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Um dos pioneiros da música new age no
Brasil, o compositor e instrumentista Aurio Corrá fala sobre seu
trabalho, sobre a história e as características terapêuticas desse
gênero de melodia, cada vez mais procurado em todo o mundo.
Os especialistas em música New Age são unânimes na hora de
afirmar que os acordes desse tipo de melodia ultrapassam a fronteira do
puro entretenimento, pois estão diretamente ligados a um modo de pensar
e se relacionar com a realidade física e espiritual. Não há dúvida que
isso se deve à influência da música e técnicas de meditação orientais,
que atuam no físico das pessoas, reduzindo o estresse e proporcionando
significativa melhoria na qualidade de vida.
O compositor Aurio Corrá, hoje um dos grandes nomes da new age no
Brasil, foi dos primeiros, ou o primeiro a ter contato íntimo com esse
gênero de melodia nos anos 70. Segundo ele, a new age surgiu na década
de 60, durante a revolução criativa que sacudiu o mundo, modificou os
costumes e a música — especialmente as experimentações com rock e jazz,
que tinham grande urgência para encontrar novas formas de expressão.
"O flautista Paul Horn foi um dos primeiros a encontrar novos
caminhos e harmonias", explica Corrá. "Para isso ele viajou à Índia,
atrás da música oriental."
Essa busca pelo Oriente é um retrato do pensamento nos anos 60.
Filosofias e religiões milenares invadiram o Ocidente com espantosa
voracidade, trazidas por incontáveis gurus e suas seitas. A meditação, o
vegetarianismo e a expansão da consciência através das drogas
tornaram-se tão comuns quanto ver televisão. Em um dos trabalhos mais
marcantes da época, o álbum Revolver, dos Beatles, pode-se perceber
claramente a influência da cultura indiana nos instrumentos e ritmos,
adaptados à proposta do rock.
O que os estudos de Paul Horn mostraram foi um tipo de música
totalmente diferente do rock e jazz, que dominavam o cenário mundial na
época, muito bem recebida pelo público ocidental.
Transformação:
Além
das novas formas, instrumentos e harmonias, a 'caminhada para o oriente'
trouxe também a descoberta da música como elemento de transformação
individual. Segundo Corrá, outros músicos ocidentais, que seguiram as
pegadas de Paul Horn, perceberam que a preocupação com a qualidade de
vida era algo inerente às composições orientais. Elaborada e apresentada
corretamente, a música elimina o estresse, cura o corpo, desobstrui os
canais de energia, descongestiona o cérebro e harmoniza a pessoa.
A denominação new age propriamente dita surgiu quando a música
começou a invadir o meio psicanalítico, principalmente na Califórnia, e
ser utilizada em trabalhos de relaxamento. O mérito do batismo é
creditado a Steve Halpern, que começou a compor harmonias especificas
para seus clientes, adaptando algumas técnicas orientais de meditação
que, segundo se diz, não funcionam muito bem com ocidentais
desacostumados à cultura da paciência.
A partir de então a new age dividiu-se em várias correntes, e além
da melodia com características terapêuticas surgiu o que Corrá definiu
como música imaginativa — ritmos que, de certa maneira, convidam o
ouvinte a compor sua própria história a partir do que está sendo
executado. "É o tipo de música", diz Corrá, "na qual o indivíduo caminha
junto com o som, imaginando um filme em sua cabeça, formando imagens
junto com a melodia. Essa formação de imagens é excelente para
desobstruir o que está represado dentro da pessoa e desbloquear
energias".
Busca Espiritual

Aurio Corrá, que começou a estudar partitura aos 4 anos de idade,
saiu do jazz contemporâneo para a new age motivado por uma inquietação
interior, ou algo que ele chamou de curiosidade filosófica. Seguindo a
formação espiritualista de sua infância, que quase o levou à carreira
eclesiástica, ele partiu em sua busca filosófica, viajando à Índia para
conversar pessoalmente com gurus e beber a sabedoria na fonte.
Depois, quando chegou aos EUA, alguns amigos lhe falaram sobre
grupos que tocavam música para pessoas rezarem e meditarem. Bastante
desconfiado, ele foi assistir ao concerto de um artista new age, o que
acabou provocando uma mudança de rumo em seu trabalho. "Foi em 1970",
ele conta, "e eu nunca mais quis ver outra coisa. Comecei a me enfronhar
no assunto, comprar discos e estudar. Voltei aos EUA e à Índia, estudei
ainda mais, conversei com os músicos e comecei a trabalhar com a new
age".
Quando retornou ao Brasil, em 1980, percebeu que muitas pessoas
procuravam saber o que era essa música new age de que tanto se falava e
sobre a qual havia tão pouca informação. Corrá começou a difundir o
gênero, primeiro entre os amigos, depois profissionalmente, quando foi
convidado a apresentar o programa Alquimia, na Rádio USP FM, de São
Paulo. Três meses depois, o programa já era a maior audiência da
emissora e se manteve assim por vários anos, apresentando principalmente
álbuns importados, uma vez que, na época, pouca coisa era produzida no
Brasil.
