
pela Ed. Hemus), mas ele também surge na obra de vários autores de
literatura fantástica, como E.T.A. Hoffmann e Villiers de l’Isle-Adam, além
de algumas adaptações para o cinema.
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