Seu primeiro álbum, Aura, foi lançado em 1990 e deu a Aurio Corrá o
título de artista independente mais vendido no país. Os álbuns
seguintes, Soprus e Animus, seguiram o mesmo caminho, ultrapassando a
barreira das 40 mil cópias vendidas. Para ele, esses números apenas
comprovavam a sede que as pessoas tinham por esse tipo de música, e a
partir de então a new age realmente se estabeleceu no país. Grandes
gravadoras tentaram lançar alguns CDs, mas, segundo Corra, sem êxito por
terem escolhido obras erradas.
Hoje, vários especialistas estão instalados na área e a situação é
totalmente diferente, com lançamentos de grande qualidade, inclusive de
músicos brasileiros com prestígio internacional. Um exemplo da procura
pela new age está nos números de venda do álbum Imagens, que Corrá
lançou em 1994 e que já atingiu um milhão de exemplares. Reiki, lançado
em 1998, está seguindo o mesmo caminho.
Música e
Integração
O
desenvolvimento natural da new age originou diversos ramos. Alguns
compositores optaram pela utilização da música eletrônica e sistemas
complexos de computação. Outros, pela música acústica, pelo
desenvolvimento de pesquisas com instrumentos de percussão, ou a
utilização de instrumentos tradicionais.
Mais importante do que tudo isso, segundo Corrá, é que fazer música
new age implica em algo mais do que a escolha da forma como ela será
apresentada. "A preocupação de um músico new age não é se tornar uma
estrela, um astro famoso, mas produzir músicas que tragam benefício ao
próximo. Se a minha música puder acalmar outra pessoa, ela cumpriu sua
função. Geralmente, os compositores new age não dão concertos. Eles
vivem mais isolados, dedicando-se ao trabalho, compondo e,
ocasionalmente, saindo para tocar em institutos terapêuticos".
Para cumprir essa função da melhor maneira possível, diz Corrá, não
basta tocar uma música lenta qualquer. "O músico precisa ter uma
formação espiritual, filosófica, ter um trabalho interior para que sua
obra seja uma conseqüência disso. Eu, por exemplo, não sou apenas
músico. Sou psicólogo, me formei em medicina oriental, sou acupunturista,
estudei os meridianos de energia do corpo e todo o processo de
energização. Estudei shiatsu, medicina tibetana e toda a medicina
alternativa. Já trabalhei com isso e a minha música é conseqüência dessa
pesquisa. Como eu poderia fazer música para agir no corpo humano se não
conhecesse energia?".
Uma experiência simples e bastante conhecida, capaz de pode mostrar
a atuação da música num corpo é realizada com sementes: três partes da
mesma semente são colocadas em três salas separadas, sob as mesmas
condições climáticas, porém, cada uma é submetida a um tipo de música. O
resultado é que, com certos tipos de melodias, as sementes se
desenvolvem muito melhor.
O mesmo ocorre com o corpo humano. Corrá diz que é comum os músicos
utilizarem sons naturais em suas composições, como o barulho do mar,
ruídos típicos da floresta ou de um riacho. Não se trata de buscar um
efeito plástico para tornar a música mais bonita ou atraente, mas de
causar uma reação biológica no organismo. "A pessoa não percebe", ele
explica, "mas o efeito ocorre. Quando nos afastamos da natureza e
vivemos numa cidade grande, nós entramos em depressão que, em última
análise, é o afastamento da natureza. Pesquisas recentes provaram que o
inconsciente assimila todas as funções biológicas daquilo que vê. Isso
tem sido utilizado na recuperação de atletas imobilizados por lesões: o
fisioterapeuta faz com que ele imagine estar usando a parte do corpo
lesada e o resultado é uma recuperação 60% mais rápida. Assim, quando
escutamos o barulho do mar, nosso inconsciente reage como se
estivéssemos na praia, provocando reações químicas e biológicas no
corpo. Esse efeito pode ser produzido dentro de um apartamento, com a
música — o que, é claro, não exclui o prazer de ir à praia ou ao campo.
Mas é algo que ajuda, que alivia".
Buscar Qualidade
Para Aurio Corrá, é fundamental que as pessoas busquem aprimorar sua
qualidade de vida. "Quando temos uma vida interior melhor,
automaticamente o exterior também melhora. Não adianta lutar contra o
desmatamento, para que não joguem lixo nas ruas, para que não sujem os
mares e praias. Não adianta criar leis e vigilância. Quando a gente se
limpa por dentro, fica limpo por fora também, porque não há diferença
entre interior e exterior. O mundo é uma conseqüência do que nós somos.
Se tiramos o ser humano do mundo, o planeta fica bonito, porque é o
homem que está criando os problemas. Por isso, é necessário que ele se
limpe dentro, que melhore interiormente. Se estivermos todos calmos, o
mundo será calmo. Se estivermos em paz, o mundo estará em paz. Se
estamos bem, o mundo é um paraíso."
A maneira de mudar essa situação é o autoconhecimento, perceber que
somos basicamente desestruturados. "Quando se sabe que dentro de um
vidro tem veneno, não é aconselhável mexer nele. É muito simples. Não
precisamos de guru, não precisamos de religiões, de padres, pastores ou
filósofos. Não precisamos de ninguém para nos ensinar. Só precisamos
enxergar".
Neste sentido, a música new age pode ajudar a pessoa a realizar esse
trabalho de autoconhecimento, facilitando uma estruturação interna mais
adequada para sua vida e para o mundo que a cerca.
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